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Empresas privadas investem mais em infraestrutura do que o Estado

Um estudo inédito da Confederação Nacional da Indústria (CNI) revela que 54,3% dos investimentos em infraestrutura do país em 2014 foram bancados por empresas privadas. O setor de transportes recebeu a maior parte dos recursos: R$ 52,3 bilhões

Michael Melo/Metrópoles
Kelly Almeida
 

Edmar dos Reis Silva, 33 anos, viaja semanalmente de Brasília para Goiânia. O analista de sistemas goiano que trabalha no DF faz o trajeto desde que mudou para a capital do país, há pouco mais de um ano. A cada viagem, desembolsa cerca de R$ 10 de pedágio na BR-060, mas não reclama. “Desde que foram feitos os investimentos, a via ficou muito melhor. Está sempre monitorada, com guinchos à disposição, sem buracos. E eles não fazem ação tapa-buracos, é manutenção preventiva mesmo”, explica.

Quando fala em “eles”, Silva se refere à concessionária que administra a estrada. Em um país no qual o poder público carece de recursos e de capacidade para investir em infraestrutura, a iniciativa privada tem preenchido as lacunas deixadas pelo Estado. E o caso da BR-060 tem se repetido cada vez mais Brasil afora. Um estudo inédito da Confederação Nacional da Indústria (CNI) revela que, em 2014, a iniciativa privada respondeu por 54,3% dos investimentos em infraestrutura.

O levantamento, chamado de “O Financiamento do Investimento em Infraestrutura no Brasil”, mostra que a iniciativa privada destinou R$ 70,7 bilhões em obras e empreendimentos de transporte, energia, telecomunicações e saneamento. Bancos públicos, como a Caixa Econômica Federal e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), tiveram papel fundamental nos empréstimos garantidos ao setor.

O estudo revela ainda que os investimentos em saneamento ficaram com a menor fatia em 2014: R$ 11 bilhões. Por outro lado, o setor de transportes foi o beneficiário dos maiores gastos: R$ 52,3 bilhões. Uma das destinações desses recursos foi justamente o trecho da BR-060 que liga Brasília a Goiânia.

Michael Melo/Metrópoles

 

Pagamos muito caro em impostos e deveríamos ter retorno disso. Mas, se o governo nos oferece uma péssima qualidade de serviço, a saída é pagar o pedágio e ter segurança nas estradas "
Edmar dos Reis Silva, analista de sistemas

O trecho usado por Edmar entre a capital federal e Goiânia é administrado pela concessionária Triunfo Concebra desde junho do ano passado. A empresa também é responsável pelos 1.176km que fazem a ligação entre Brasília e Minas Gerais, nas BRs-060, 153 e 262. Os valores do pedágio variam de R$ 1,60 a R$ 11,20.

Investimento
Apesar de a população ver melhorias pontuais, o estudo elaborado pela CNI revela que os investimentos em infraestrutura feitos pelo governo não chegam a 3% do Produto Interno Bruto (PIB), quando o recomendado seria 4% ou 5%, para se aproximar de países com o mesmo nível de desenvolvimento.

Segundo a CNI, em sete anos, entre 2007 e 2014, o Brasil aumentou os investimentos em 167%, mas o percentual ainda é insuficiente. “No caso dos transportes, por exemplo, o volume investido foi incapaz de responder tanto à demanda represada quanto à sua expansão em anos recentes”, ressalta o estudo.

A confederação defende uma representação ainda maior da iniciativa privada em ramos hoje administrados pelo poder público. “O aumento da participação privada no aporte de capitais e na gestão de empreendimentos é imprescindível para que o país reverta o quadro de atraso”, resume o presidente da CNI, Robson Braga de Andrade.