Delegado diz que Adriana Villela pagou US$ 27 mil pela morte dos pais

Luiz Julião Ribeiro chefiava a antiga Corvida na época do crime e diz ter convicção de que a arquiteta ordenou a execução dos Villela

atualizado 25/09/2019 6:45

Rafaela Felicciano/Metrópoles

Quinta e penúltima testemunha de acusação no julgamento de Adriana Villela pelo Tribunal do Júri de Brasília, o delegado aposentado e ex-chefe da antiga Coordenação de Crimes Contra a Vida (Corvida) Luiz Julião Ribeiro contou, nessa terça-feira (24/09/2019), detalhes da investigação que envolveu a arquiteta no triplo homicídio dos pais e da empregada do casal.

Julião informou que desde o início das apurações da unidade havia suspeitas que recaíam sobre Adriana. A Corvida ficou responsável pelo caso após sucessivas trapalhadas da 1ª Delegacia de Polícia (Asa Sul) e intervenção da 8ª DP (SIA), na época chefiadas pelas delegadas Martha Vargas e Déborah Menezes, respectivamente.

A testemunha de acusação disse ter havido “quebra de padrão comportamental” da ré no dia do descobrimento dos corpos dos pais, em 28 de agosto de 2009, pois, quando a filha dela, Carolina Villela, manifestou preocupação com os avós, Adriana ligou para o banco, para agência de viagem e parou em uma padaria. “Ela protelou ao máximo a chegada ao local”, completou.

Segundo a conclusão da Corvida, Adriana ligou para a filha no dia do triplo assassinato, por volta das 18h, cerca de uma hora antes do crime, a fim de sondar se ela iria para o apartamento dos avós naquela noite. “A filha morava em apartamento próximo, mas fazia refeição na casa dos avós e trabalhava no escritório de advocacia deles”, assinalou.

Encontro

O delegado aposentado lembrou de relatos de Leonardo Campos Alves, ex-porteiro e um dos condenados pelo triplo homicídio que ficou conhecido como crime da 113 Sul. Segundo ele, Leonardo descreveu ter fechado “serviço” com Adriana por 27 mil dólares e joias. O pagamento foi feito em um encontro nas proximidades do Conjunto Nacional.

“Na última versão, narra que no dia do crime eles estavam na parada de ônibus, nas imediações, e que ela teria passado três vezes. Na terceira vez, entregou os dólares e as joias. Ele ficou no ponto e ela teria dito para aguardar um pouco que ela iria subir”, pontuou.

O ex-chefe da Corvida reforçou o depoimento da delegada aposentada Mabel de Faria, subordinada a ele na unidade policial na data do crime, de que Paulo Cardoso Santana, outro condenado no caso, é quem conta que Adriana estava no apartamento no momento das execuções. “Na narrativa do Paulo, a Adriana chegou com Mairlon [Francisco Mairlon Aguiar, o terceiro condenado pelo crime] e, inclusive, teria havido discussão entre ela e o pai [José Guilherme], que teria mostrado decepção ao vê-la. Ato contínuo, Adriana teria mandado o pai para o inferno”, detalhou o delegado.

Defesa rebate

Nos primeiros dois dias de julgamento de Adriana, apenas testemunhas de acusação foram ouvidas. A partir desta quarta-feira (25/09/2019), as de defesa devem começar a se pronunciar. Os advogados da arquiteta alegam ter provas de que seria impossível Adriana estar no apartamento no momento do crime e garantem que vão “destruir” a tese levantada pela Corvida e pelo Ministério Público do DF e Territórios (MPDFT).

Durante a inquirição de Julião, Marcelo Turbay, um dos advogados de Adriana, reforçou que foi apontada por Mabel ligação entre a ré e a vidente que guiou a primeira delegada a presidir as investigações, Martha Vargas, mas a quebra de sigilo telefônico não confirmou o suposto elo. “Tinha uma jovem que trabalhava no mesmo local que a vidente e ela afirmou que Adriana procurou a vidente. É um vínculo. Essa moça diz isso”, pontuou em seguida o delegado aposentado.

Por meio do presidente do Tribunal do Júri de Brasília, os jurados questionaram a Julião como Adriana teria entrado no apartamento. “Até onde sei, quando eles [assassinos] entraram, ela estava lá dentro e, pelo que disseram, pressupõe-se que ela tinha chave de porta diferente da qual eles entraram”, respondeu.

À imprensa, o advogado de Adriana, Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, criticou as declarações de Julião. “Adriana nunca teve chave. Ele [o ex-chefe da Corvida] tem a desfaçatez de falar coisas sem nenhum compromisso com as verdades dos autos”, disse.

Na opinião de Kakay, a defesa técnica está evoluindo “muito bem”. “Há um depoimento [de Leonardo] que Julião elogiou a forma como foi registrado [com acolhimento, após a tortura praticada por policiais de outra unidade] e depois, confrontado com o depoimento, disse que acha que o que vale é a terceira declaração. Temos que ter uma lógica”, ressaltou o defensor.

