Como será que o professor Coutinho está se virando no isolamento?

O mais querido habitante da vida cultural brasiliense inventou um jeito de atravessar o deserto

atualizado 25/06/2020 10:17

professor José Carlos Coutinho Vinicius Santa Rosa/Metrópoles

Onde andará José Carlos Coutinho, professor emérito da UnB, o homem mais querido do roteiro cultural brasiliense, o onipresente, o encantador?

Pois se a vida do Coutinho era do lado de fora – nos cinemas, nos saraus, nos lançamentos, nas exposições, nos debates, nos cafés, onde quer que houvesse meia dúzia de almas fruindo das coisas da cultura e das artes, se o professor Coutinho existia no mundo da cultura, para o mundo da cultura e com o mundo da cultura, como ele anda se resolvendo nesses tempos insulares?

“Estou vivendo, às vezes com tristeza, outras vezes com aflição, com muita saudade de abraçar os amigos, é do que mais sinto falta. Agora, por exemplo, estou no parquinho vendo as crianças brincando. Sentado no banco, de máscara. Pelo menos uma vez por semana vou à casa de amigos para uma sessão de cinema. Poucos amigos e os mesmos. Tomamos um vinho, vemos um filme e voltamos para casa. Outros dias saio sozinho percorrendo as quadras. A essa altura da vida tanto faz o vírus que vai me pegar”, ele diz, com suave dicção gaúcha, um mix do gauchês com candanguês. Há ironia e resignação no tom de voz.

Conversamos sobre o tempo, essa abstração que os humanos inventaram para não se perder na imensidão do espaço. Pois o tempo, esse que experimentamos no decorrer dos dias, das estações do ano, das marcas no corpo e na alma, esse tempo não é medido pelas rotações da Terra em torno de si mesmo ou da Terra em torno do Sol. É uma percepção psíquica que responde aos diferentes modos da vida humana. O tempo de um índio de tribos isoladas não é o mesmo de um CEO de uma multinacional. O tempo que nós, urbanos, vivíamos até a Covid-19 era condicionado pela revolução industrial, pela algaravia da metrópole, pela velocidade com que vencemos o espaço – nos carros, nos metrôs, nos aviões.

“Perdemos as referências que tínhamos do tempo. Às vezes penso que estou ficando louco, não sei mais há quanto tempo estou em isolamento. Para mim, é como se estivessem me roubando um pedaço precioso da minha vida. É parecido com o ano de 2010, que passei em convalescência (de uma doença infecciosa grave). Aquele ano não existiu para mim”. Coutinho tem inacreditáveis 85 anos.

Caetano Veloso comparou essa estranha e vaga percepção do tempo no isolamento ao período em que esteve preso durante a ditadura militar de 1964. Com a diferença de que agora, de onde mora, pode ver o mar, o movimento na rua. Mas essa ampliação da paisagem de uma cela para um apartamento não muda quase nada na sensação de que algo muito esquisito aconteceu com o tempo – ele parou?

O que diria Einstein com sua formulação do tempo como sendo alguma coisa que depende inteiramente do espaço e vice-versa? Como se fossem duas bolas de sabores diferentes no mesmo copo de sorvete, quando já não sabemos mais distinguir um sabor do outro. (A comparação doce e gelada é de total responsabilidade – ou irresponsabilidade – minha).

A partir da experiência de Coutinho, que ficou um ano de cama e ele considera que foi um ano não-vivido, dá pra supor que passado o confinamento o tempo voltará a ser o mesmo em sua conexão siamesa com o espaço já não mais insulado.

Mas até lá, e não sabemos quando isso vai acabar, até lá estamos tendo de inventar um novo modo de existir no tempo e no espaço, todos presos em compartimentos fechados de uma nau sem bússola. Nos restaram o dia e a noite, o frio e o calor, a fome e a saciedade, a sede e a água, como se estivéssemos num casulo esperando a hora de voar outra vez.

A lembrança de voos que foram feitos e o desejo de voos que ainda não foram feitos podem nos salvar da incômoda sensação de estamos vagando num vácuo do espaço-tempo.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

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