DF: 17 mil estudantes têm dívidas que superam R$ 400 milhões com Fies

Em alguns cursos, a média de débito por aluno ultrapassa os R$ 30 mil. Prazo para a renegociação está aberto

Igo Estrela/MetrópolesIgo Estrela/Metrópoles

atualizado 30/08/2019 11:34

Mais de R$ 400 milhões. Este é o tamanho da dívida que estudantes da capital Federal têm com o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). O número contabiliza todos os débitos de 1999 — quando a versão mais atual do programa foi lançada — até 2019 e deixa o DF como a 6ª unidade da Federação com o maior passivo no Brasil.

Ao todo, são 16.968 contratos, distribuídos entre 95 cursos, com pelo menos 90 dias de atraso. Trata-se do prazo limite para que a inadimplência seja caracterizada pelo Comitê Gestor do Fundo de Financiamento Estudantil (CG-Fies).

As estatísticas obtidas por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) pela agência Fiquem Sabendo e analizadas pelo (M)Dados mostram que o curso com a maior quantidade de endividados no DF é o de pedagogia, com 1.908 estudantes devendo R$ 33.126.605,05 ao governo; seguido do de direito, com 1.765 alunos sem pagar R$ 60.918.574,92. Quem fecha o pódio são os universitários de administração, com 1.617 inadimplentes e R$ 31.155.031,99 devidos.

É na área da saúde onde se encontram cursos com maior dívida por estudante, em média. Em medicina veterinária, por exemplo, 30 universitários dividem um débito de R$ 1.360.563,62, o que dá a alta média de R$ 45.352,12 por aluno.

Em odontologia, o valor sobe para R$ 74.764,54 por estudante. Medicina é, por grande margem, o curso com a maior média de déficit por pessoa: apenas 15 pessoas dividem R$ 3.502.789,30, chegando à impressionante quantia de R$ 233.519,29 de passivos para cada uma delas.

No Brasil, estão registrados 522.417 contratos inadimplentes, que poderão ser beneficiados com a renegociação do Fies. O saldo devedor que eles acumulam soma mais de R$ 10 bilhões.

Dificuldades financeiras

Após a conclusão do curso, o estudante tem 18 meses de carência antes de começar a pagar o valor devido. Nesse período, ele quitará, a cada três meses, o valor máximo de R$ 150,00, referente ao pagamento de juros incidentes sobre o financiamento.

Formada em Jornalismo, a moradora da Candangolândia Ana Paula Mendes, de 31 anos, conseguiu pagar o valor trimestral durante o período de um ano e meio após a conclusão do ensino superior. No entanto, assim que precisou recompor seu orçamento, foi demitida do emprego e se viu impossibilitada de honrar o compromisso.

“Em 2016, entrei pelo Prouni [Programa Universidade para Todos] e pagava metade. Acho que na época eram R$ 650, então eu só pagava R$ 300. Quando concluí o segundo semestre, passei para o Fies, porque era meu pai quem pagava no início e ele ficou sem condições. Ele é catador de material reciclável”, relatou.

Assim que se formou, Ana Paula pagava R$ 50 a cada três meses. Na segunda metade de 2018, quando precisou pagar R$ 150,00 por mês, seu contrato de um ano com a creche em que trabalhava como monitora foi encerrado. “Como sabia que iria ficar desempregada, fui lá fazer um novo contrato para tentar pagar mais à frente. Mas falaram que não tinha como e, agora, consto como devedora”, lamentou.

Allane Moraes/Esp. Metrópoles
Ana Paula Mendes

Também endividadas por não conseguir pagar o Fies, as irmãs Sabrina de Brito, 25 anos, e Bruna Iara de Brito, 31, ficaram com os nomes registrados no Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) como devedoras após concluírem a faculdade.

Gastrônoma, Sabrina ingressou no curso superior em 2014 e se formou em 2017. Sem bolsa integral, ela ainda pagou uma mensalidade de R$ 250 durante toda o curso. Agora, já graduada, a jovem não tem salário fixo para quitar a dívida.

“Quando me formei, pagava R$ 50, a cada três meses. Mas, desde o meio do ano passado para cá, já comecei a ter dificuldade”, contou.
Atualmente, ela trabalha como confeiteira, mas depende de encomendas para juntar dinheiro ao final do mês. “Eu não tinha muita encomenda no início. Hoje, tenho que pagar R$ 250 por mês até 2025. Até agora só devo ter pagado três ou quatro prestações”.

Sua irmã, Bruna, passa pela mesma dificuldade. Designer de moda, ela entrou na faculdade em 2010 e concluiu o curso em 2014. Precisando pagar R$ 95 por mês atualmente, a revisora de texto não tem salário fixo e relata que não sabe quando quitará a dívida com o programa. “No começo, eu estava pagando normal, só que tanto eu quanto a Sabrina não conseguimos emprego. Nós estamos trabalhando como autônomas e o dinheiro não é certo. Tem mês que a gente não recebe nada e ficou um gasto muita alto”, comentou.

Renegociação está aberta

Para aqueles que estão em débito com o Fies, o Ministério da Educação (MEC) lembra que foi prorrogada para 10 de outubro o prazo para a renegociação das dívidas.

A vantagem, segundo o MEC, é que os valores podem ser parcelados por, pelo menos, 48 meses. Antes de abril, quando foi aberto o período para quitar os passivos, só era possível o pagamento à vista.

No entanto, o aluno que pretende participar do acordo precisa preencher alguns requisitos: estar atrelado ao Fies até o segundo semestre de 2017, estar com as parcelas atrasadas em, no mínimo, 90 dias, ter contratos em fase de amortização, sendo que esses não podem ser objeto de ação judicial.

Para a regularização, a pasta ainda informa que os interessados devem procurar o banco onde o contrato foi assinado. O valor da parcela resultante da renegociação não pode ser inferior a R$ 200. Há ainda a parcela de entrada. O estudante deverá pagar ou 10% da dívida consolidada vencida, ou R$ 1 mil, dependendo do que tiver o maior valor.

Dados: Rafaela Lima

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