Alvo da PF, extremista da direita Sara Winter era feminista e pró-aborto

Apoiadora de Bolsonaro que já quis entrar no BBB é uma das investigadas na Operação Fake News em inquérito instaurado pelo STF

Alvo da Polícia Federal na manhã desta quarta-feira (27/05), a blogueira Sara Fernanda Giromini, 27 anos, mais conhecida como Sara Winter, tem uma história de vida repleta de reviravoltas.

Atualmente, conhecida como uma das maiores lideranças da extrema direita, a jovem já se dedicou às causas feministas protestando a favor do aborto de topless. Ela é uma das investigadas na Operação Fake News, no inquérito instaurado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e que apura ameaças feitas a ministros da Corte.

Sara foi fundadora do Femen Brasil. O grupo, criado originalmente na Ucrânia em 2008, é famoso por protestar de topless. Em 2014, ela passou a se posicionar contra as pautas que defendia no movimento feminista.

No site oficial dela, Sara, cujo nome de batismo é Sara Fernanda Giromini, se define como uma palestrante e escritora que “militava contra o cristianismo, em favor da homossexualidade e do aborto”.

Após sofrer um aborto, contudo, “se converteu ao cristianismo e escreveu seu primeiro livro, no qual narra os bastidores e os fatos pouco conhecidos do feminismo no Brasil”.

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Apoiadora ferrenha do governo Bolsonaro, ela defende bandeiras como o armamentismo
Ex-feminista, Sara Winter foi líder do Movimento Femen, um grupo feminista fundado em 2008 na Ucrânia
Ela diz que, após passar pela experiência traumática de um aborto, converteu-se ao catolicismo
Sara Winter é o "nome de guerra" da extremista de direita. Ela se chama Sara Fernanda Giromini
No Facebook, ela posta dezenas de imagens nas quais enaltece o presidente Bolsonaro
Sara virou presença frequente nos atos pró-Bolsonaro em Brasília
Ativista Sara Winter coordena o 300 do Brasil de forma agressiva

A ex-líder do Femen, que classifica como o grupo mais radical do mundo na defesa do feminismo, ela se dedica atualmente a defender as causas pró-vida e pró-família e “luta contra o aborto, a ideologia de gênero, as drogas, a doutrinação marxista, a jogatina e a prostituição”.

Sara foi candidata a deputada federal pelo Democratas do Rio de Janeiro nas eleições de 2018, mas não conseguiu se eleger. Ela é natural de São Paulo e conta que já passou por vários tipos de abusos, inclusive sexuais.

Vaga no BBB

Apesar protestar contra a “alienação social” causada pelo programa Big Brother Brasil, a jovem já foi candidata a uma vaga na edição de 2014 do BBB. No vídeo enviado à produção do programa, disse que sua luta “é contra o machismo em geral. Levo minha vida protestando e ajudando as pessoas”. Contou, à época, que respondia a 12 processos criminais de atos obscenos e vandalismo.

Na gravação, a jovem diz que chegou a ser prostituta por 10 meses. Em 2013, Sara tentou invadir a “Casa de Vidro”do BBB, em um shopping de São Paulo. Afirmou que tentava fazer com que as pessoas se interessassem por outros temas. No ano seguinte, em 2014, falou que queria entrar na atração para fazer essa mudança “por dentro”.

Líder de acampamento

Após fazer viagens internacionais pelo grupo feminista Femen, Sara disse que se arrependeu dos atos e passou a formar uma agremiação conservadora. Em Brasília, montou um acampamento chamado “300 do Brasil”. Declarou que os integrantes possuem armas e entrou na mira de autoridades, como o Supremo Tribunal Federal (STF), o Ministério Público do DF e Territórios (MPDFT) e a Polícia Civil (PCDF).

Conforme o Metrópoles revelou nesta quarta-feira (27/05), o 300 do Brasil ficou baseado em uma área de difícil acesso, cercada por morros e florestas no Distrito Federal.

A chácara serviu de quartel-general para integrantes do acampamento 300 do Brasil. Situada no núcleo rural Rajadinha, entre as regiões administrativas do Paranoá e Planaltina, a propriedade foi escolhida por cumprir seu maior objetivo: dificultar a aproximação de estranhos e evitar olhares curiosos.

