Uma mulher é agredida a cada oito minutos no Brasil segundo Datafolha

Especialista que foi vítima de agressão aponta sinais de como identificar uma relação tóxica antes de virar um dado estatístico.

atualizado 30/09/2021 9:00

Uma pesquisa encomendada ao Data Folha pelo Fórum de Segurança relata que 1 a cada 4 mulheres acima dos 16 anos já sofreu algum tipo de agressão, seja física, moral ou psicológica.

Durante a pandemia, esse número se intensificou. Segundo a pesquisa, aumentou de 42% para 48%, e houve mais relatos de que as agressões ocorreram dentro de casa, incluindo novos agressores, como tios, irmãos e pessoas próximas.

Um crime que muitas vezes não deixa marcas físicas, mas que perfura emoções, sentimentos e até mesmo a autoestima, relata a fundadora do Instituto Oscip, no Tocantins, Fernanda Ribeiro (40). Hoje viúva do ex-prefeito de Jalapão que morreu em um acidente aéreo em 9 de fevereiro de 2014.

Fernanda, que foi vítima de um relacionamento abusivo e tóxico, relata que o agressor não necessariamente agride por contato físico, mas utiliza de argumentos, restrição financeira, controle e manipulação dos filhos a fim de manter o poder e o controle sobre a vítima.

“Os sinais começam disfarçados de ciúmes reprimindo a roupa, restringindo comportamentos até que a constância dos atos vai dando uma falsa sensação de controle ao agressor”, relatou a ex-primeira dama, que hoje atua orientando crianças e mulheres que vivem em estado de agressão, identificando os padrões comportamentais e orientando no processo de separação.

Em alguns casos há a intervenção conjunta da Delegacia da Mulher, Polícia Civil e Conselho Tutelar a fim de proteger as vítimas e garantindo a manutenção da vida com medidas provisórias restritivas e em alguns casos, a prisão do agressor.

Ainda segundo a pesquisa foram ouvidas cerca de 2089 mulheres, apenas 22% das vítimas de agressão buscam ajuda e que o número de mulheres agredidas pode chegar a 52%.

A fundadora da ONG, que já atendeu mais de 2.500 mulheres e crianças, elaborou uma relação de sinais que determinam se a relação é tóxica ou pode se tornar, evitando que mulheres façam parte das tristes estatísticas.

Características de um perfil abusivo:

“Geralmente o agressor é inteligente, tem boa aparência e sabe se comunicar muito bem. No começo é um verdadeiro “gentleman”, prestativo, carinhoso e surpreendente, mas com o passar do tempo vai demonstrando traços egocêntricos e manipulador, desconfiando de tudo. São teimosos, exigentes, buscando controlar tudo ao redor, mas fazem isso de uma forma que deixam as mulheres se sentindo culpadas, sendo o primeiro sinal de alerta. Geralmente as mulheres não percebem estes sinais e vão se envolvendo cada vez mais, criando um laço de dependência afetiva”, afirmou Fernanda

Segundo a especialista, “é preciso ficar atenta aos tipos de agressões, que têm várias faces e intensidades, mas que podem ser dividias em: Verbal, Moral e Psicológica e até mesmo Financeira”, muitas dessas agressões ocorrem de forma natural e são pouco percebidas, ressalta.

Agressão verbal

Agredir a mulher com palavras, xingar, utilizar palavras torpes, gritar, ridicularizar, fazer piadas, ofender em público ou dentro de casa, humilhando e ridicularizando.

“Às vezes um comentário em roda de amigos ou família que menospreze a imagem da mulher, já é suficiente para fazer a mulher se sentir prejudicada emocionalmente e isso é um sinal claro de um tipo de agressão comum”, relata Fernanda.

Agressão moral/psicológica

A agressão moral consiste em ofensa, calúnia, difamação, distorção dos fatos, injúria e ciúmes excessivo são as principais, mas podem haver outras.

“Um simples pedido de ver o celular ou vasculhar as redes sociais, além de invadir a privacidade, constitui numa agressão psicológica, conduzindo a vítima a ter medo criando uma enorme pressão emocional. Algo totalmente prejudicial, pois o relacionamento é constituído na base da confiança e exigir o acesso às redes sociais é crime contra a privacidade do outro”, ressalta Fernanda.

Agressão financeira ou patrimonial

A agressão patrimonial tem sido constante em quase todos os casos conforme levantamento da ONG, onde a vítima tem dependência financeira, que em muito casos está condicionada a impossibilidade da mulheres trabalharem fora pelas demandas do lar. 

“Seja com bloqueio de cartão, retenção de documentos, ameaçar de cortar benefícios e dentre outras coisas que afetam o financeiro, é um abuso patrimonial e deve ser denunciado!”, enfatiza a líder do projeto.

Malala Yousafzai, ganhadora do prêmio Nobel travou lutas contra um sistema de agressão feminina imposta por regimes religiosos que impediam as mulheres de estudar, que quase custou sua vida após ser alvejada por um tiro na cabeça.

Hoje, anos mais tarde e formada pela Universidade de Oxford, Malala, que tem ONGs no mundo todo, inclusive no Brasil, faz uma única súplica: “As mulheres precisam assumir o controle de suas vidas, por mais difícil que possa parecer, mas é muito mais difícil ter uma vida controlada e reprimida!”

Ao se deparar com qualquer sinal de agressão, é preciso que busque uma Delegacia da Mulher, ligar no Disque Denúncia no telefone 180 ou buscar ajuda em centros especializados.

“Não se cale nem ache que é algo normal e que vai passar! Dezenas de mulheres são agredidas há anos nessa esperança e só quando a mulher se permite se libertar é que pode descobrir o quanto ela deve ser amada e valorizada de verdade”, finalizou Fernanda Ribeiro.

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