Marcas, ideias e pessoas que impactam no mundo da comunicação

Sejamos menos irreverentes

Em artigo, Rafael Codonho, sócio-diretor da agência Critério, conta como a marcas tendem a confundir a própria jornada de digitalização

atualizado 10/05/2021 17:19

Rafael CodonhoDivulgação

O Dia das Mães é uma excelente oportunidade para o tal desafio de humanizar as marcas, certo? Sim. Mas, também, ocasião de alto risco para sair completamente do prumo. Existe um mal — por muitos despercebido — que aflige nossa época: o excesso de irreverência. São velhos com atitudes de mancebos, querendo chamar atenção a todo custo e de forma absolutamente artificial. A cultura ascendente dos influencers talvez ajude a explicar parte desse fenômeno.

Vamos a um caso concreto? Uma empresa tradicional, que se relaciona com grandes corporações e conhecidos empresários. No dia a dia, são sérios, formais, solenes. Sua sede tem cores sóbrias, poltronas de couro e tapetes persas. Chega a data festiva e, com ela, a justa ideia de homenagear suas colaboradoras. O que fazem? Um post em que fantasiam todas as funcionárias de super-heroínas, com os adereços mais diversos. Sabe aquela executiva sisuda e durona que resolve problemas cabeludos em reuniões tensas? Eis que, repentinamente, ela surge no feed trajada de Batgirl.

Não é implicância de rabugento: qualquer pessoa que avalie racionalmente a postagem percebe que, no mínimo, forçaram a barra. Por quê? Nesse exemplo, e em tantos outros à nossa vista nas redes sociais, as marcas desprezam a própria essência. Num jogo de cena, tentam aparentar o que, obviamente, não são. E é impossível construir ou fortalecer a reputação sem respeitar o preceito primário que é se ater à realidade. Fora disso, só há mistificação.

E a culpa disso tudo não é apenas de quem se presta a esse papelão. É também, em grande parte, de quem guia essas ações: agências digitais descoladérrimas que tentam transformar os clientes naquilo que elas próprias são. Simplesmente, não conseguem entender as características dos assessorados e, a partir daí, propor estratégias adequadas a esse perfil.

Há aí um fundo de prepotência, de querer ensinar os outros a maneira de se comportar na atualidade e até tocar os negócios. “Corram para o Snapchat, abram uma conta no TikTok! Estão todos lá!”, e hordas de inocentes vão atrás, como seguindo o líder de uma seita.

Tempos atrás, a internet atingiu o êxtase ao ver o reels de uma magistrada de meia-idade, com muitas caras e bocas, trocando o vestido por uma toga. Viralizou. Tudo ao estilo Instagram, com pulinhos e hip hop na trilha. Uau, que disruptiva! Uau, que ousadia! Uau, que case! Para quê? Para nada. Daqui a vinte anos, vamos somente nos lembrar de juízes que ganharam relevância por suas decisões — o resto todo é perfumaria.

E, para permanecer na seara jurídica, o que falar dos advogados que, sob maus conselhos, caem na esparrela de publicar aqueles vídeos em que dançam e apontam pra lá e pra cá? Ao som de samba dão dicas de Direito Previdenciário e acham que, com esse formato, vão chamar a atenção de prospects. É curioso: numa esquina, estão com abotoaduras e camisas com monogramas, fazendo cara feia se não são chamados de “doutor”; na outra, caem no extremo da vulgaridade, comportando-se como pré-adolescentes.

Por algum motivo exótico, as pessoas confundem a jornada de digitalização com processo de infantilização. Nas redes sociais, viram uma versão piorada de si mesmos. Ora, o bom humor é sempre bem-vindo, desde que seja natural.

A pandemia nos permitiu uma nova liberdade: antes era gafe quando o filho invadia o escritório do pai durante uma videoconferência e berrava. Hoje, entendemos que não tem nada de mais. Isso porque a vida real é assim, repleta de espontaneidades. Outra coisa bem diferente é transformar, artificialmente, tudo em folia e trollagem.

Lembro do meu avô, homem de origem extremamente simples e com os hábitos de um monge. No domingo, quando ia à missa, vestia as melhores roupas e o único sapato, lustrado com cuidado. Ele compreendia que era próprio do respeito aos outros e ao ambiente que frequentava agir assim. Oferecia o que tinha de mais valioso. Esse discernimento claro, aliás, é o que diferencia adultos de crianças. Evoluímos com base no esforço árduo de ser melhores a cada dia, sabendo o nosso papel e nos negando a regredir.

Será que vai demorar para a humanidade se dar conta dessa obviedade e entrar nos eixos no território digital? Até quando os falsos profetas seguirão enriquecendo, enquanto conduzem as vacas ao brejo? Tudo isso só vai mudar quando as pessoas se reencontrarem com elas mesmas, sem falsificações. A verdade liberta, sempre.

Rafael Codonho é sócio-diretor da Critério – Resultado em Opinião Pública

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