
Tácio LorranColunas

Deputado de MG se pronuncia após ser alvo da PF por Farra do INSS
Euclydes Pettersen (Republicanos-MG) é considerado porta-voz político da Conafer, entidade investigada na Farra do INSS
atualizado
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Alvo de mandado de busca e apreensão no âmbito da nova fase da Operação Sem Desconto, o deputado federal Euclydes Pettersen (Republicanos-MG) afirmou que recebe com “com serenidade e respeito às instituições” a ação da Polícia Federal (CGU) e da Controladoria-Geral da União (CGU) deflagrada nesta quinta-feira (13/11).
Inicialmente, Euclydes Pettersen enviou uma nota à coluna dizendo que nunca teve qualquer vínculo com o INSS, seus dirigentes ou decisões administrativas. Afirmou ainda que não tem relação ilícita com a Conafer e nunca participou da gestão da entidade.
Em seguida, enviou uma nota complementar, dizendo que toda operação representa, para alguns, um fim, e para outros, uma libertação.
“Já fui alvo de duas operações: em uma delas, fui absolvido, e na outra, o Judiciário sequer recebeu a denúncia, por falta de provas que comprovassem qualquer prática criminosa”, escreveu. “Deixo claro que apoio integralmente o trabalho das autoridades competentes e me coloco à inteira disposição para prestar todos os esclarecimentos necessários. Acredito na justiça, na verdade e na importância das investigações sérias, conduzidas dentro da legalidade e com total transparência”, prosseguiu Pettersen.
Pettersen é considerado porta-voz político da Confederação Nacional de Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer), uma das entidades envolvida na Farra do INSS.
A coluna mostrou que ele vendeu uma aeronave para o presidente do Instituto Terra e Trabalho (ITT), ONG ligada à Conafer, ao mesmo tempo que enviou emendas parlamentares para a entidade.
A verba enviada por Pettersen ao ITT foi parar em empresa ligada à própria Confederação, a partir de um esquema de fraude à licitação.
Nova fase da Operação Sem Desconto
Ao todo, polícia federais e auditores da CGU cumprem 63 mandados de busca e apreensão, 10 mandados de prisão preventiva e outras medidas cautelares diversas da prisão. As ordens judiciais foram expedidas pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Dentre os presos também estão três pessoas ligadas à Conafer, entre eles Cícero Marcelino, e o presidente do Instituto Terra e Trabalho (ITT), Vinícius Ramos da Cruz.
“Reitero que a operação é o fim para alguns e a libertação para outros, já fui alvo de 2, operações que fui absolvido em uma, a outra o judiciário nem aceita a denúncia por falta de provas que comprovassem o crime, então deixo bem claro que apoio a investigação e me coloco a inteira disposição para esclarecimentos necessários”, completou Euclydes Pettersen, por meio da sua assessoria de imprensa.
Entenda a venda da aeronave de deputado para presidente de ONG ligada à Conafer
No total, Euclydes Pettersen enviou duas emendas para o ITT. O primeiro empenho ocorreu em outubro de 2022, no valor de R$ 1,5 milhão. Já a segunda emenda, de R$ 1 milhão, foi enviada em dezembro de 2023. Ambas tinham como objeto a realização de capacitação de agricultores e inseminação de gados bovinos em Minas Gerais.

Entre as duas movimentações, no entanto, o parlamentar vendeu uma de suas aeronaves para o presidente do ITT, Vinícius Ramos da Cruz.
O Cessna Aircraft, modelo 172RG e prefixo PR-ATM, havia sido comprado por Euclydes Pettersen e um sócio em janeiro de 2021. O valor total da compra foi de R$ 320 mil. Dois anos depois, em março de 2023, o deputado e o sócio venderam o avião para Vinícius Ramos da Cruz por R$ 400 mil.
Já em junho de 2025, houve nova transferência de propriedade do jatinho, desta vez por R$ 700 mil, para Silas da Costa Vaz. Ele é secretário da Conafer e, durante a pandemia da Covid-19, recebeu R$ 4.050 em auxílio emergencial, benefício que foi pago a famílias de baixa renda em razão da crise econômica causada pelo vírus.
