De cada 10 moradores da minha quebrada, somente um usa máscara

Os moradores das periferias nasceram e cresceram convivendo com demasiados perigos dessa vida. Para eles, a Covid-19 talvez seja só mais um

atualizado 26/04/2020 17:32

Morodores do entorno com lojas abertas e pessoas na ruaHugo Barreto/Metrópoles

Quando duas amigas me perguntaram, quase ao mesmo tempo, por que não pareço tão preocupada com a pandemia, respondi, quase ao mesmo tempo, que NÃO posso me preocupar. Um NÃO grandão.

Sempre que alguma coisa dá muito errado, ou pode vir a dar muito errado, o melhor que consigo fazer é não pensar muito nela. Tem sido assim e tem dado certo. Deixo que a roda da vida gire e me leve aonde tem de levar. Talvez por que muito cedo tive de descobrir que não se tem controle sobre quase nada nesse imponderável viver, criei um lugar dentro de mim onde me escondo tão logo a luz amarela acende. O que não me impede de tomar (minimamente) as providências necessárias.

Vale dizer que ninguém tem receita de bem viver, a não ser aquela que serve pra si mesmo, quando serve.

“Será que Deus morreu de Covid-19?”, li, dias atrás nas redes. Não sei, não tenho medo da morte, tenho fascinação por ela. Pela minha, não pela dos outros. Não desejo a morte de ninguém, nem mesmo a daquele que está pondo em risco a vida de milhões de brasileiros. Ou daquele outro, na América de cima.

Tenho corrido todos os dias, ainda cedo, de máscara, nos arredores do meu CEP-cidade-satélite, longe do circuito oficial de caminhadas. É estarrecedor o tanto de gente sem máscara, conversando de pertinho, enchendo o mercadinho apertado, aproveitando a quarentena para fazer pequenas obras em casa. Devem todos ter medo da morte, só não sabem que ela está com uma voracidade poucas vezes vista.

Mas além da influência nefasta e criminosa do presidente sobre a mente e o coração dos meus vizinhos, há neles uma manha quase atávica para lidar com os demasiados perigos desta vida. A gente pobre nasceu, foi criada e segue convivendo com o de sempre: o perigo, a desproteção, a exclusão, a humilhação, as doenças, a morte.

Suponho mesmo que eles não acreditam na virulência da Covid-19 porque não creem mais nas notícias oficiais, porque são o público cativo das fake news, mas também porque aprenderam a conviver com a precariedade da vida. De tal modo que fazem de conta que nem é com eles.

Não poucas vezes ouvi de catadores e catadoras de lixo da Estrutural, o maior lixão da América Latina, que não queriam ser fotografados misturados aos dejetos e aos urubus. Não queriam ver a si mesmos em condição tão degradante. Pra não esmorecer.

Na minha quebrada tem um morador que passa o dia bêbado vagando pela quadra, já escrevi duas ou três vezes sobre ele. Vicente anda sumido, soube que está internado desde bem antes da pandemia. Vicente arrasta o chinelo (quando não está descalço) e leva dentro do bolso, às vezes debaixo do braço, uma garrafinha de corote, a cachaça mais barata do mercado, R$ 2.

De vez em quando ele para e levanta a garrafa contra a luz para conferir quanto do precioso líquido ainda tem. Vicente sabe que a vida dele depende da farta dose diária de álcool. Nada é mais importante, porque é tudo o que ele tem.

A família já entendeu, depois de anos e anos de luta, que o destino de Vicente é esse. Ninguém tenta evangelizar o Vicente, ninguém o chama de bêbado, ninguém diz pra ele ir orar…. Vicente faz parte da paisagem. E Vicente sabe qual é o destino dele.

Esse modo Vicente é mais ou menos o modo pobre de viver. Como se desesperar com a ideia de que, se tiver algum problema de saúde, terá de enfrentar as condições cruéis da rede hospitalar, agora mais do que cruéis – perigosamente mortíferas? O desespero enfraquece, antecipa a morte.

O máximo que se pode fazer é olhar pra garrafa de corote e conferir se a quantidade dá para o dia. É da mão pra boca. E ir enganando a si mesmo, tentando enganar a morte. E o mais incrível é que ninguém passa o dia se lamentando, reclamando, se fazendo de vítima – todo mundo toca o barco, mesmo intuindo que ele corre o risco de afundar a qualquer momento.

Ou, como no instante em que escrevo, passando de carro com um som de furar os tímpanos, um sertanejo horroroso. Não deu pra ver, mas posso apostar que está sem máscara. De cada 10 moradores da minha quebrada, um usa máscara quando sai à rua.

Me preocupa, quase me desespera, mas entendo. Na cabeça deles, imagino, o corona é só mais um vírus entre tantos que têm de enfrentar na travessia demasiadamente incerta de suas vidas.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

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