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O que era para ser um novo espaço de convivência em área nobre no centro de Brasília se tornou cartão postal do medo. Entre a Torre de TV e a Rodoviária do Plano Piloto, o Jardim Burle Marx começou a ser projetado em 2013 e deveria ter ficado pronto antes da Copa do Mundo do ano seguinte. Mas até hoje o local é um canteiro de obras.

Em vez de flores para embelezar o cenário por onde passam cerca de meio milhão de pessoas diariamente, há tráfico de drogas e prostituição. Quem vai à estrutura em busca de entorpecentes batizou a área de “Jardim do Crack”.

A base da construção, onde deveria haver um lago suspenso, transformou-se em espécie de caverna, na qual criminosos se escondem durante o dia para consumir drogas e cometer delitos à noite. Um buraco foi feito na parede de cimento, providenciando rota de fuga em caso de ação policial.

Pelo chão, há latas de alumínio improvisadas como cachimbos de crack, muita roupa suja, isqueiros e carcaças de sistemas de som automotivos, possivelmente roubados ou furtados nas imediações. O Metrópoles acompanhou a movimentação durante o dia e também de madrugada. É quase impossível respirar no espaço escuro e insalubre, tomado pelo lixo e por fezes humana.

 

Faca no crânio
A obra abandonada agora é foco de problemas para os policiais civis e militares responsáveis pela segurança da região. No Jardim do Crack, já foram cometidos crimes graves, além do tráfico e do consumo de drogas. Um homem chegou a ter uma faca cravada no crânio durante tentativa de homicídio.

A agressão ocorreu em 27 de novembro do ano passado e está sob investigação da 5ª Delegacia de Polícia (Área Central). O caso começou a ser apurado como um roubo com restrição de liberdade, no qual a vítima fica em poder dos criminosos até entregar todos os pertences.

Com o andamento das investigações, apurou-se que a vítima também seria usuária de drogas e teria entrado em conflito com traficantes e usuários, que tentaram matá-la.

A situação é consequência, segundo o delegado-chefe da 5ª DP, Rogério Rezende, da busca por criminosos por locais pouco iluminados ou abandonados próximos a pontos de grande movimentação de pessoas, como a rodoviária e o setor de hotéis.

Sabemos desses pontos e trabalhamos para combater o crime nesses locais. Prendemos muitos traficantes que agem nessa região, mas, após serem liberados pela Justiça, eles migram para outras áreas do Plano Piloto."
Rogério Rezende, delegado
Hugo Barreto/Metrópoles

Estrutura serve de abrigo para traficantes e usuários

 

Vida na caverna
Durante visita da reportagem ao Jardim do Crack, um dos usuários que utiliza o local para o consumo de drogas aceitou contar como é a vida na caverna. Wesley (nome fictício), 30 anos, tentava tomar banho quando a equipe se aproximou. “Podem ir entrando, sem problemas, mas ficar aqui dentro é complicado”, alertou. Com o sol a pino, o cheiro de urina se mistura ao de fezes, deixando o ambiente insuportável.

O rapaz estava animado, pois havia conseguido um emprego e planejava abandonar a rua e as drogas. “Não vou mentir, uso crack aqui, mas nunca matei nem roubei ninguém. Estou morando na rua porque minha mulher me deixou e perdi a cabeça. Mas hoje tenho esperança de mudar de vida. Já ganhei roupas novas e espero escapar dessa caverna em breve”, disse.

Wesley relatou sobre a transformação do local durante a noite. “Acontece de tudo aqui, e realmente é perigoso, prefiro me afastar e dormir em outro canto. Aqui matam e morrem por uma pedra de crack”, afirmou.

 

Drogas no Eixo Monumental
Aém do Jardim do Crack, outros pontos ao longo do Eixo Monumental são usados por traficantes para movimentar o mercado das drogas às margens de uma das vias mais importante do DF. Conhecida como “Fazendinha” a área verde em frente ao Centro de Convenções Ulysses Guimarães é apontada pela polícia como estratégica pelos criminosos.

“É perfeito para os criminosos, pois quem entra é visto pelas pessoas que estão escondidas em meio à vegetação. Isso dá vantagem para a fuga”, contou um policial ouvido pela reportagem.

A região é dominada por um grupo rival aos traficantes que atuam do outro lado da pista, nos banheiros que deveriam servir às pessoas que utilizam as quadras de esportes localizadas nos fundos do Ginásio Nilson Nelson. De acordo com as investigações, os traficantes se aproveitam da estrutura para passar a noite.

 

Empresa abandonou obra
O Metrópoles procurou a Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap) para falar sobre o abandono das obras que deram origem ao Jardim do Crack. Segundo o órgão, a empresa responsável pela obra do Jardim Burle Marx abandonou o empreendimento.

“Foi feita a rescisão contratual, e a Novacap aplicará as sanções previstas. Devido à crise hídrica pela qual o DF passa, o espelho d’água não será mais construído, e serão plantadas árvores e grama no local. A previsão é finalizar o jardim com equipes próprias da companhia”, informou a Novacap, por meio de nota. No entanto, não foi dada previsão de término das intervenções.

Ainda segundo a Novacap, quando a empresa Vale do Ipê Construção e Urbanização abandonou a primeira etapa, a obra estava 60% concluída, orçada em R$ 6.525.154,03 com aditivo financeiro de R$ 1.591.697,50. Já a segunda etapa estava com aproximadamente 30% terminada, com investimentos de R$ 12.893.127,89. A soma chega a R$ 21 milhões.

O Metrópoles não conseguiu localizar representantes da empresa para comentar o assunto, pois o telefone informado no cadastro da construtora hoje é de outra companhia.

Novacap/Divulgação

Perspectiva da Novacap de como deveria ficar o Jardim Burle Marx