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Cenas de desorganização, muita sujeira e abuso de autoridade. É esse o conteúdo de vídeo gravado por detentos do Centro de Progressão Penitenciária (CPP), ao qual o Metrópoles teve acesso com exclusividade. A unidade, localizada no Setor de Indústria e Abastecimento (SIA), abriga os presos que progrediram para o regime semiaberto: ou seja, que conquistaram o direito de trabalhar ou estudar durante o dia, mas, à noite, devem regressar ao CPP e ali pernoitar. Embora não possam portar telefones celulares, eles entraram na unidade com um aparelho. E gravaram o vídeo para denunciar que vêm sendo “castigados” pelos agentes penitenciários.

As imagens mostram colchões, roupas e cobertores espalhados pelo chão. O homem que está gravando afirma que toda aquela bagunça se deve ao trabalho dos agentes. “Eles pisam com as botas sujas de fezes em cima das camas, espalham as nossas coisas, escondem outras e ainda mexem na nossa comida”, denuncia.

A falta de higiene fica nítida nas imagens. Há lixo espalhado por todos os cantos, embalagens de comidas jogadas em cima dos colchões, além de restos de alimentos que acumulam ainda mais sujeira no local. Na gravação, o detento afirma que tudo isso pode aumentar o surto de doenças de pele que vem se alastrando no sistema carcerário do Distrito Federal: até agora, já foram confirmados 2.610 casos entre os presos e cinco entre trabalhadores das seis unidades prisionais. Segundo especialistas da área da saúde, ele tem razão.

De acordo com o infectologista da Aliança Instituto de Oncologia, Tarquino Erastides, as condições de higiene são indispensáveis para interromper a proliferação dos parasitas da sarna e da bactéria causadora do impetigo. Além dessas duas doenças, também foram confirmados casos de tínea, pitiríase e furunculose, moléstias igualmente contagiosas e que provocam coceira, feridas e bolhas purulentas na pele dos infectados.

Não adianta tratar os doentes se a higienização não for feita. Vira um ciclo vicioso. Na verdade, a sarna deve ter provocado a coceira, produzido escoriações e aberto a proteção natural da pele para o aparecimento do impetigo, que é provocado por bactéria"
Tarquino Erastides, infectologista

Castigo
Ainda de acordo com os presos do CPP, haveria mais de 300 internos “cumprindo castigo de seis meses” imposto pelos agentes penitenciários que atuam na unidade. “Eles [os presos] não podem sair, receber visita, não têm direito de ver os familiares, de receber roupa limpa e produtos de higiene”, acusa o homem que registrou as imagens.

Estamos presos, mas todos nós merecemos uma segunda chance. Somos tratados como bichos. Pedimos não só por nós mesmos, mas pelos nossos familiares que estão sofrendo com essa situação"
detento que não quis se identificar

Procurada pela reportagem, a Subsecretaria do Sistema Penitenciário (Sesipe) da Secretaria da Segurança Pública e da Paz Social (SSP/DF) afirmou, por meio de nota, que “a supervisão nas celas obedece a procedimento padrão, sendo realizada periodicamente nas unidades prisionais com o intuito de localizar objetos proibidos no interior dos estabelecimentos e com os internos.”

A pasta acrescentou ainda que, apesar de os presos no semiaberto trabalharem de dia e voltarem à noite para o CPP, todos passam por procedimento de revista para entrar no local. “Estamos apurando a procedência das imagens em questão”, completou a Sesipe. No entanto, a gravação obtida pelo Metrópoles foi feita pelos próprios presos por meio de um celular, deixando claro que os aparelhos seguem entrando de forma ilegal na unidade do sistema carcerário.

Direitos Humanos
O Conselho Distrital de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos (CDPDDH), órgão vinculado à Secretaria do Trabalho, Desenvolvimento Social, Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos do DF, disse que vai cobrar explicações à SSP sobre a sujeira no Centro de Progressão Penitenciária e que irá fazer uma vistoria no local para averiguar a situação de perto.

Até a última atualização desta matéria, o Sindicato dos Agentes de Atividades Penitenciárias do DF não havia se posicionado sobre as acusações dos detentos e a entrada de celulares no sistema carcerário.

 

 

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