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Uma investigação da Polícia Civil do DF sobre prostituição infantil e tráfico de drogas trouxe à tona denúncia de um esquema ainda maior: proteção policial em troca de sexo. O ponto de partida foi a Operação Raabe, deflagrada em setembro, com batida no bar Aqui Tem Elas, na QNM 26, em Ceilândia.

Segundo apurado pela polícia, o comércio era fachada para a exploração sexual de adolescentes. Testemunhas contaram que dois policiais militares frequentavam o local constantemente e se relacionavam com as menores. Ambos foram, inclusive, alvo de mandados de busca e apreensão autorizados pela Justiça, após serem flagrados durante as investigações policiais entrando no estabelecimento e conversando “amistosamente” com o proprietário do local.

Uma das adolescentes confirmou que os PMs chegavam fardados e em viatura. No local, faziam uso de bebidas alcoólicas e mantinham relações sexuais com as “meninas” da casa. Ao final, saíam sem pagar nada.

O caso está sendo acompanhado pela Corregedoria-Geral da PM, que aguarda o desfecho das investigações para decidir se abrirá Inquérito Policial Militar (IPM) destinado a apurar a conduta dos policiais envolvidos, lotados em Ceilândia.

As garotas, segundo testemunhas, eram abordadas em Ceilândia e no Entorno do DF, como Águas Lindas e Cidade Ocidental. O aliciador seria o arrendatário do bar, Rogério Pereira dos Santos, 40 anos. Ele foi preso preventivamente, após ter sido detido durante a Operação Raabe, desencadeada pela Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA).

 

 

Além da prostituição infantil, o local fomentava o tráfico de drogas, promovendo uma venda casada incluindo sexo e cocaína. Rogério, conforme apurações policiais, cobrava R$ 50 por uma porção de maconha ou cocaína e costumava esconder os entorpecentes dentro de caixas vazias de uísque guardadas nas gavetas e prateleiras do bar.

Uma testemunha ouvida pelo Metrópoles reforça a tese da investigação. Ela, que pediu para não ser identificada, afirmou que uma viatura da PM costumava estacionar em frente ao estabelecimento: “Pelo menos dois policiais fardados entravam nesse bar e permaneciam por uma hora ou duas e pareciam manter uma relação de amizade com o Jiló (apelido de Rogério Pereira)”, contou.

A reportagem foi até o local onde o bar funcionava, na noite dessa quinta-feira (4/10), e conversou com moradores da rua que acompanhavam a movimentação intensa da casa de prostituição. O estabelecimento está fechado, com uma placa de “aluga-se” fixada no muro. O bar teria sido devolvido aos proprietários do imóvel, após a operação policial e não voltou a abrir as portas.

Sexo no débito
Os programas sexuais custavam entre R$ 100 e R$ 130 e Rogério costumava retirar cerca de R$ 30 de cada programa realizado nos fundos do bar. De acordo com as investigações, o suspeito obrigava as adolescentes a convencerem os clientes a consumirem muita bebida alcoólica no estabelecimento. Rogério recebia os pagamentos tanto em dinheiro quanto em cartão de débito.

A estrutura do estabelecimento foi erguida para manter a exploração sexual infantil a todo vapor. Além de uma sala, uma cozinha e três quatros, o terreno abriga uma casa em anexo com outros três cômodos. Segundo testemunhas, todos os quartos eram usados nos programas sexuais. “Às vezes, havia confusão na rua. A mãe de uma das meninas tentou tirar a adolescente no local e houve briga. Presenciei a garota que ficava na casa batendo na mãe”, disse uma vizinha do bar.

Assim como Rogério, Daiane Marques Luz, 28 anos, também está presa preventivamente, no presídio feminino, no Gama. A mulher é apontada como uma espécie de braço direito do cafetão. Ela fazia o agenciamento dos programas e tomava conta dos negócios quando ele estava ausente. A mulher seria a responsável pelas adolescentes, que muitas vezes passavam dias hospedadas nos quatros, fazendo programas. Os dias mais movimentados eram de quinta a domingo.

Nas buscas realizadas na residência de Rogério, com o apoio de cão farejador da Divisão de Operações Especiais (DOE), foi encontrada uma pistola calibre .765. No bar, a equipe policial apreendeu porções de cocaína. Rogério e Daiane foram autuados em flagrante pelos crimes de tráfico de drogas e associação para o tráfico.

Sobre as denúncias de que policiais militares frequentariam o bar e fariam programas com as adolescentes, o comando da corporação afirmou, por meio de nota, que as apurações seguem com a polícia investigativa. “A PMDF aguarda confirmação da hipótese de participação dos policiais militares para que, a depender do resultado das investigações, instaure procedimento administrativo ou não, garantindo-se ampla defesa e contraditório. No entanto, até o momento, não nos foi repassado o resultado da operação”, ressaltou a nota.