
Mirelle PinheiroColunas

Guerra violenta entre facções transforma vilarejo em “cidade-fantasma”
A violência expulsou moradores, paralisou serviços públicos e levou a Prefeitura a tomar providências. A Polícia Civil investiga
atualizado
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Tráfico de drogas, ameaças, roubos e execuções. Após a violência se tornar rotina, o distrito de Uiraponga, localizado no município de Morada Nova, no sertão do Ceará (CE), passou a viver um cenário de terror imposto por criminosos de alta periculosidade. A localidade, antes pacata, transformou-se em área de disputa entre facções criminosas, resultando na expulsão de mais de 300 famílias de suas casas. Diante do domínio do poderio ilícito, o distrito acabou convertido em uma verdadeira “cidade-fantasma”.
Desde abril de 2025, cerca de 2 mil moradores foram obrigados a deixar suas residências por ordem de integrantes da cúpula de facções criminosas. Investigações apontam que o estopim para os confrontos armados teria sido o rompimento entre dois grupos: o TCP Cangaço, um núcleo da facção fluminense Terceiro Comando Puro (TCP), e a Guardiões do Estado (GDE), organização criminosa originária de Fortaleza.
Com o agravamento da disputa, a região passou a viver um cenário de guerra. Depois da saída dos moradores, a rotina marcada por mortes deu lugar a um silêncio perturbador que, somado aos rastros de tiros cravados nas paredes de concreto, passou a dominar a paisagem do vilarejo.
“Situação anormal”
Em 1º de agosto de 2025, a Prefeitura de Morada Nova publicou um decreto declarando “situação anormal e emergencial” no distrito de Uiraponga, por prazo indeterminado, “em razão do grave comprometimento da ordem pública, da segurança coletiva e da continuidade da prestação dos serviços essenciais”.
Dividido em dois artigos, o decreto autorizou a realocação temporária de alunos da rede municipal para outras unidades consideradas seguras, além da adequação das rotas do transporte escolar, com alterações nos pontos de embarque conforme a necessidade, entre outras medidas.
O serviço de saúde também foi diretamente afetado. Os atendimentos passaram a ser realizados em unidades que permanecem em funcionamento regular, com garantia de acesso à população impactada pela violência. Paralelamente, foram implementadas ações humanitárias e de acolhimento social para atender os moradores deslocados.
“Este decreto entra em vigor na data de sua publicação e permanecerá vigente enquanto perdurar a situação que compromete a segurança pública, a integridade da população e a continuidade dos serviços essenciais no território do Distrito de Uiraponga”, diz o documento assinado pela prefeita do município Naiara Carneiro Castro (PSB).
Cenário atual
Questionada pela coluna, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS-CE) informou que o município de Morada Nova conta atualmente com um efetivo de 145 policiais, responsáveis pelo policiamento da sede e dos distritos, incluindo Uiraponga, que dispõe de policiamento fixo.
Do total, 133 são policiais militares da Polícia Militar do Ceará (PMCE), distribuídos entre o Policiamento Ostensivo Geral (POG), além de efetivos do Comando de Policiamento de Rondas e Ações Intensivas e Ostensivas (CPRaio), do Batalhão Especializado em Policiamento do Interior (Bepi) e da Força Tática (FT). O contingente também conta com 12 policiais civis da Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE), sendo 10 investigadores e dois delegados. O policiamento dispõe ainda de sete viaturas e 16 motocicletas para o patrulhamento da região.
A pasta, no entanto, não informou qual é o efetivo destinado exclusivamente ao distrito de Uiraponga.
“A SSPDS tem empreendido esforços, por meio das Coordenadorias de Inteligência (Coin/SSPDS) e de Planejamento Operacional (Copol/SSPDS), em conjunto com as Polícias Civil do Estado do Ceará (PCCE) e Militar do Ceará (PMCE), para coibir episódios de ameaças e deslocamentos forçados de moradores”, informou a secretaria, em nota.
A Secretaria destacou ainda que, em 2025, 61 suspeitos foram presos em cumprimento a mandados de prisão relacionados a ocorrências de deslocamentos forçados, e que atualmente há 31 investigações em andamento conduzidas pela PCCE.
“A prática, registrada em diversos estados do país e que integra o modus operandi de grupos criminosos em situações de acirramento entre facções, vem sendo combatida no Ceará por meio de mapeamento, monitoramento e prisões de suspeitos”, completou a pasta.
A coluna também procurou a Prefeitura de Morada Nova para comentar o caso. Contudo, não houve retorno até a mais recente atualização desta reportagem. O espaço permanece aberto.
