Pacientes com e sem Covid-19 ocupam o mesmo espaço em hospitais do DF

Há relatos de casos no Hospital de Base e nas unidades de Brazlândia e de Ceilândia. Secretaria de Saúde e Iges negam irregularidade

Paciente com Covid-19 deita em banco de hospitalMaterial cedido ao Metrópoles

atualizado 29/05/2020 14:11

Pacientes com e sem o novo coronavírus estão misturados nos hospitais Regional de Brazlândia (HRBz), de Base (HB) e Regional de Ceilândia. É o que denunciam servidores da Saúde, familiares de pessoas internadas nas unidades e o Sindicato dos Enfermeiros do Distrito Federal (SindEnfermeiro-DF), que vistoriou nessa quinta-feita (28/05) a unidade hospitalar localizada no Plano Piloto.

A entidade sindical considerou preocupante a situação no Base. “Servidores não estão sendo testados, pacientes com quadro sugestivo de Covid-19 não estão na ala destinada ao tratamento da doença e os enfermeiros não têm um repouso com condições mínimas”, listou o SindEnfermeiro.

Durante a vistoria, representantes do sindicato identificaram que as pessoas com suspeita de Covid-19 permanecem no pronto-socorro (PS) durante dias, assim como os sem sintomas da doença. “São encaminhados para a ala destinada ao tratamento de coronavírus, apenas depois da confirmação por exames – que demoram, em média, 48 horas para ficar prontos –, mesmo esses pacientes possuindo vínculo epidemiológico [quando familiares ou pessoas próximas testaram positivo]”, detalha a entidade.

O SindEnfermeiro cobra que o Base mantenha um local adequado para os enfermeiros que atuam no PS. “O repouso da emergência foi demarcado por especialidade, forçando os profissionais a repousarem em seus carros. Diante disso, os enfermeiros foram alocados em um espaço totalmente insalubre”, descreve. A entidade pretende adotar medidas administrativas e jurídicas para melhorar as condições de trabalho desses profissionais do Hospital de Base.

No Hospital de Brazlândia, há problemas semelhantes. Servidores que atuam na unidade, e querem ter o nome preservado para evitar represálias, afirmam que a limpeza deficiente no local aumenta o risco de contaminação pelo novo vírus. Além disso, os profissionais de saúde receberiam apenas uma máscara de proteção a cada quinzena (confira abaixo), quando o recomendado pelo Ministério da Saúde e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é que o item seja trocado a cada quatro horas.

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“Não há dignidade humana. O paciente chega amedrontado e se depara com um setor sem condições, no meio do lixo. Adulto Covid-19 positivo fica misturado com criança e adulto suspeito. Eu choro todos dias”, denunciou uma servidora.

Veja imagens: 

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Teoricamente, a unidade de Brazlândia não deveria receber pacientes com Covid-19. Os casos deveriam dar entrada no pronto-socorro, ficar isolados e depois ser transferidos para o Hospital Regional da Asa Norte (Hran), referência para o tratamento de acometidos pelo coronavírus no Distrito Federal.

“Mas desde sábado (23/05), o Hran passou a não aceitar a transferência imediata. Não poderiam receber nossos pacientes”, explicou a servidora lotada em Brazlândia. Segundo ela, os pedidos de deslocamento demoravam mais de 24 horas para conclusão, quando aceitos. E a situação piorou.

“A única divisão que temos dos pacientes com Covid-19 são biombos. E atravessamos de um lado para o outro do hospital para termos acesso à água, ao banheiro, laboratório”, relatou. Segundo a servidora, no pronto-socorro, pacientes suspeitos ficam ao lado de pessoas com outras doenças e os que testam positivo para a Covid-19 são acomodados em bancos e macas sem colchões e grades de proteção.

Confira: 

Complicações e falta de enfermeiros

Os corredores de Brazlândia costumam abrigar macas de pacientes. “Quando levamos um caso de Covid-19 para o raio-X, precisamos passar por eles. É um genocídio”, alertou a trabalhadora, que integra a linha de frente do atendimento na cidade do DF.

Segundo ela, faltou oxigênio para tratamento no domingo (24/05) e na segunda-feira (25/05). “Uma das pacientes que não conseguiu leito no Hran precisou ser transferida para o Hospital Regional de Ceilândia (HRC). O quadro dela ficou grave: tinha baixa saturação de oxigênio e precisou ser entubada. Outra também desenvolveu complicações”, revelou.

De acordo com os servidores ouvidos pela reportagem, a equipe de enfermagem tem apenas 14 profissionais, que deveriam atender apenas pacientes com Covid-19, e mais 14 profissionais ficariam a cargo do PS da unidade.

O Conselho Regional de Enfermagem do DF (Coren-DF) fez uma vistoria no HRBz em 14 de abril e classificou a situação no local como “temerária”. A ação confirmou falta de pessoal, falhas na acomodação de pacientes e risco de lotação. Nenhuma das irregularidades foi resolvida, segundo a entidade, que recebeu nova denúncia sobre problemas na escala de descanso dos profissionais devido à falta de equipe.

O Coren encaminhou relatório com as queixas para o Ministério Público do DF e Territórios (MPDFT), Ministério Público do Trabalho (MPT) e a Secretaria de Saúde do DF.

Familiares de pacientes internados no Hospital Regional de Ceilândia (HRC) denunciaram caso semelhante: gente com coronavírus no mesmo ambiente de pacientes com outras doenças e apenas meia parede dividindo a clínica médica, onde ficam os enfermeiros responsáveis pelo tratamento de Covid-19, de pessoas internadas com outras moléstias. “Trata-se de um extermínio”, resumiu uma familiar.

Outro lado

Procurada pelo Metrópoles, a Secretaria de Saúde negou qualquer falha no tratamento de pacientes no HRBz. “A direção do Hospital Regional de Brazlândia informa que a unidade não interna pacientes com a Covid-19. Esses pacientes são transferidos para o Hospital Regional da Asa Norte. Também não procede a informação sobre falta de EPIs e de limpeza. A unidade está abastecida de EPIs e a limpeza e desinfecção estão sendo realizadas normalmente”, diz nota encaminhada à reportagem.

Sobre o HRC, a pasta informou haver local isolado para pacientes da Covid-19, com seis leitos de quarentena dotados de ventilação mecânica onde ficam as pessoas com diagnóstico confirmado enquanto aguardam remoção para o Hran; cinco leitos com ventilação mecânica para pacientes críticos aguardando resultado de exames e seis poltronas para os com suspeita da doença, que também esperam o diagnóstico.

Procurado pela reportagem, o Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do DF (Iges-DF), gestor do Hospital de Base, afirma ter adotado “todas as medidas em conformidade com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde (MS) para realizar o atendimento de casos suspeitos ou confirmados de Covid-19”. Assim, a ala sul do pronto-socorro é exclusiva para os pacientes com coronavírus e a ala norte para os que precisam de outras especialidades nas quais a unidade de saúde é referência.

“Todo o ambiente está organizado e foi readequado para que não haja cruzamento de fluxos entre as alas”, descreve o Iges-DF, em nota. “Em relação às testagens, todos os colaboradores que apresentam sintomas suspeitos são devidamente testados, e, em caso de confirmação, afastados. Além disso, todos os estoques de equipamentos de proteção individual (EPIs) estão abastecidos visando a proteção e segurança dos profissionais”, completa o instituto, que afirma respeitar os períodos de descanso, em ambiente adequado, das equipes de saúde que atuam no local.

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