Existem cidades que são as asas da vida. Belém é uma delas

Entre rios, baía e floresta, feita de riquezas coloniais, a mais bela capital amazônica completou 404 anos de soberana beleza e fé

atualizado 14/01/2020 11:51

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Uma cidade é a extensão do corpo de seus habitantes. Não é a casa, não são as estrelas, não é o mar nem os rios. Quando inventaram as cidades, os homens talvez quisessem mais – talvez estivessem exaustos de tanto andar, de tanto conversar com as estrelas e de ouvir o canto distante das águas. Talvez, cansados de tanta alegria cósmica, tenham decidido rasgar as asas da vida, como escreveu William Blake.

(O poeta: “Aquele que se deixa prender por uma única alegria, rasga as asas da vida. Aquele que beija a alegria enquanto ela voa, vive no amanhecer da eternidade”).

Talvez tenham trocado a eternidade pelo trabalho árduo de erguer sobre si os tetos das cidades e os caminhos que levavam uns aos outros.

Ao contrário de boa parte dos brasileiros da minha idade, já nasci urbana. Nasci em Manaus mas experimentei a concretude da vida numa cidade de eternos amanheceres e que completou 404 anos em 12/01, domingo passado.

Belém nasceu de eternidades, entre largos rios, densa floresta e chuvas e sóis que se alternam no cotidiano de infinitudes.

Tenho pra mim que não morri ainda menina porque Belém me arrancou do morredouro me oferecendo o infinito concreto.

Belém soube responder às soberanas belezas eternas (o rio, a baía, a floresta, a chuva) com as grandiosidades de que o humano é capaz. É uma das cidades mais urbanamente belas do país, embora maltratada como as demais. O casario colonial, as igrejas (de Landi!), os palácios, as praças, os museus, as avenidas largas, o mercado, o cais, as fortificações, os portos. Tudo aquilo era uma aparição divida para uma criança sem portas nem janelas.

Se havia Belém, a vida podia ser bela. A vida era vivível. E o sagrado do qual viemos pairava sobre tudo. Belém me punha no colo e eu, como que protegida pela soberania da cidade, ia a pé do meu bairro ao centro caminhando por ruas com nomes ancestrais – Mundurucus, Caripunas, Timbiras, Apinagés. Só muito tempo depois, fui perceber que caminhava na saudade das nações indígenas que por ali viviam antes de os urbanos tomarem posse do lugar.

Belém era o corpo de que eu precisava para me saber viva (um bebê só se sabe uma unidade no confronto com o corpo da mãe). Quando o pai me levava ao Ver-o-Peso, aos sábados de manhã, eu era seduzida pelo vigor dos caboclos que passavam quase correndo, carregando paneiros de frutas (açaí, uxi, pupunha, tucumã), de peixe, de folhas e abrindo caminho com uma espécie de canto gutural que, com meus ouvidos de lembrança, soam parecidos com os cantos indígenas.

Não me lembro de ter colhido manga das mangueiras dos bairros nobres de Belém. Colhia proteção. Longos trechos de sombras e de suave frescor para descanso do mormaço que também me protegia. Só fui saber que mormaço era mormaço quando saí de Belém. Até então, o calor úmido e contínuo não me fazia esquecer que eu tinha um corpo e, portanto, uma existência.

Tinha medo do Círio. Era potência demais, mistério demais. Era algo tão monumentalmente perigoso que eu me escondia dentro de casa até que aquele surto de fé se aquietasse. De onde tantos e tanto? Homens que se espremem nas cordas que separam os pobres dos ricos, a Santa pequenininha (de 28 cms, soube agora), em manto dourado, prometendo redenção aos caboclos. O Círio não é uma festa religiosa, é Belém transfigurada em fé.

No Círio de Nazaré, o corpo de Belém é o corpo de milhões de homens e mulheres, brasileiros muito diferentes de todos os outros, uma civilização indígena/cabocla/urbana, mistura de eternidade e mortalidade, e com um fundo de inocência que persiste até hoje. Eu não estaria aqui se não fosse Belém.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

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