*
 

Religioso, o pai do menino apedrejado até a morte após sair de uma festa em Santa Maria recorre à fé para tentar achar forças e retomar a vida. Na pequena casa onde a vítima morava, localizada a poucos metros do local do crime, na QR 116 da região administrativa, as roupas de Gabryel Bezerra Pereira, 14 anos, penduradas no varal – bem como o quarto dele, mantido intacto – são sinais de que a família ainda espera pelo adolescente.

A residência, antes tomada pela alegria da música de Gabryel, hoje guarda apenas silêncio e dor. O pai ainda tenta entender a tragédia. Não encontra respostas para tamanha brutalidade, mas acredita que o crime tenha sido premeditado e o filho foi alvo de uma “emboscada”.

De acordo com José de Ribamar, o garoto, descrito como “carinhoso e obediente”, tinha o sorriso fácil e era capaz de fazer amigos com uma facilidade invejável. “Meu filho nunca fez mal a ninguém. Queria viver a vida dele, virar músico e ser feliz. Vivi momentos lindos ao seu lado e que só vão ficar na minha memória”, lamenta.

Agarrado à camisa vestida pelo adolescente (foto em destaque) horas antes de sair para a festa, na noite de quarta-feira da semana passada (4/7), José Ribamar não se conforma com a covardia. “Lutei para criar meu filho – e o tirarem de mim dessa forma?! Esses bandidos o trataram como animal”, lamentou.

 

De acordo com familiares, o menino saiu de casa e seguiu até uma distribuidora de bebidas. No local, foi convidado por duas amigas para ir à festa. Na casa onde ocorria o evento, Gabryel teria dançado com uma mulher, supostamente a namorada de um homem preso na Papuda.

O auxiliar de servente de pedreiro diz que os algozes já conheciam o jovem, e a história entre ele a moça seria antiga.

Ela já tinha tentado ficar com Gabryel outras vezes, mas ele sempre foi um menino bom, que evitava problemas. Quando ele recusou novamente, essa mulher jurou meu filho de morte. Já o esperavam do lado de fora. Mataram por inveja"
José de Ribamar, pai de Gabryel

Responsável pela investigação preliminar do assassinato, a 33ª Delegacia de Polícia (Santa Maria) encaminhou o caso para a Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA), pelo fato de os dois envolvidos no crime serem menores de idade.

O delegado-chefe da 33ª DP, Rodrigo Telho, afirma que um dos autores tem 13 anos – ele foi apreendido horas após o incidente e confessou o homicídio de Gabryel. Já o outro está foragido e teria 17.

 

A jaqueta
Gabryel foi morto de forma cruel. Nas imagens do circuito de segurança da QR 116, um dos assassinos dá uma pedrada na cabeça da vítima, que está caída. Depois volta e golpeia o adolescente mais uma vez. O outro ainda chega e leva a jaqueta do rapaz. O pai explica que a roupa, comprada dias antes do crime, foi um presente dado por ele ao filho.

Meu filho me pediu um tênis e depois a jaqueta. Dei de presente a ele. Daria tudo que ele precisasse, pois sempre me obedeceu, me ouvia e me tratava com carinho. Não sei o que fazer, só sei que sinto demais a falta dele"
José de Ribamar, pai de Gabryel

 

 

Região violenta
Comerciantes instalados na região onde Gabryel foi morto disseram que a quadra é perigosa e “está tomada pelo tráfico”. Sob condição de anonimato, afirmaram: as brigas entre gangues fazem parte do cotidiano e da rotina de quem frequenta as ruas de Santa Maria.

Nesta quinta-feira (12/7), a poucos metros do local onde Gabryel foi achado morto na madrugada de quinta da semana passada (5), o Metrópoles flagrou uma ação da Polícia Militar do Distrito Federal. Os policiais abordaram dois suspeitos em uma moto, numa das ruas mais movimentadas da região.