Rodrigo França

ABL: Um defeito de cor, cem anos de esquecimento

A chegada de Ana Maria Gonçalves à Academia Brasileira de Letras devolve à instituição a imagem que ela tentou evitar por 128 anos

atualizado

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Tânia Rêgo/Agência Brasil
Ana Maria Gonçalves – ABL
1 de 1 Ana Maria Gonçalves – ABL - Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

A chegada de Ana Maria Gonçalves à Academia Brasileira de Letras é mais do que um marco histórico. É um espelho que devolve à instituição a imagem que ela tentou evitar por 128 anos.

A primeira mulher negra entre os imortais não representa apenas inclusão, representa confronto. Porque o que muda, de fato, quando uma casa erguida sobre alicerces coloniais abre uma única janela para o futuro?

A eleição de Ana Maria não é gesto de benevolência, é rachadura. A ABL sempre foi o retrato de um Brasil que se imaginava universal, mas que se refletia restrito, masculino e branco, ainda que tenha em Machado de Assis, negro, o seu patrono e um de seus fundadores. A presença de Ana Maria não é apenas triunfo individual, é reordenação simbólica: a entrada de quem foi forjada fora dos salões, escrevendo o país a partir das margens que, silenciosamente, sempre sustentaram o centro.

O livro Um Defeito de Cor já havia feito o que a Academia demorou um século para compreender: que a memória negra é também o idioma do Brasil. O romance que atravessa o Atlântico e refaz a travessia da diáspora revela o que a ABL silenciou por tanto tempo: a língua portuguesa, quando escrita ou falada por mãos negras, ganha outra respiração, outra ética, outra pulsação.

O problema nunca foi a ausência de vozes negras, mas o silêncio das portas. Celebrar a primeira é reconhecer o atraso. Representatividade sem mudança de estrutura é ornamento, não revolução. É fácil aplaudir o símbolo e difícil reconfigurar o poder.

Ana Maria Gonçalves não ocupa apenas uma cadeira. Ela ocupa uma era. Sua presença lembra que a língua que moldou o Brasil também é negra, marcada por batuques, rezas, resistências e sotaques.

Talvez seja isso o que mais incomoda: a lembrança de que a imortalidade da literatura brasileira não está nas paredes do Petit Trianon, mas nas ruas, nas vozes, nos terreiros, nos quintais, e nos quilombos.

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