Clientes do DF compram dólares e euros em casa de câmbio e tomam calote

Pelo menos 20 pessoas teriam ficado no prejuízo. Segundo elas, empresa relata extrema dificuldade financeira devido à pandemia da Covid-19

Clientes da empresa IEX Câmbio e Turismo acionaram a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), após amargarem prejuízos. Eles reclamam de ter pagado por moedas estrangeiras que não receberam. Acusam a empresa de aplicar um golpe, ao quebrar os contratos firmados anteriormente sob a alegação de enfrentar extrema dificuldade financeira devido à pandemia do novo coronavírus. Uma das vítimas perdeu R$ 7 mil na operação.

Pelo menos 20 pessoas que não viram os dólares e euros comprados montaram um grupo no WhatsApp para reunir provas do negócio firmado. Algumas já registraram ocorrência policial. A Coordenação de Repressão aos Crimes Contra o Consumidor, a Ordem Tributária e a Fraudes (Corf), da PCDF, investiga o caso.

Ao manifestar a insatisfação com a casa de câmbio, compradores explicaram ao Metrópoles que a empresa vende moedas estrangeiras com valor um pouco menor do que o praticado no mercado. Os clientes pagaram antecipadamente para retirar o montante no futuro, e, agora, após as datas combinadas, o prazo não foi cumprido.

Dizem ainda que ao procurar a empresa por telefone, redes sociais e e-mails, têm que aguardar semanas por um retorno. O site oficial da IEX Câmbio também saiu do ar.

A supervisora de atendimento Fernanda Moreira Câmara, 28 anos,  relatou que em 9 de março foi até a empresa IEX Câmbio, localizada em um shopping de Águas Claras, para comprar € 500 (euros) – em cotação dessa quarta-feira (10/06), o montante corresponde a R$ 2.782,70. A moeda seria entregue no dia 6 de maio, mas houve o descumprimento contratual.

“Eu paguei antecipado o valor de R$ 2.525, para pegar o dinheiro dois meses depois. Com a pandemia, o euro disparou e eu acredito que eles não conseguiram arcar com o prejuízo. Quando chegou a data de receber o meu dinheiro, tentei contato por telefone e e-mail, mas não obtive respostas”, contou à reportagem.

Ainda de acordo com Fernanda, ela buscou o site Reclame Aqui para verificar outras denúncias. “Deixei o meu relato e montei um grupo no WhatsApp. Já somos cerca de 20 denunciantes que estão na mesma situação. Para a maioria, eles entraram em contato através de mensagem dizendo que as lojas estavam fechadas pelo decreto do coronavírus, mas realizariam o pagamento. No entanto, sumiram”, acrescentou.

Veja na galeria abaixo o comprovante de compra de Fernanda e a troca de e-mails com a empresa:

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Fernanda Câmara comprou euros e não recebeu as moedas estrangeiras
Histórico do e-mail recebido pela empresa
Continuação da mensagem
Comprovante de compra da jovem

 

Sem aval do BC

A supervisora também entrou em contato com o Banco Central (BC) e foi informada de que a empresa não possui licença para funcionar.

“Eu não conheço a índole deles. Não se sabe se não estão dando conta de arcar ou se já estavam com uma intenção ruim ao fechar os negócios. A advocacia da IEX me procurou via e-mail para tentar chegar num acordo extrajudicial e marcamos uma reunião para a última segunda-feira (08/06), mas não deram mais sinal de vida e a reunião não ocorreu”, detalha Fernanda. “Na minha opinião, estão procurando ganhar tempo. Quero um posicionamento da empresa. Vou partir para a Justiça”, promete.

A jovem registrou boletim de ocorrência, por estelionato, em 11 de maio. O caso dela é um dos que está sob responsabilidade dos investigadores da Corf.

Euros e Libras

Um administrador de empresas de 27 anos, que preferiu não se identificar, disse que havia depositado R$ 7 mil na conta da operadora para adquirir euros e libras. A data marcada para a entrega era 28 de maio, porém, o prazo não foi cumprido. Insatisfeito, o cliente pediu o dinheiro de volta, mas, sem obter sucesso por duas semana, resolveu denunciar o caso à polícia.

“Chegaram a responder meu e-mail e depois não deram mais satisfação. Fiz denúncia no Reclame Aqui e, agora, entrei com advogado para resolver o problema. Só quero o meu dinheiro de volta. É desonesto eles não darem nenhum retorno”, ressaltou.

 Itália

Leonardo Carvalho, 33 anos, é fotógrafo. Ele viajaria para a Itália em junho, para o casamento da irmã. Com a pandemia, os planos tiveram que ser adiados. O profissional pagou de forma antecipada para retirar a moeda estrangeira depois na loja da IEX Câmbio e Turismo em um shopping da Octogonal. Ele ficou assustado ao buscar informações e perceber que a empresa está com o site fora do ar.

“Tem gente com prejuízo de mais de R$ 10 mil. A empresa está mandando mensagens aos gatos pingados. Marcou reunião por videoconferência e já disseram que não vão entregar a moeda estrangeira e vão devolver o dinheiro com uma correção”, explicou.

“No meu caso, comprei € 1 mil (mil euros). A minha reunião on-line está marcada para a próxima segunda-feira (15/06). O receio agora é de que também não apareçam com uma solução. Entendo a situação que estamos passando, mas a falta de comunicação me chateia bastante”, queixou-se. Segundo a última cotação, o valor investido por Leonardo corresponde a R$ 5.565,40.

Leia as mensagens trocadas por Leonardo com a casa de câmbio:

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Leonardo agendou reunião para o dia 15/06 e está na expectativa
E-mail recebido pelo cliente
Advogados sugerem acordo extrajudicial
Outro lado

Acionado pelo Metrópoles, o corpo jurídico contratado pela empresa diz que trabalha em tentativas de resoluções extrajudiciais, por acordo, com os clientes da IEX Câmbio que tenham crédito a receber. “O contrato é específico para resolução de tais demandas – acordos extrajudiciais –, havendo, inclusive, outro corpo jurídico responsável pelas demandas judiciais da empresa”, informou a advogada Sara Rons Magalhães.

Segundo ela, os atendimentos se iniciaram em 01 de abril, logo após a contratação dos advogados, e estão acontecendo até o momento normalmente, seja presencialmente ou virtualmente.

“Todos os atendimentos são agendados e todos são cumpridos. Reitero que as resoluções extrajudiciais tem sido de grande valia, inclusive para agilidade em resoluções que passariam por trâmites burocráticos no judiciário, tendo havido um grande proveito nas tratativas realizadas, que já contam com muitos acordos fechados. Inclusive, já com inícios de cumprimentos”, completou Sara Rons Magalhães.

A Corf não forneceu detalhes sobre o andamento da apuração policial.