A Polícia Civil deflagrou, na manhã desta quinta-feira (30/8), uma megaoperação que apura desvio de R$ 20 milhões no Distrito Federal. A investigação é da 19ª Delegacia de Polícia (P Norte). Conforme revelou o Metrópoles, buscas foram feitas no Anexo do Palácio do Buriti, sede do GDF. O  principal alvo é um funcionário da Secretaria de Planejamento, Orçamento e Gestão (Seplag).

Os policiais investigam a ligação do diretor-técnico-administrativo da pasta, Carlos Leandro de Oliveira, com a Cooperativa de Transportes do Distrito Federal (Cootarde) e ainda a suposta participação dele no esquema de desvio de recursos públicos da área de transporte.

De acordo com o investigadores, 30 dias após abrir uma empresa com dois sócios, Carlos Leandro fechou um contrato de R$ 400 mil com a cooperativa, por meio do qual faria um serviço de consultoria para a aquisição de uma nova frota de ônibus de uma companhia chilena. Imediatamente, recebeu R$ 300 mil.

Segundo os policiais, Carlos Leandro foi da Casa Civil antes de ir para Seplag. Nessa nova fase de uma operação deflagrada em junho de 2017, os policiais pretendem investigar mais a fundo a atuação da empresa montada por ele.

Chamou atenção dos policiais o fato de o servidor, que tem CNE 7, com remuneração de aproximadamente R$ 5 mil, já ter tido contato com a Cootarde quando trabalhava na Casa Civil. Ele era o responsável pelos repasses de recursos às cooperativas.

Marlene Francisca Alves Chagas, ex-presidente da Cootarde, também é alvo da operação. Em outubro de 2017, ela chegou a ser presa, acusada de fazer parte do mesmo esquema.

Na ocasião, a Justiça afastou Marlene da presidência e nomeou a interventora Eliana do Nascimento para o comando da cooperativa. Ela foi convocada para fazer um levantamento financeiro, apurar quais são as dívidas e apontar possíveis irregularidades na entidade. Outros sete integrantes da diretoria perderam suas funções.

 

Foram expedidos 10 mandados de busca e apreensão em nove locais, entre eles, o gabinete de Carlos Leandro, na Seplag, que fica no Anexo do Buriti, e a casa dele, em Águas Claras. A decisão é da juíza Edioni da Costa Lima, da 1ª Vara Criminal de Brasília, que negou prisão temporária para os envolvidos.

Por volta das 7h35 desta quinta (30), policiais saíram da sede do GDF levando computadores e malotes com documentos apreendidos. Durante as buscas em outro endereço, um dos alvos jogou o celular pela janela. Os crimes investigados são: associação criminosa, falsificação de documentos, estelionato contra a administração pública e peculato.

Em junho do ano passado, na primeira fase da operação, os investigadores descobriram que a Cootarde recebia recursos do governo para quitar a folha dos funcionários e os custos com os cooperados.

“A cooperativa não fazia esses pagamentos e falsificava as assinaturas nos contracheques. Esses documentos eram apresentados ao governo como prova do suposto pagamento”, explicou a delegada-chefe da 19ª DP, Adriana Romana.

Ricardo Bispo Farias, também delegado da 19ª DP, detalhou que, após a primeira fase, o policial militar Ednaldo Pereira, ligado à Cootarde, passou a coagir os funcionários para assinar os documentos. “Ele e mais seis pessoas, incluindo Marlene, já tinham sido indiciados em junho do ano passado”, disse.

Entre janeiro de 2014 e julho de 2017, o GDF repassou R$ 27.816.811,58 para a Cootarde. Desse valor, a empresa destinou apenas R$ 2.193.800,14 para o pagamentos de salários. No mesmo período, a entidade recebeu R$ 392.119,94 referentes a créditos do Transporte Urbano do Distrito Federal (DFTrans) e mais R$ 28.052.885,72 de bilhetagem.

Esses recursos eram depositados na conta da Cootarde e, depois, rateados para os diretores do grupo. Alguns investiram o dinheiro na compra de imóveis, segundo os investigadores.

Nota da Seplag
Em nota, a Secretaria de Planejamento, Orçamento e Gestão do DF disse que acompanha e apoia a investigação da PCDF e está colaborando com as investigações. A pasta destacou ainda ser a maior interessada no esclarecimento das ações de combate à corrupção e crimes contra a administração pública.

De volta ao Buriti
A operação da 19ª DP ocorre 22 dias após a Polícia Civil cumprir outros mandados de busca e apreensão no Palácio do Buriti no âmbito da Operação 12:26.

A ação foi desencadeada pela Coordenação Especial de Combate à Corrupção, ao Crime Organizado e aos Crimes contra a Administração Pública (Cecor) e apura denúncia de tráfico de influência e advocacia administrativa envolvendo integrantes do governo de Rodrigo Rollemberg (PSB).

À época, foram cumpridos 15 mandados de busca e apreensão, em Brasília e em São Paulo, autorizados pela 4ª Vara Criminal de Brasília.

O Metrópoles revelou, com exclusividade, o conteúdo do Inquérito nº 386/2018, em que a polícia, com o apoio do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), descreve a atuação de suposta organização criminosa envolvendo pelo menos 10 nomes.

Entre eles, está um dos irmãos do governador, Carlos Augusto Sobral Rollemberg, o Guto, que, segundo descrevem os investigadores, seria um dos pontos focais do grupo que praticava tráfico de influência e advocacia administrativa no Palácio do Buriti. Guto Rollemberg nega as acusações.

Entre os alvos, também estavam o então assessor especial da Casa Civil Marcello Nóbrega; o administrador do Lago Norte, Marcos Woortmann; Leonardo Rocha de Almeida Abreu, irmão do chefe de Gabinete da Casa Civil, Guilherme Rocha de Almeida Abreu; Luiz Fernando Messina, ex-assessor do deputado distrital Rodrigo Delmasso (PRB); e Hermano Gonçalves de Souza Carvalho, ex-secretário de Desenvolvimento Econômico da gestão de Agnelo Queiroz (PT).