Fuzileiros navais do DF denunciam treinamento com aglomeração. Veja

Praças ouvidos pelo Metrópoles alegam descaso da corporação com medidas de distanciamento social para barrar a transmissão da Covid-19

Mesmo com o sistema de saúde do Distrito Federal em colapso e o número de óbitos crescendo a cada dia, praças do Grupamento de Fuzileiros Navais de Brasília não praticam o distanciamento social e são obrigados a fazer atividades rotineiras do quartel aglomerados e sem equipamento de proteção individual. Nem mesmo a chegada da segunda onda da Covid-19 na capital fez com que protocolos rígidos de proteção sanitária fossem adotados pela corporação.

Segundo relatos de soldados, cabos e sargentos, há militares com a doença, e esses são afastados. Contudo, quem tem familiares infectados continua frequentando o quartel. O Metrópoles teve acesso a imagens que mostram atividades no Grupamento. O treinamento operacional é feito diariamente e sem o equipamento de proteção.

Veja imagens registradas no treinamento dessa quinta-feira (18/3):

 

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Militares realizam atividade sem máscara
Segundo denúncias, há negligência nos protocolos de distanciamento

Três militares ouvidos pela reportagem, que terão a identidade resguardada por medo de retaliações, foram unânimes em dizer que se sentem ameaçados e consideram o comando negligente, ao expô-los aos riscos da crise sanitária.

“Temo por mim e por minha família, além do deslocamento que é feito no trajeto até o quartel, que no meu caso e de muitos outros militares é por transporte coletivo, dentro da organização nós dividimos alojamento entre mais de 300 militares. O risco de proliferação do vírus naquele ambiente é muito alto”, contou um soldado.

O militar mora com a avó, idosa, e com a mãe, acometida por doença crônica – ambas integram o grupo de risco para o novo coronavírus.

Um sargento concordou com as alegações de que há risco sanitário nos alojamentos. “O descuido é grande por parte de alguns militares, que subestimam a doença. O alojamento comporta centenas”, alertou.

Segundo os entrevistados, a cada dia aumentam os casos de companheiros internados com a Covid-19. “Nosso colega está respirando por aparelho e a pergunta que fica é: quem será o próximo?”, desabafou um soldado. De acordo com os relatos, a cada semana, ao menos dois militares são diagnosticados com a doença. Apesar disso, o comando não teria atuado para reforçar os cuidados com as medidas sanitárias.

“Conseguimos visualizar o descaso com [a marcação de] cerimonias, marchas, adestramentos e cursos que têm ocorrido”, disse um sargento entrevistado. “Há cerimônias e a escala de serviço está muito curta. O militar passa até mesmo mais tempo no quartel do que em casa [na pandemia]”, completou o soldado.

“O comando exerce uma liderança muito autocrática, na qual impossibilita a classe de praças de sugerir algo que vá alterar na rotina”, informou um deles. “Em razão do medo de retaliação, nós não tentamos sugerir algo diferente”, corroborou o sargento.

Uso compartilhado

Outro fuzileiro reclama do equipamento usado pela tropa. “Os coletes e capacetes de serviço são sempre os mesmos, compartilhados e com pouca limpeza”, contou.

Segundo o militar, o local da alimentação, conhecido como “rancho”, é o mais arriscado. “O lugar está sempre cheio e sem distanciamento adequado. Todos usam os mesmo talheres para se servir: eles não são trocados das 11h15 até às 13h”, detalhou o fuzileiro.

O 7º Distrito Naval convoca o efetivo completo de fuzileiros com a expressão “Todos a bordo”, duas vezes na semana: nas tardes de segunda-feira e nas manhãs de sexta. As convocações, antes diárias, foram reduzidas. Não por conta da pandemia, mas apenas porque a cozinha do quartel passa por reformas. O documento interno que oficializa a agenda dos militares traz a explicação em nota de rodapé.

Veja:

Tabela de horários dos fuzileiros

 

“Meu cuidado é redobrado, nunca deixo de usar máscara e lavo as mãos com frequência, o complicado é que o HFA [Hospital das Forças Armadas] está lotado”, preocupa-se. “Quando pego ônibus para o quartel evito os lotados, isso de ficar aglomerado me dá medo de infectar as pessoas que moram comigo”, resumiu um dos praças.

Outro lado

Procurado, o 7º Distrito Naval informou em nota que as fotos e vídeo da reportagem estão descontextualiazadas e não representam descaso com as medidas sanitárias. De acordo com a corporação, a primeira imagem retrataria a tropa em cerimônia realizada antes da pandemia. As demais fotos seriam recentes, porém, teriam acontecido em momento em que os militares estão abastecendo seus cantis e se hidratando após uma instrução, em que foram utilizados equipamentos de proteção individual. “Esses poucos militares estariam em estágio de qualificação e ficam isolados e sem contato com os demais militares a bordo”, informaram.

Ainda segundo o Distrito, quanto ao vídeo, na data informada pela reportagem, houve adestramento de rapel e, portanto, utilizavam outro uniforme, incompatível com o mostrado na imagem. “Com relação à utilização do rancho, ela é feita em horários alternados e mantendo o distanciamento adequado entre os militares no referido local”, disse o 7º Distrito.

Sobre os protocolos de segurança. a corporação informa que além da redução do efetivo a bordo, é realizado teste de diagnóstico de Covid-19 na tripulação regularmente e todos os militares que apresentam sintomas, sejam diagnosticados ou relatem contato com pessoas diagnosticadas com a doença, são preventivamente afastados pelo período de 14 dias. “Também são disponibilizados frascos de álcool em gel e tapetes sanitizantes nos espaços de uso comum, mantida a higienização dos locais e materiais, além da distribuição de equipamentos de proteção individual e a orientação constante para cumprimento das medidas de prevenção, que será ainda mais reforçada junto à tripulação”, diz a nota.

A corporação destaca, ainda, que as Organizações Militares subordinadas ao Comando do 7º Distrito Naval permanecem mantendo sua capacidade operativa para apoiar, tempestivamente, as demandas dos governos federal, estaduais e municipais em diversas ações para o enfrentamento à Covid-19. “Para tal, os treinamentos são requisitos mínimos para a manutenção da condição de pronto emprego. A Marinha do Brasil reforça que tem o pessoal como seu maior patrimônio e tem adotado medidas em âmbito nacional para contribuir no combate ao coronavírus”, conclui a nota.