Nem menino, nem menina: a cada 100 nascimentos, um bebê é intersexo

Há muito mais na natureza — e na espécie humana — do que os genes da mulher e do homem

A mãe de um aluno transexual de uma escola pública de Brasília denunciou, na última semana, um coordenador pedagógico de impedir que seu filho fosse ao banheiro. Infelizmente, o banheiro é um constrangimento corriqueiro na vida de pessoas que querem ser socialmente aceitas com um gênero distinto do que o associado a seu sexo biológico. O banheiro é o pequeno poder, é a hora em que os preconceituosos punem os supostamente diferentes por desafiarem seu entendimento estreito do mundo.

Estreito, sim. Pois este preconceito, como todos os demais, está alicerçado na absoluta ignorância. As pessoas temem aquilo que não entendem e têm uma resistência imensa em bagunçar seus esquemas de compreensão do mundo. Afinal, é muito mais fácil organizar o mundo em apenas duas categorias (homem e mulher) do que se abrir à complexa (e belíssima) diversidade. Em suma, o preconceito é filho do medo de aprender coisas novas.

Mas se me permitem bagunçar ainda mais a mente de vocês: nem mesmo a biologia se curva à rígida e limitada divisão do mundo em homens e mulheres. Há muito mais na natureza — e na espécie humana — do que os famosos XX (genes da mulher) e XY (genes do homem). Na realidade, a cada 100 nascimentos, um bebê tem uma biologia que escapa desse esquema, de acordo com a Sociedade Norte Americana Intersexo. São os intersexo.

Pessoas intersexo não são homossexuais ou transexuais. Elas apenas têm um corpo que foge dessa norma majoritária. São pessoas que nascem com os genes XX, XXX, XXY ou XYY. Ou ainda que são imunes aos hormônios que modelam nosso corpo para ser de menino ou de menina. Ainda segundo a Sociedade Norte Americana Intersexo, são pessoas cujos corpos não são nem femininos nem masculinos – antigamente chamadas de hermafroditas, um termo impreciso e pejorativo. Para se ter uma ideia, trata-se de uma condição mais comum que o albinismo, por exemplo – e você, muito provavelmente, se lembra de já ter visto um albino na vida.

Este vídeo explica direitinho quem são eles:

Algumas pessoas cismam em chamar esta condição de transtorno ou doença, mas os intersexo dizem que não! E muitos estão felizes em ser quem são. “Não acho que devemos resumir a ‘isso é um distúrbio’, é apenas uma variação biológica. No ponto de vista de quem considera que existem tipos ‘normais’ de corpos a que aspirar, isso será uma desordem. Mas essa visão é problemática porque nos faz questionar uma série de outras características sexuais, por exemplo, existe um tamanho “normal” de seios e outros tamanhos não-naturais? Quem decide se pessoas que não têm nenhum seio ou seios enormes sofrem de alguma síndrome?”, defende a bióloga Anne Fausto-Sterling, uma das maiores pesquisadoras da relação entre biologia e cultura do mundo.

Mesmo a Organização Mundial da Saúde (OMS) já afirmou que fazer cirurgia em bebês intersexo para “adequação” do corpo como masculino ou feminino tem implicações éticas e não está comprovado que traga nenhum tipo de ganho psicológico e sexual ao indivíduo que passa por ela.

Haru, um jovem intersexo que entrevistei certa vez explicou as coisas assim: “Se eu nasci indefinido, por que me definir?! Não vejo necessidade e nem consigo fazer isso. Anjos não têm sexo e nem gênero, e são perfeitos como são. Eu também sou assim.”

Agora, se nem mesmo a biologia nos enquadra em caixinhas tão estanques de homem e mulher, por que os banheiros deveriam? Se a natureza foi tão generosa de nos oferecer várias formas de ser e de amar, por que a cultura deveria nos castrar dessas belas possibilidades?

No fundo, seremos muito mais felizes, enquanto sociedade, no dia em que importar menos o que levamos no meio das pernas e mais o que trazemos na cabeça e no coração. Cafona? Sim. Mas verdadeiro.

O ensinamento da diversidade deve começar na escola e não acabar nela. Que a punição deste educador fique como uma importante lição para nós: a de que nunca é tarde para deixar de ser ignorante.