O último dia das audiências de instrução no âmbito da Operação Caixa de Pandora começou com o interrogatório de Fábio Simão, ex-chefe de gabinete de José Roberto Arruda (PR). Ele sentou no banco dos réus às 9h15 desta quarta-feira (19/12). Os sete depoimentos previstos para o dia são colhidos pelo juiz substituto da 7ª Vara Criminal de Brasília, Newton Aragão, na sala do Tribunal do Júri – onde o espaço é mais amplo.

A formação de quadrilha é uma das acusações que envolvem o alto escalão do Distrito Federal na gestão de Arruda e no período que antecedeu as eleições de 2006. As denúncias tratam de uma engrenagem de cobrança de propina em contratos de informática para financiar campanha eleitoral e comprar apoio de deputados distritais.

Fábio Simão é acusado pelo delator do esquema, Durval Barbosa, de fazer parte do grupo responsável pelos desvios. Ele assumiu como chefe de gabinete de Arruda, em 2009, em substituição a Domingos Lamoglia, que foi nomeado conselheiro do Tribunal de Contas do DF. Simão é citado em uma das gravações de Durval como responsável pelo pagamento de propina ao ex-deputado distrital Benedito Domingos.

“Canalha”
No depoimento, Simão negou as acusações de Durval, a quem classificou como “adversário” e “canalha”. “Ele era um mau-caráter, que prestava serviços escusos. Era público e notório. Gravava até conversa de botequim e depois editava, mas ele não tem um vídeo meu”, disparou.

Nas justificativas, Simão explicou que não tinha contato com o delator e não mantinha relações políticas no GDF. “Eu era secretário adjunto de Governo apenas por tratar de assuntos pertinentes à Copa do Mundo. Nunca tive participação nesse tipo de negociação, se é que houve alguma”, disse, sobre o cargo que ocupou anteriormente.

A respeito dos R$ 33 mil reais apreendidos no gabinete, Simão reiterou ser fruto da venda de gado de uma agropecuária que possuía na época. “Tudo foi comprovado pela própria auditoria do Ministério Público”, frisou. Ele também negou ter viajado com Arruda para países considerados “paraísos fiscais”, conforme aponta a denúncia. “Nem conheço as ilhas Caymã.”

Oitivas
Dezesseis réus fazem parte da ação que apura a formação de quadrilha, e 15 serão ouvidos. Por isso, os interrogatórios foram distribuídos em dois dias. Nesta quarta-feira (19), Simão foi o primeiro a falar.

Depois, o juiz interrogou Gibrail Gebrim, ex-chefe da Unidade de Administração e Gestão da Secretaria de Educação do DF. Ele também negou as acusações. “Nunca soube de nenhuma ilicitude no período que participei do governo. Se soubesse, teria denunciado. É a função de um servidor público”, disse.

Servidor de carreira, Gebrim disse que conduziu um processo licitatório que teria desagradado Durval. Segundo ele, o delator tentava articular o resultado para favorecer uma empresa que acabou derrotada. “Quando ele soube disso, ligou para minha substituta, disse que eu iria me arrepender e que acabaria com a minha vida. Ele acabou conseguindo”, apontou.

Rodrigo Antunes
Terceiro a ser ouvido no processo da Caixa de Pandora, Rodrigo Arantes foi flagrado, em vídeo, carregando uma sacola com suposto dinheiro ilegal entregue por Durval a Arruda. Em seu depoimento, o ex-secretário particular negou participação no esquema e disse que se atinha à função de atender telefonemas e passar recados ao então governador.

Nas considerações finais, Arantes disse que, após ser preso na operação, ficou sem emprego e teve que estudar para concurso público. “Quero reiterar que não sou integrante de associação criminosa e não cometi nenhum crime”, afirmou.

Suspeita de corrupção no Na Hora
Ex-diretor-geral do Na Hora, Luiz França apareceu em vídeo recebendo dinheiro do delator. Na oitiva, ele esclareceu que se tratava de uma doação à campanha de reeleição do irmão de Durval, o então deputado distrital Milton Barbosa.