Funcionário da Conafer há 10 anos, Silas Vaz mora com a família e uma casa no Recanto das Emas, região com uma das menores rendas per capita do Distrito Federal, o que reforça indícios de se tratar de um laranja. Em conversa com a coluna, o secretário da Conafer afirmou que nunca comprou aeronave e que não sabe dizer por que os aviões estão no nome dele. “Eu não me lembro [de ter assinado qualquer documento]. Toda hora eu assino documentos”, declarou.
Questionado à época da reportagem, Euclydes Pettersen admitiu que tem relação com a Conafer e com o ITT, mas que não poderia responder pelos prestadores de serviço e pela licitação tocada pela entidade. “Sobre os prestadores de serviço, eu não tenho conhecimento, quando indicamos o recurso fica a responsabilidade do instituto direto com o ministério para aprovação do plano de trabalho. Como eu disse, esse plano de trabalho é apresentado diretamente ao ministério para as devidas fiscalizações necessárias para aprovação.”
Aos 41 anos, Pettersen é também presidente do partido Republicanos em Minas Gerais. O parlamentar está em seu segundo mandato na Câmara dos Deputados.
Como a ONG da Conafer fraudou licitações
As emendas de Euclydes Pettersen foram enviadas por meio de convênios ao Instituto Terra e Trabalho. Nessa modalidade, a própria ONG realiza as licitações e subcontrata empresas para a execução do objeto.
No entanto, indícios levantados pela coluna apontam que as licitações foram fraudadas por meio de simulações de propostas, e uma empresa ligada à própria Conafer foi subcontratada, recebendo mais de R$ 2,1 milhões.
A companhia beneficiada pela fraude é a Agropecuária PKST LTDA, representada por Ingrid Pikinskeni Morais Santos, sócia e mulher de Cícero Marcelino de Souza Santos, que, por sua vez, é apontado pela PF como assessor do presidente da Conafer, Carlos Roberto Ferreira Lopes.
Segundo dados da Receita Federal, a Agropecuária PKST foi fundada em março de 2022, sete meses antes de Euclydes Pettersen destinar a primeira emenda ao ITT.
Para ganhar os subcontratos, a Agropecuária PKST simulou licitações com empresas também ligadas ao núcleo da Conafer. Uma das “concorrentes fake” foi a Agropecuária e Mineração Lagoa Alta LTDA, que pertence a Bruna Braz de Souza Santos Lopes, esposa de Carlos Lopes, o presidente da entidade.
Em uma outra licitação, a Agropecuária PKST concorreu com a Ala Genetics, cujo CNPJ e nome presente no carimbo da suposta proposta é justamente o da Agropecuária e Mineração Lagoa Alta.
No total, a empresa obteve três subcontratos no âmbito dos dois convênios. O objeto dos acordos é a realização de inseminações artificiais de bovinos e capacitação de produtores rurais. O ITT ainda não realizou a prestação de contas dos convênios.
Em maio, a Polícia Federal cumpriu dois mandados de busca e apreensão contra Ingrid Pikinskeni e Cícero Marcelino, no âmbito da segunda fase da Operação Sem Desconto, que investiga o esquema de descontos indevidos na aposentadoria e pensão de segurados do INSS. A ação foi realizada em Presidente Prudente (SP).
Relatório da PF aponta movimentações suspeitas envolvendo as empresas do casal e a Conafer. “Como analisado, vultosas somas são enviadas diretamente pela Conafer para Cícero Marcelino, Ingrid Pikinskeni e suas empresas, sendo que, posteriormente, o dinheiro aparenta circular pelas diversas empresas do grupo. Esses fluxos sugerem um mecanismo de dispersão de recursos por meio de entidades e empresas controladas por indivíduos ligados à associação e ao esquema. A origem desses recursos, que passaram por diversas associações e empresas, portanto, levanta suspeitas de lavagem de dinheiro”, diz a PF.