Laudo papiloscópico

Adriana começou a ser julgada na segunda-feira (23/09/2019). A previsão é que o júri dure pelo menos até sexta-feira (27/09/2019), podendo se estender para o fim de semana.

Em meio ao julgamento, na tarde desta terça (24/09/2019), a 1ª Turma Criminal do Supremo Tribunal Federal (STF) considerou válido o laudo feito por papiloscopistas. O documento indica palmar da arquiteta no apartamento em uma janela de tempo que incluiria o dia do triplo homicídio. A decisão encerra a discussão sobre a validade do exame elaborado pelos profissionais do Instituto de Identificação (II). Para o STF, papiloscopistas são do quadro da PCDF e, portanto, plenamente aptos a produzir tais testes.

Por volta das 19h desta terça-feira (24/09/2019), o presidente do Tribunal do Júri de Brasília, Paulo Rogério Santos Giordano, interrompeu a sessão para atender uma ligação do ministro do STF Luiz Fux, que informou sobre a decisão do mérito.

“Julgaram que esse Laudo nº 15.000, feito por papiloscopistas, deve ser considerado como elaborado por peritos oficiais. Não oficial seria de fora do quadro do poder público”, explicou Giordano para os jurados e a plateia.

Em 12 de setembro, o ministro Luís Roberto Barroso havia acatado parcialmente o pedido dos defensores da ré e determinado ao presidente do Tribunal do Júri que esclarecesse ao Conselho de Sentença que o exame foi subscrito por sete técnicos papiloscopistas que, de acordo com os advogados, não são considerados peritos oficiais, o que colocaria, na visão deles, o caso em xeque.

Julgamento

No segundo dia de julgamento do caso, o Tribunal do Júri ouviu quatro pessoas. A quarta testemunha da acusação a ser ouvida, a filha do ex-porteiro Leonardo Campos Alves, Michele da Conceição Alves, 35 anos, contou que um dos irmãos, identificado como Franklin da Conceição Alves, disse a ela ter encontrado um maço de dinheiro na casa do pai em Montalvânia (MG), à época do crime, e que ele teria recebido dinheiro para cometer o triplo homicídio ocorrido em 28 de agosto de 2009.

“Ele [Franklin] fala que meu pai tinha contado que matou o pessoal do ministro. Disse que meu pai fez uma coisa bem feita e não iriam descobrir”, disse Michele. Ainda reproduzindo o que teria ouvido do irmão, conta contou que Leonardo “havia sido pago para poder matar os senhores lá”.

Questionada pelo presidente do Tribunal do Júri de Brasília, Paulo Rogério Santos Giordano, se o irmão dela explicou quem teria dado dinheiro para o cometimento do triplo homicídio na 113 Sul, ela afirmou não se recordar.

O promotor Maurício Miranda, então, lembrou que Michele falou, durante o julgamento de Paulo Cardoso Santana — um dos três condenados pelas execuções — que Adriana teria ordenado a morte dos próprios pais, o ministro aposentado do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) José Guilherme Villela e a esposa dele, a advogada Maria Villela. A empregada da casa, Francisca Nascimento, também foi assassinada. Com requintes de crueldade, os três foram executados com 73 facadas ao todo”.

Após ser interrogada brevemente pelos advogados de Adriana, a oitiva de Michele foi encerrada.

Leonardo, ex-porteiro do edifício onde morava os Villela, é um dos três condenados pelo triplo homicídio da 113 Sul. Os outros dois são Francisco Mairlon Aguiar e Paulo Cardoso Santana. Todos foram sentenciados a penas superiores a 60 anos de cadeia.

Julgamento histórico

O Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) retomou, nesta terça-feira (24/09/2019), o julgamento de Adriana Villela. Uma das testemunhas de acusação a prestar depoimento foi Renato Nunes Henriques, delegado da Polícia Civil de Minas Gerais. Assim como Michele, ele disse ter ouvido de um tio de Paulo Cardoso Santana, condenado pelo crime, que a filha dos Villela era a mandante do triplo homicídio.

O lavrador Neilor Teixeira da Mota foi ouvido em Montalvânia por policiais do DF, mas não chegou a ser condenado pelo crime. O promotor Maurício Miranda analisou que o depoimento do delegado de Minas Gerais auxilia a acusação contra Adriana. “O Neilor o procurou e deixou uma carta escrita dizendo que tinha medo da mandante do crime. Essa carta foi escrita antes de a Coordenação de Crimes Contra a Vida (Corvida) chegar à cidade”, frisou. O conteúdo foi apresentado no Tribunal do Júri de Brasília nesta terça.

O delegado de Minas afirmou ainda que Paulo Cardoso confessou detalhes do triplo homicídio ocorrido na 113 Sul. “Ele contou que ficou com dó de esfaquear a velhinha (Francisca, empregada da família)”, ressaltou, diante do Tribunal do Júri de Brasília. “Os policiais do DF foram até lá cumprir uma diligência sem procurar a PCMG. Eles disseram que apenas queriam recambiar o preso por ser acusado pelo crime da 113 Sul. Não deixei que o trouxessem para o DF, mas permiti que Paulo fosse ouvido na minha presença”, frisou o delegado.

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