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O bê-a-bá da queda do comandante do Exército

Reportagem publicada na coluna nesta sexta-feira definiu o rumo da crise entre o Planalto e o alto comando da força

atualizado 21/01/2023 20:15

O general Julio Cesar de Arruda, que será nomeado chefe do Exército em antecipação devido à posse de Lula - Metrópoles general Julio Cesar de Arruda / reprodução Metropoles

O general Júlio Cesar de Arruda, demitido neste sábado do comando do Exército apenas duas semanas depois de assumir o posto, vinha deixando Lula insatisfeito e irritado havia dias.

O presidente e seus auxiliares mais próximos entendiam que Arruda e outros altos oficiais foram, no mínimo, lenientes com os radicais bolsonaristas que no dia 8 de janeiro destruíram as sedes dos três poderes.

Uma parcela relevante dos terroristas, como se sabe, estava acampada na frente do quartel-general do Exército, onde alguns prepararam bombas para explodir na capital da República.

Lula chegou a manifestar publicamente sua desconfiança de que militares facilitaram a ação da turba. Falou até dos indícios de que as portas do Planalto, que são guardadas por homens do Exército, foram abertas para os terroristas.

O presidente também se queixou da atitude de Arruda de impedir que a Polícia Militar do Distrito Federal, já sob o comando de um interventor nomeado por ele, prendesse, ainda na noite do dia 8, radicais bolsonaristas que haviam voltado para o acampamento em frente ao QG depois dos atos. Blindados do Exército foram atravessados na via pela qual os PMs poderiam chegar ao local.

Foi Arruda, comandante do Exército até este sábado, quem chamou para si a decisão de impedir que as prisões fossem feitas. As conversas dele naquela noite com integrantes do governo federal, incluindo o ministro Flávio Dino, da Justiça, não foram boas. A leitura que se fez no Planalto foi a de que o general estava protegendo os golpistas.

Uma crise de 15 dias

O clima, portanto, já não era bom, como mostramos aqui na coluna no dia seguinte à invasão. Vieram outros problemas. Havia, porém, um movimento para colocar água na fervura e distensionar a crise entre o Planalto e a cúpula do Exército. À frente desse movimento estava o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, amplamente criticado por gente graúda do PT porque estaria sendo excessivamente condescendente com os militares.

As tentativas de promover a distensão estavam em marcha. Nesta sexta-feira pela manhã, Lula chegou a receber o general Arruda e os comandantes da Marinha e da Aeronáutica no Planalto. Só que surgiu um problema novo, uma bomba de efeito retardado que Jair Bolsonaro – ele mesmo – deixou armada antes de deixar a cadeira de presidente.

A bomba atende pelo nome de Mauro Cesar Cid, o tenente-coronel que era o principal ajudante de ordens de Bolsonaro e foi designado, pouco antes do fim do governo, para comandar um batalhão do Exército super sensível – mais ainda depois dos atos golpistas de 8 de janeiro.

Explico. Na tarde de sexta, horas depois da reunião de Lula com os comandantes militares, na reportagem em que revelamos aqui na coluna transações financeiras suspeitas de Cid, trouxemos também a informação de que o batalhão para o qual o tenente-coronel está designado é nada menos que uma unidade do Comando de Operações Especiais do Exército.

Não é algo trivial: um oficial bolsonarista (e radical) e sob investigação nos inquéritos dos antidemocráticos estaria, a partir deste início de ano, no comando de uma unidade estratégica do Exército sediada a pouco mais de 200 quilômetros de Brasília.

O significado de um “sim” do Exército

Durante a apuração da reportagem, perguntamos ao Exército se a designação de Cid para o posto estava mantida e a resposta foi um peremptório sim. É algo menos trivial ainda. Registramos. A opção do Exército por manter o ato — e por afirmar publicamente que o ato estava mantido — era, por si, uma afronta a Lula e ao novo governo. Ainda na reportagem, cantamos a pedra nestes termos:

“Mais cedo ou mais tarde, a designação de Cid para o posto será motivo de mais dor de cabeça para o novo governo na delicada relação com o alto comando do Exército — a quem, teoricamente, caberia uma eventual decisão capaz de reverter o ato assinado no apagar das luzes do governo Bolsonaro. Depois das invasões das sedes dos poderes, em 8 de janeiro, nas quais Lula já disse abertamente ter visto o dedo de militares, manter uma unidade tão sensível sob comando de um oficial sabidamente bolsonarista e reconhecidamente radical certamente será um problema para o atual chefe do Planalto.”

Foi bem mais cedo do que mais tarde.

Lula exigiu que nomeação de Cid fosse cancelada

O Planalto ainda não havia se dado conta do problema. Mas com a reportagem, na tarde de sexta, a ficha caiu e o fator Cid acabou sendo determinante para o desenrolar da crise com o Exército.

Como informou Igor Gadelha aqui no Metrópoles neste sábado, a partir de informações de fontes palacianas, Lula exigiu que Arruda cancelasse a nomeação do tenente-coronel bolsonarista. O general teria resistido. O presidente, então, decidiu demiti-lo do posto de comandante.

Embora seus efeitos práticos ainda não estejam claros, até porque é cedo para mensurar como a demissão será recebida pelos demais integrantes do Alto Comando do Exército, a decisão de Lula pode atalhar a crise. Se antes os desacertos eram tratados com dedos para que os problemas da relação não se agravassem, numa espécie de guerra fria entre o Planalto e o Forte Apache, como é chamado o QG do Exército, a postura do comandante de resistir ao cancelamento da nomeação de Cid deu ao presidente uma oportunidade de se impor e de atenuar a percepção de que o novo governo tem medo dos militares.

A própria nomeação do general Arruda já era uma indicação do, digamos, cuidado extremo de Lula no trato com as Forças Armadas. Como também já registramos aqui, o nome preferido da cúpula do governo para o comando do Exército era o do general Tomás Miguel Paiva, o escolhido para assumir a cadeira de agora em diante. Só que foi preciso privilegiar Arruda porque, pelo critério de antiguidade, era ele quem deveria ser assumir. Lula até poderia ter ignorado esse critério, mas preferiu evitar rusgas. Não deu certo.

O busílis do novo cargo do ex-ajudante de ordens de Bolsonaro

Nestes tempos em que a palavra golpe é pronunciada com tanta naturalidade, a escalação do tenente Mauro Cesar Cid para chefiar o 1º Batalhão de Ações e Comandos, o 1º BAC, uma unidade de operações especiais do Exército nas cercanias de Brasília, era um problema também de ordem estratégica para o novo governo.

As tropas do comando ao qual Cid se apresentaria nos próximos dias são treinadas para atuar em situações extremas. Cabe a elas, por exemplo, proteger o núcleo do poder, em Brasília, em caso de necessidade. Há treinamentos específicos para isso, inclusive. Como o próprio Exército define em suas publicações, o batalhão que seria comandado por Cid é especializado em “ações contra alvos de alto valor” em “áreas hostis ou sob controle do inimigo”.

Depois do 8 de janeiro e de tudo o que levou à tragédia daquele dia, seria no mínimo imprudente para o governo deixar um batalhão tão sensível nas mãos de um tenente-coronel estreitamente ligado a Jair Bolsonaro e sabidamente radical. A história do Brasil mostra que basta um punhado de militares e um chefe ousado para se tentar um golpe. Mauro Cid, repita-se, comandaria uma tropa de elite baseada a 200 quilômetros da Praça dos Três Poderes. De novo: não é algo trivial.

Ao resistir e tentar manter Cid no posto, o comando do Exército estava pagando para ver, mas Lula quis mostrar quem manda.

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