Restaurante no DF sobe preço e avisa clientes: culpa é da China

Donos de estabelecimentos chegam a cobrar valores diferentes para quem não comer carne devido ao aumento no custo dos produtos bovinos

Thiago S. Araújo/ Especial para o MetrópolesThiago S. Araújo/ Especial para o Metrópoles

atualizado 14/01/2020 22:52

O aumento de 36,73% no preço da carne no ano de 2019, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), não atrapalhou apenas quem costuma cozinhar em casa. Restaurantes também sofreram com a escalada de até 40% no quilo dos variados cortes bovinos. Muitos empresários não viram outra forma de evitar prejuízo: passar o custo ao consumidor.

No Setor Comercial Sul, tem estabelecimento que até se justifica ao cliente. A empresária Cristiane Aguiar, 35 anos, por exemplo, colocou um aviso no caixa para explicar a situação: “Devido ao aumento na exportação de carnes para a China, o Brasil está com baixa de carnes para abastecer o comércio nacional”.

O problema ocorreu devido à alta do dólar. Com a moeda norte-americana valorizada, os produtores brasileiros têm lucrado mais ao vender a proteína bovina para o exterior. Além disso, os chineses aumentaram as compras de carne bovina. Assim, com menos oferta no mercado local, os estoques ficam mais caros.

O impacto do comércio internacional é sentido na capital do país. “Precisei tirar o cardápio de circulação, pois não tem como arrumar preço toda semana. Só no último mês, foram quatro vezes”, disse Cristiane.

De acordo com ela, foi preciso adotar a estratégia de escrever à mão todos os dias o cardápio, além de colocar o aviso no caixa sobre o incremento do valor cobrado. “Vai ser assim até estabilizar. Até por que a gente incrementou a oferta de carne branca em comparação ao que tinha antes. É uma tentativa de não espantar o cliente”, explica.

A situação se repete em vários estabelecimentos do SCS, que estão com placas rasuradas e preços do quilo ou da marmita alterados. É o caso do restaurante de Cristiele Santos, 33. Como o local funciona no modelo self-service, não há como abdicar da oferta de carne bovina. “Precisei começar a controlar a oferta. Coloco menos na chapa para as pessoas comerem menos”, diz.

Mesmo assim, ela precisou aumentar o preço. Até o ano passado, os clientes pagavam R$ 11 e comiam o tanto que quisessem. A partir do início deste ano, o valor subiu para R$ 12. A marmita também ganhou uma diferenciação: com churrasco passou a ser mais cara que sem carne bovina. “Antes, eu comprava carne por R$ 13 por quilo, agora chega a R$ 18. Não tem como não ter prejuízo”, lamenta.

No intuito de evitar a perda de clientes, ela passou a tentar atrair a atenção das pessoas de outras maneiras. “Ofereço um doce de graça após o almoço, por exemplo. Mesmo assim, o movimento caiu bastante”, reclama.

Já Udileston Lopes, 66, diz que ainda não pretende subir o preço do quilo cobrado dos clientes. Com medo das consequências, ele prefere segurar o valor do que ver o restaurante dele esvaziar. “Se aumentar o preço, espanta o cliente. Nós ainda estamos em janeiro, quando o movimento é baixo. A vizinhança do restaurante também é complicada, com muitos moradores de rua, fora a concorrência das marmitas.”

Consumidores aguardam manutenção dos preços

A arquiteta Julliana Bomtempo, 35, mesmo não sendo fã de carne bovina, sofreu com a disparada. Acostumada a sempre pedir frango na marmita do almoço, ela viu o valor cobrado aumentar R$ 1,50 no último mês. Mesmo assim, ela diz que pretende continuar pedindo o mesmo prato no local. “Para mim é mais prático. Dá um custo de quase R$ 50 no mês, mas é uma despesa que preciso”, afirma.

De jeito igual pensa a dona de casa Mônica Pereira, 34. Para ela, como os produtos da cesta básica aumentaram, ainda vale a pena almoçar fora. “Está melhor comer na rua. Feijão, açúcar, arroz… Tudo encareceu. Ainda teve o gás”, relembra.

Para Carlos Alves, 51, no entanto, tudo tem limite. Por enquanto, o acréscimo ainda cabe no bolso, mas uma nova mudança nos preços pode fazer com que ele mude os hábitos. “Não sou de colocar muito. Geralmente, uns dois pedaços. Talvez eu comece a deixar de comer ou então trazer algo de casa”, pondera o autônomo.

Sindicato considera escalada inevitável

De acordo com Jael Antônio da Silva, presidente do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Brasília (Sindhobar-DF), a expectativa é que o quilo da carne diminua um pouco nas próximas semanas, mas não voltará ao que era antes. “O que restou ao empresário é oferecer outros produtos ou diminuir a gramatura, no caso de pratos em cardápio”, afirma.

Os casos de restaurantes a quilo são ainda piores, na visão dele. “Nesses casos não tem jeito. É necessário oferecer os produtos, caso contrário o cliente se revolta. Ainda tem a questão do desperdício. É muito complicado”, diz.

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