Novo aterro sanitário ajuda, mas não resolve o problema do lixo no DF

Obra que será inaugurada nesta terça (17/1) receberá um terço dos resíduos da capital. O restante ainda vai para o Lixão da Estrutural

Após mais de uma década de espera, será inaugurado nesta terça-feira (17/1) o Aterro Sanitário de Brasília, que fica na DF-180, entre Samambaia e Ceilândia. Porém, o início das atividades não anima especialistas, que apontam um longo caminho para que o Distrito Federal trate da forma correta o lixo coletado.

O primeiro problema apontado é a continuidade das atividades no Lixão da Estrutural, também conhecido como Lixão do Jóquei. Com a inauguração da primeira etapa nesta terça (17), o aterro de Samambaia começa a receber cerca de 900 toneladas de lixo doméstico por dia, o que representa um terço do total coletado no DF. O restante continuará seguindo para o terreno antigo.

O governo só poderá desativar o Lixão da Estrutural — o maior da América Latina —, após a construção de sete galpões de triagem e a contratação de catadores para fazer a coleta seletiva do material reciclável.

Para Gustavo Souto Maior Salgado, professor do Núcleo de Estudos Ambientais da Universidade de Brasília (UnB), a questão social é preponderante nesta transição. “Há cerca de 2 mil famílias que sobrevivem da coleta de lixo. Não há como ignorá-las. É preciso que o governo garanta uma alternativa para eles”, aponta o especialista. Na última sexta-feira (13), catadores e carroceiros fizeram um protesto no Palácio do Buriti.

De acordo com o Serviço de Limpeza Urbana (SLU), os editais para a construção dos centros já estão abertos, e a previsão para a conclusão dos primeiros galpões é no segundo semestre de 2017. Além disso, quatro cooperativas de catadores já foram contratadas em 2016 e, até 2018, outros 1,6 mil trabalhadores remunerados serão incluídos no sistema público de limpeza urbana.

Obras no Aterro Sanitário de Brasília

Impacto ambiental

Além da preocupação social, a mudança da coleta de lixo para o aterro de Samambaia traz outro questionamento: o que será feito do terreno do Lixão da Estrutural? Segundo o ambientalista Salgado, serão necessários anos para que a área seja recuperada.

Em um primeiro momento, o terreno não poderá receber qualquer atividade humana, devido à concentração de chorume, substâncias tóxicas e gás metano, que podem trazer riscos à saúde e até perigo de acidentes. Somente após cerca de 10 anos, caso o governo atue de forma eficiente para recuperação, o espaço poderá receber a presença humana de forma suave, como um parque, por exemplo

Gustavo Souto Maior Salgado, ambientalista

Aquífero contaminado
Mas há quem considere a situação ainda mais delicada. Para Sérgio Koide, engenheiro ambiental e professor da UnB, as consequências ambientais do lixão devem perdurar por décadas. “Parte das substâncias tóxicas que chegarem ao aquífero subterrâneo ainda contaminarão córregos importantes nos próximos anos.”

A solução, segundo o pesquisador, passa por medidas complexas. “Seriam necessários investimentos massivos em ações que impeçam a continuidade de infiltração de chorume no solo e até a construção de um outro aterro nas proximidades para tratar o lixo que está na superfície. Mesmo assim, a recuperação demoraria décadas.”

Apesar do panorama desfavorável, Koide ressalta avanços. “A construção de um aterro e a não criação de novos lixões já são um passo importante, pois não aumentam o passivo ambiental acumulado em todos esses anos”, aponta.

 

 

 

Comunidade reclama
A instalação do aterro sanitário preocupa moradores e trabalhadores da região. Para eles, o depósito pode trazer doenças e prejudicar a saúde da população. “Nós seremos os menos favorecidos. As quadras da expansão de Samambaia ficam bem próximas ao local, disse a líder comunitária Lindinalva Gomes Ferreira, 47 anos, moradora da Quadra 325 de Samambaia Sul.

O governo deveria ter destinado alguma verba para melhorias nas redondezas. Tememos que não haja tratamento do chorume e isso cause impacto ambiental e muitos danos 

Lindinalva Gomes Ferreira, líder comunitária

O especialista Gustavo Souto Maior Salgado, porém, tranquiliza a população. “Caso o manejo seja feito de forma correta, não há riscos para os moradores. Aterros como este não causam mau cheiro nem atraem animais. Na realidade, pode-se considerar uma oportunidade de geração de empregos na região”, esclarece.

“Idade da Pedra”
Entretanto, o estudioso considera que ainda há muito para a própria população contribuir para o melhor tratamento do lixo. “Ainda estamos na Idade da Pedra na coleta de dejetos. As pessoas não sabem como nem por que separar os objetos descartados. Somente com um trabalho intenso de educação dos cidadãos e de benefícios para quem faz o descarte de forma correta será possível reverter essa cultura”, sugere Salgado.

Ainda segundo o SLU, a partir do segundo semestre, está prevista a mudança na coleta seletiva em toda a cidade. O sistema será alternado entre a coleta convencional e a seletiva.

Galpão do novo aterro sanitário

 

Recolhimento no aterro
O espaço de 760 mil metros quadrados, projetado para comportar 8,13 milhões de toneladas de rejeito tem vida útil estimada de 13 anos, e sua construção é dividida em quatro etapas. Na primeira fase, serão 110 mil metros quadrados de área de aterramento, dividida em quatro células. A primeira a receber o material tem 44 mil metros quadrados.

Das 2,7 mil toneladas de lixo recolhidas por dia na capital, 1,2 mil recebe tratamento. Desse montante, aproximadamente um terço é classificado como rejeitos e será levado à nova área.

De acordo com o diretor-adjunto do SLU, Silvano Silvério da Costa, “a mudança será gradual e a Secretaria de Desenvolvimento Social, Trabalho e Direitos Humanos selecionou 900 catadores, que receberão uma bolsa de R$ 300 de complementação para o que deixarão de recolher”.

Para Ronei Alves da Silva, 42 anos, representante do Movimento Nacional de Catadores, a bolsa mensal não resolve o problema. “Precisamos de garantia de emprego. Na realidade, o governo não cumpriu o que está na Lei Nacional de Resíduos Sólidos, que determina implantação de reciclagem, reuso, compostagem, tratamento do lixo e coleta seletiva no DF.”