Questionado se sabia a origem do dinheiro ou se a quantia foi declarada na prestação de contas eleitorais, França afirmou que essa era uma atribuição do tesoureiro da legenda, e ele era o presidente do PMN-DF na época. “Apenas guardei o dinheiro no cofre do partido.”

“É tudo uma farsa. Minha vida foi destruída. Não sei como alguém que não era ordenador de despesa poderia se associar com alto escalão do governo”, disse França. Ele é acusado de receber recursos de empresas que prestavam serviços ao Na Hora para campanha de Arruda.

Gaiato
Ex-assessor de Durval, o engenheiro elétrico Luiz Paulo Sampaio da Costa foi o primeiro a depor na tarde desta quarta. Ele foi diretor-presidente da Agência de Tecnologia e Informação do governo local à época, órgão subordinado à Codeplan.

Ele confirmou ter assistido vídeos gravados pelo delator, em especial ao do ex-governador José Roberto Arruda em que aparece recebendo dinheiro. Ele também reconheceu estar presente na gravação onde Durval entregou dinheiro a Luiz França. “Ele sempre demonstrou ter muito dinheiro. Falava pra todo mundo que tinha papelaria, imobiliária e soube que tinha uma lanchonete famosa também”, declarou.

O ex-aliado de Durval sustentou que “estava de gaiato” no momento da entrega. “Ele me pediu para contar o dinheiro, contei e entreguei. Não sabia que estava sendo gravado. Não era esse o contexto. Depois, ele passou a me ameaçar.”

Embora tenha afirmado não ter conhecimento sobre cobrança de propina a empresários, Sampaio caiu em contradição em alguns momentos. O engenheiro sustentou que teria visto mais de uma vez o uso de arma de fogo pelo delator. “Ele fazia isso para pedir dinheiro aos empresários”, mencionou.

Em determinado momento, o depoente afirmou que o delator já havia pedido que ele levasse uma mala ao então chefe da Casa Civil, Jose Geraldo Maciel. No entanto, completou Luiz Paulo, Durval teria mudado de ideia e pedido para guardar o objetivo no automóvel dele, que estava na garagem do anexo do Buriti. Ele disse não saber se havia dinheiro dentro da mala.

Grande cenário
Ex-diretor do Grupo Paulo Octávio, o engenheiro Marcelo Carvalho de Oliveira afirmou que foi feita uma armação sua aparição em um dos vídeos. “Montaram um cenário em cima de mim, pelo meu vínculo com Paulo Octávio, que foi um grande constrangimento”, justificou.

Carvalho acrescentou que malhava na mesma academia de Durval, quando o delator disse que tinha uma encomenda para ser entregue ao ex-vice-governador. Segundo o ex-diretor, a missão foi aceita e ele teria deixado uma pasta no gabinete de Paulo Octávio. Segundo o político disse em outra ocasião, o conteúdo tratava-se de pesquisas eleitorais.

Último
Amigo do delator da Caixa de Pandora, o ex-policial civil Marcelo Toledo Watson foi o último a depor nesta quarta-feira para a 7ª Vara Criminal. Protagonista de um dos vídeos, ele preferiu não se manifestar, a pedido da defesa, sobre o material, ao qual ele considera uma “prova ilícita”.

O ex-policial explicou que a quantia de dinheiro entregue a Omézio Pontes, ex-porta-voz do GDF, foi na verdade um “favor” feito a José Carlos Cardoso, então segurança de Durval, conhecido como Zé Gatão. “Eu ia falar com Durval e o Zé Gatão não poderia esperar por ele. Então, pediu para que eu entregasse aquela sacola. Foi o que fiz e repassei o recado que me foi dado: era 90 da ‘Cap’. Mas eu não sabia do que se tratava.”

Toledo se recusou a responder questionamentos do Ministério Público, mas frisou desconhecer os atos supostamente ilícitos do delator da operação. “Ele era muito amigo meu, desde antes de eu ser policial. Embora eu fosse investigador, nunca soube de nada com o nome dele”, concluiu.