Após denunciar abusos ao MPDFT, alunos bombeiros sofrem retaliações

Segundo os militares em formação, o chefe direto deles falou em "imunização de rebanho" e ameaçou punições para quem expor problemas

atualizado 22/02/2021 9:46

bombeiros apagando fogoCBMDF/Divulgação

Os alunos do Curso de Formação de Praças (CFP), promovido pelo Centro de Formação de Praças (Cefab) do Corpo de Bombeiros Militar do DF (CBMDF), voltaram a reclamar de aglomerações, desrespeito às normas de prevenção à Covid-19 e, agora, de ameaças.

Diversos integrantes do curso 17 da corporação entraram em contato com a reportagem do Metrópoles para dizer que um dos comandantes da formação passou nos pelotões para falar da denúncia feita pelos estudantes ao Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT). O oficial garantiu: os responsáveis sofreriam retaliações.

No documento registrado na ouvidoria do MPDFT, os alunos reclamam sobre o excesso de contaminações de Covid-19 no curso. Eles citam desrespeito a normas de distanciamento social, inobservância ao uso de máscara, compartilhamento de equipamentos, utilização conjunta de instalações, como banheiros, entre outras possíveis irregularidades.

Segundo os formandos, os desrespeitos às normas para prevenir o contágio do novo coronavírus são frequentes e, por isso, eles optaram por denunciar o caso ao MPDFT, com medo de que suas famílias sejam acometidas pela doença.

Eles ameaçaram, na quinta (18/2), fazer retaliações aos alunos. Na quarta-feira (17/2), reuniram 400 pessoas dentro de um auditório e ninguém pôde reclamar, falar nada. Eles ameaçaram aumentar as horas que devemos ficar no centro de formação, entre outras coisas, ditas como ‘alertas’ de como é a carreira militar

Integrante do Curso de Formação do CBMDF

Os alunos não tinham foto do evento ou outras provas das denúncias porque o uso de celulares foi proibido dentro do centro.

107 infectados

Com 312 matriculados, o curso começou no dia 21 de dezembro de 2020 e está dividido em turmas presenciais de 30 alunos cada. Segundo informações do Corpo de Bombeiros Militar do DF, 107 já foram infectados pelo novo coronavírus.

“Entre eles, 69 alunos tiveram contato com o vírus antes do início do CFP Turma 17; ou seja, já entraram no curso curados da Covid-19”, diz o CBMDF.

Em nota, a corporação ressaltou: “Alguns pelotões tiveram Covid-19 provavelmente fora do Cefap e trouxeram o vírus para dentro das cercas desde estabelecimento de ensino”.

Para os denunciantes, as contas são diferentes. Eles pontuam que, nos últimos dois meses, cerca de 70 pessoas foram contaminadas após entrar no curso.

“Em um pelotão, hoje, tem 9 contaminados e seis com suspeita. Todos fizeram aula de educação física juntos na sexta. Estamos com medo por nós, pelas nossas famílias, mas também temos medo de perder a formação e a vaga no Corpo de Bombeiros”, lamentou um integrante da Turma 17.

“Imunização de rebanho”

A reunião em auditório na última quinta (18/2) era uma cerimônia de formação. Devido às chuvas, todas as pessoas presentes foram para dentro de um auditório esperar a precipitação passar. A solenidade incluiu oficiais que estão em formação e que estavam isolados em internato.

“Na quarta-feira, chegou a ser falado para o CFP17 sobre imunidade de rebanho”, disse, espantado, um aluno.

Em nota, a corporação afirmou que o CBMDF “prega a vacinação em massa e avalia constantemente número de referência para a imunização de rebanho para fins de informação e monitoramento do comportamento do vírus, conforme todos os órgãos de saúde pública sérios fazem neste país e no mundo”.

De acordo com a corporação, o dado referente à imunização de rebanho é fundamental para a tomada de decisão das autoridades sanitárias do país; não por menos, é tido como referência pelas ciências da saúde.

Ambientes compartilhados

Em 5 de fevereiro, o Metrópoles já havia denunciado o medo do alto índice de contaminação devido ao compartilhamento de espaços no curso.

Segundo um aluno, espaços comuns, como alojamentos, vestiários e banheiros, são compartilhados, o que tem aumentado o temor dos bombeiros em formação. “Não temos o que fazer. Nosso medo é com a doença e o que ela pode provocar. Mesmo com fortes sintomas, bombeiros só são liberados para ficar em casa após o teste de PCR”, informou outro aluno matriculado no curso de formação de praças.

Na ocasião, o Corpo de Bombeiros respondeu ao Metrópoles e confirmou oito infectados com a Covid-19. Segundo a corporação informou em nota, esse grupo contaminado “promove regime de transporte compartilhado – carona”.

O CBMDF acrescentou que adota protocolos para que não haja disseminação da doença. “Os militares infectados estão com dispensa médica, em suas casas, e sendo acompanhados tanto por equipe médica quanto pela coordenação do curso”, detalhou.

“O Cefap utiliza todos os protocolos para minimizar a contaminação pela Covid-19, mesmo considerando ser possível o contato com o vírus em cursos presenciais. Cabe salientar que os militares pernoitam fora do Cefap e permanecem fora dele por todo o fim de semana, não sendo possível controlar contaminação externa”, pontuou, em nota, o Centro de Formação de Praças.

Vídeo de abusos

Em 28 de janeiro, um vídeo gravado no mesmo curso de formação, com a denúncia de infecções da Covid-19, causou polêmica nas redes sociais. As imagens mostram os alunos enfileirados, em posição de sentido e rolando em uma vala com lama. Enquanto a turma executa os movimentos, em obediência ao instrutor, outros militares fazem piada da situação.

Em nota, a corporação informou que apura o caso, mas ressaltou que “a passagem da vida civil para a vida militar, fatalmente, gera uma quebra de paradigma muito forte”.

A gravação tem 49 segundos. Um dos responsáveis pelo treinamento chega a questionar um dos alunos: “E aí, continua divertido?”. “Tá vendo, guarnição, a gente se diverte com vocês também, senhores”, diz outro bombeiro.

Em nota, o CBMDF confirmou que as imagens são de alguns alunos do Curso de Formação de Praças (CFP), Turma 17, durante a instrução inicial de “adaptação à atividade de salvamento em ambiente adverso”.

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