Com alojamentos, cozinha, água potável e estrutura de treinamento militar, o terreno entrou no radar de setores de inteligência de órgãos de segurança da capital da República.

O Metrópoles teve acesso exclusivo a detalhes dos levantamentos feitos pelos investigadores. Os relatórios mostram a dinâmica de atuação do grupo e revela detalhes do chamado “QG”, instalação ocupada durante um tempo pelos militantes apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

De acordo com as informações obtidas pela reportagem, a chácara era considerada fundamental para garantir a acomodação de dezenas de homens e mulheres em dois alojamentos separados por sexo.

A intenção das lideranças era oferecer um lugar seguro para descanso, alimentação, treinamento militar e organização. A equipe de reportagem sobrevoou o local e identificou que não havia mais pessoas no espaço, mas ele permanece bem cuidado.

A suspeita das autoridades é que o 300 do Brasil abandonou a chácara após um pedido de busca e apreensão do MPDFT, que foi indeferido pelo Poder Judiciário.

O grupo teria migrado para outros locais a fim de se manter em sigilo. Nessa terça-feira (26/05), em nova ofensiva, promotores entraram com outra ação pedindo a desmobilização do acampamento. O MPDFT também requereu a busca de possíveis armas em posse de integrantes do movimento.

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O local ocupado pelo 300 fica no núcleo rural Rajadinha
O local conta com alojamentos e cozinha
O Ministério Público chegou a pedir mandado de busca e apreensão no local
O local conta com torres de treinamento de entrada e incursão militar
A propriedade fica cercada por florestas e morros
O acampamento conta com duas torres de treinamento militar
A PCDF abriu inquérito para investigar a ação do 300 do Brasil
As torres são semelhantes às que existem em campos de treinamento da Polícia Federal
Recrutamento

Entre os métodos, destaca-se um intenso recrutamento Brasil afora para engrossar as fileiras do movimento. A forma de atingir o maior número de adeptos é por meio das redes sociais e grupos de WhatsApp. Os convidados, de vários estados, são influenciados a viajar até a capital da República e insuflados pelos líderes com palavras de ordem, sempre fazendo menção ao tombamento da política de esquerda e a supervalorização das figuras políticas que representam a direita no país.

Para garantir a segurança e evitar infiltrados, os integrantes do 300 do Brasil desenvolveram mecanismos de pesquisa que levantam toda a vida pregressa de cada aspirante. As principais informações conferidas são: se a pessoa é ou foi jornalista de qualquer tipo de veículo de comunicação ou se integrou partido político de esquerda. Informações como estado civil e grau de escolaridade também passam pelo crivo da organização.

Nas postagens, os avisos de que o treinamento é para uma “guerra não violenta (sem armas)” se misturam a mensagens que contradizem isso ao pedir que os acampados tenham roupa preparada para combate ou para a “possibilidade de detenção”.

Cientes de que o espaço virtual é público, os organizadores não detalham os planos.

Investigação

Diante dos fatos, a Polícia Civil do Distrito Federal abriu inquérito, nessa terça-feira (26/05), para investigar a ação de integrantes do acampamento 300 do Brasil. As apurações tiveram início após uma onda de agressões físicas e verbais contra jornalistas no exercício da profissão e a cidadãos que se posicionam contrários ao governo do presidente Jair Bolsonaro.

A apuração ficará sob responsabilidade da Divisão de Repressão ao Crime Organizado (Draco), unidade da Coordenação Especial de Combate à Corrupção e ao Crime Organizado (Cecor). Nos próximos dias, membros do grupo podem ser individualizados, qualificados e intimados a prestar depoimento.

Como mostrou o Metrópoles, o grupo bolsonarista que prega o “extermínio da esquerda” é o mesmo que liderou o ato pró-intervenção militar. Eles também são contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Congresso Nacional. 

A hostilidade fez com que a Procuradoria-Geral da República (PGR) abrisse inquérito autorizado pelo STF a fim de investigar o esquema de financiamento e a natureza dos atos promovidos.