Padre em motel e caso com sogra: veja a rotina de detetives do DF

As situações vão das mais simples – traição – até as mais prosaicas. Segundo profissionais, maior parte dos clientes é formada por mulheres

Vinícius Santa Rosa/MetrópolesVinícius Santa Rosa/Metrópoles

atualizado 25/01/2020 14:22

A solução de um caso que parecia um trágico desaparecimento colocou a profissão de detetive particular de volta aos holofotes neste início de ano. A história de um empresário que passou sete dias sem dar qualquer notícia para a família levou a esposa do homem a contratar um investigador privado, acionar a polícia e oferecer uma recompensa de R$ 2 mil por uma informação que a levasse ao paradeiro do marido. No fim das contas, o detetive encontrou o homem com duas mulheres, em uma praia no litoral paulista, em São Vicente.

Os casos resolvidos por investigadores particulares no Distrito Federal não são menos absurdos. Acostumados a lidar com apurações nas quais a polícia não se envolve, a maioria dos clientes é composta por mulheres desconfiadas dos companheiros.

As suspeitas dessas esposas quanto à fidelidade dos maridos têm fundamento. “Em 100% dos casos que eu resolvi, o homem estava mesmo traindo”, conta o detetive Júnior Monteiro, na profissão há 18 anos.

Um dos detetives com mais tempo de atividade no DF, Edison Arnold começou a fazer investigações particulares antes mesmo de se aposentar como sargento da Polícia Militar, em 1998. Hoje, aos 72 anos de idade e 35 de profissão, já se deparou com várias situações com as quais sequer imaginou ser possível.

Por questões contratuais de garantia de sigilo, ele não revela nenhuma informação de seus clientes. Entretanto, garante já ter atendido desde o alto empresariado da capital até a cúpula dos Três Poderes.

Os casos são diversos: vão de traição a investigação empresarial. Também se envolvem em situações de desaparecimento e apuram até mesmo se os filhos dos contratantes estão fazendo uso de drogas. Algumas histórias, no entanto, são memoráveis.

Padre flagrado no motel

Um contato via e-mail vindo do exterior continha um pedido curioso: que se verificasse o cumprimento dos votos de castidade feitos por um padre do DF. Na outra ponta, um homem, que tinha ciúme do pároco, queria saber se ele mantinha um relacionamento com uma mulher.

Foram quatro semanas de acompanhamento e muita discrição. Nos 20 primeiros dias, o sacerdote se comportou como manda o regramento da Igreja Católica. Depois, o flagrante.

“Foram uma, duas, três semanas e nada. Quando estava completando quase um mês nesse caso, nós o seguimos e conseguimos flagrá-lo entrando num motel com uma mulher. Fizemos as imagens e entregamos para o cliente. Depois disso, não sabemos mais o que aconteceu, se houve alguma punição”, lembra.

O ex-policial também já foi chamado para apurar a desconfiança de uma mulher que acreditava estar sendo traída pelo marido. “Descobrimos que ele mantinha relações sexuais com a sobrinha menor de idade. Flagramos os dois entrando em um motel”, conta Arnold.

Roubo de gasolina

Quando percebeu que as contas não batiam e que a empresa dele vinha recebendo multas por adulteração de gasolina e adição de água, um empresário do ramo de postos de combustíveis de Brasília passou a desconfiar dos próprios funcionários. Para saber se era algum deles o responsável pela sabotagem, fechou contrato com o detetive Arnold.

A agência de investigação passou a monitorar os trabalhadores de perto e descobriu que eles estavam retirando 800 litros gasolina em cada carregamento. No lugar, colocavam água.

“Eram funcionários com muitos anos de casa que, quando são pegos cometendo esse tipo de crime, saem da empresa sem direito a nada. No caso desses empregados, o patrão até aliviou para o lado deles e não denunciou para a polícia. Entretanto, ficou aliviado porque acabou aquele prejuízo”, narra.

Tecnologia e técnicas

Os instrumentos usados acompanham os avanços tecnológicos. Atualmente, com câmeras cada vez menores e com qualidade de imagem melhor, os agentes conseguem sair com filmadoras escondidas em uma caneta e até no botão da camisa.

“O celular também facilitou. Hoje, todo mundo tem celular e ninguém desconfia se você abre a câmera e começa a tirar fotos”, diz o detetive.

Na agência, que funciona no Sudoeste, são seis profissionais, divididos em duplas compostas por um homem e uma mulher. “A gente trabalha assim. Casais chamam menos atenção do que dois homens em um carro”.

Os preços cobrados pelo serviço variam muito de acordo com o profissional. Começa em R$ 1 mil, por um caso simples e rápido, mas não há limite, a depender da complexidade. “Eu já tive contratos em que o valor bruto chegou a R$ 800 mil. Foram mais de dois anos e meio de investigação”, relembra Arnold.

Traição

Apesar de mulheres serem a maioria da clientela, uma detetive do DF – que pediu para ter o nome preservado – mantém na memória o caso de um cliente desconfiado da esposa. O resultado, ao longo de pouco mais de um mês de apuração, foi o flagrante de a esposa trocando carinhos e beijos com quatro homens diferentes no prazo de 45 dias.

“Em uma semana, consegui flagrar a primeira traição, mas ele [o cliente] me pediu para continuar investigando. Na semana seguinte, o parceiro era outro; três dias depois, mais um, diferente. Em pouco mais de um mês, ela traiu o marido com quatro pessoas diferentes”, revela a investigadora particular.

Segundo ela, os encontros aconteciam nas casas dos homens com quem ela se relacionava, sempre nos momentos em que o esposo estava no trabalho.

Entre os motivos pelos quais a investigadora já foi contratada está a apuração para saber se o filho menor de idade de um empresário brasiliense estava usando drogas.

“Ele era um menino ainda quando eu peguei essa história e estudava em uma escola particular bem conceituada e famosa. No dia seguinte à assinatura do contrato, eu o vi fumando maconha com um grupo de colegas, ainda com o uniforme da escola, depois das aulas”, lembra a profissional.

“Os pais ficaram arrasados, mas é importante saber no começo para evitar o vício”, opina.

“Sei que causa sofrimento”

“A gente aprende uma coisa nova a cada dia e morre sem saber de nada.” É assim que o detetive particular Júnior Monteiro, especialista em investigar casos de infidelidade conjugal, define o próprio trabalho.

Há 18 anos na profissão, Monteiro conta que, quando pensa já ter visto de tudo, é surpreendido pelo absurdo improvável de um caso solucionado. Ele chegou a trabalhar por mais de 10 anos como faxineiro e diz que sempre teve vocação para a profissão que escolheu. Atualmente, se dedica exclusivamente à atividade e mantém dois parceiros na agência.

Mesmo depois de tanto tempo, ele conta não ter se acostumado com a reação das pessoas quando recebem as provas de suas suspeitas. “As pessoas ficam tristes, decepcionadas. É o meu trabalho, eu tenho consciência, mas sei que isso causa sofrimento”, desabafa.

Monteiro guarda muitos casos na memória. Um dos que sempre vem à mente quando lhe perguntam sobre o trabalho é o de um genro que traía a esposa com a sogra.

Na época, a mulher desconfiou do distanciamento e frieza do marido, quando decidiu ir atrás do serviço privado de investigação. “Foi uma surpresa muito grande”.

Outro cliente, desta vez um homem cuja esposa estava grávida, também contratou Júnior Monteiro para saber se a mulher tinha um amante. “Ela estava se relacionando com outra pessoa, sim, mas era uma mulher”, recorda.

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