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A organização não governamental (ONG) Vencedoras Unidas, que reúne uma rede de mulheres em tratamento contra o câncer, promoveu uma campanha em apoio a Carol Venâncio Damasceno, 41 anos, após a freira Loiva Urban, então diretora da escola onde sua filha estudava, sugerir-lhe o uso de peruca ou chapéu por considerar a aparência da mulher “agressiva à sociedade”.

No momento em que ouviu o comentário cruel da freira, Carol havia ido à direção do colégio justamente para tentar acabar com o bullying sofrido pela filha, praticado por outras crianças. O motivo eram as mudanças no corpo de Carol Venâncio causadas pelos efeitos colaterais do tratamento.

O relato feito no Facebook pela irmã de Carol, Camila Venâncio, conforme revelou o Metrópoles, gerou revolta nas redes sociais quanto ao preconceito demonstrado pela então diretora do Colégio Notre Dame Brasília, onde a filha de Carol estudou dos 3 aos 11 anos.

Para a presidente da ONG, Gisele Damasceno, a ideia da campanha Agressivo é o Preconceito surgiu imediatamente após ela ler a reportagem. “Isso acontece muito. São olhares, comentários de desconhecidos e, às vezes, até de amigos que não sabem como lidar direito com quem tem a doença”, conta.

Diagnosticada com um câncer de mama em 2016, hoje Gisele faz apenas o acompanhamento da doença e entende a dor de Carol ao ouvir o comentário cruel da freira. “Nós falamos a mesma língua e uma entende a dor da outra. Eu sei o que ela está passando”, acredita.

Assim como a mulher ofendida pela freira, Gisele sentiu na pele a dor de ver o câncer atacar sua feminilidade. Além dos cabelos, ela precisou se submeter a uma cirurgia para a retirada das duas mamas. “É difícil se acostumar, são mudanças drásticas no corpo em um período muito curto de tempo”.

“Eu perdoo”
Em entrevista ao Metrópoles, Carol disse ter perdoado tudo o que a freira disse sobre ela. Em um relato emocionado, afirmou querer viver cada dia como se fosse o último e não desejar levar rancor de ninguém.

A mulher enfrentou o câncer pela primeira vez em 2014. Em outubro do ano passado, a doença voltou mais grave. “Da outra vez, eu fiquei dois meses internada, sendo 27 dias na UTI. Cheguei a ficar em coma e fui dada como um caso sem esperanças pelos médicos. Minha irmã chegou a separar a roupa do meu enterro, porque disseram que eu não passaria daquela noite, mas Deus é tão misericordioso que eu estou aqui, contando essa história”, narra.

Ainda em 2014, quando começou o tratamento, os cabelos permaneceram intactos. Segundo Carol, no entanto, o diagnóstico mais recente revelou um estágio de maior gravidade. Como a quimioterapia exigiu medicamentos mais fortes, a perda dos fios foi inevitável.

“Quando caiu meu cabelo, aquilo mexeu muito comigo, porque eu estava preparada para enfrentar tudo de novo: UTI, cirurgia, tudo, menos perder o cabelo. A gente acha que é pouca coisa: ‘Ah, cabelo cresce…’ Mas, para a mulher, mexe muito. Eu não aceitava. Quando comecei a aceitar e sair com a minha carequinha na rua, aconteceu esse episódio. Cutucou a minha ferida no que mais doía em mim. Foi na minha vaidade, na minha feminilidade, foi muito difícil”, lembra.