Marcas, ideias e pessoas que impactam no mundo da comunicação

“Não desista do seu propósito por medo”, afirma Camila Farani

Uma das 500 pessoas mais influentes da América Latina, executiva dá dicas para quem deseja empreender e elenca desafios do setor

atualizado 02/12/2021 16:59

Guido Ferreira/Divulgação

A pandemia de Covid-19 impactou a contabilidade de muitas empresas, que foram obrigadas a enxugar as folhas de pagamento. Por outro lado, para fugir do desemprego, inúmeras pessoas criaram coragem para abrir negócios próprios. Assim, o empreendedorismo por necessidade aumentou e passou a representar metade dos empreendedores do Brasil.

No entanto, só pagar as contas não pode ser o único motivador para encarar todas as dificuldades de ser o próprio patrão. Entender que o negócio existe para resolver o problema de um público específico e, com isso, agregar valor à marca é essencial para ir longe. Além disso, buscar constantemente por conhecimento, principalmente em tempos de novidades tecnológicas cada vez mais rápidas, torna-se um diferencial para sobreviver em meio a tantos empreendimentos virtuais.

Para compreender melhor a jornada do empreendedor e saber como as constantes inovações afetam as decisões empresariais, o Metrópoles bateu um papo com Camila Farani, sócia fundadora da boutique G2 Capital e uma das 500 pessoas mais influentes da América Latina, de acordo com o ranking da Bloomberg Línea.

Farani foi a única mulher reconhecida como a melhor investidora-anjo no Startup Awards em 2018. Atua em negócios que movimentam aproximadamente R$ 1 bilhão por ano, faz parte do conselho do PicPay, da startup Laura e é sócia do Banco Modal, além de investidora há seis anos do Shark Tank, o maior reality de empreendedorismo do mundo.

É embaixadora oficial e conselheira especial de Marketing e Growth da Nuvemshop e reconhecida pela Association for Private Capital Investment in Latin America como uma das principais investidoras da região. Ainda é advogada e pós-graduada em Marketing e tem especializações em Empreendedorismo.

Leia a entrevista exclusiva que o Metrópoles fez com a empreendedora Camila Farani.

Qual o primeiro passo para tirar uma ideia do papel?

Inquietude, coragem, vontade de ajudar a transformar o mundo e se preparar com afinco para isso, buscando conhecimento, entendendo o mercado, suas oportunidades e desafios. Esse é um começo. Eu vejo muitos empreendedores que ainda não tiraram as ideias do papel por medo do fracasso. Eu também tive muitos medos… e ainda tenho! A vida empreendedora é cheia de riscos, mas é exatamente isso que impulsiona o ecossistema e o mercado como um todo. A insegurança pode ser combatida com desenvolvimento do seu conhecimento e metodologia, levando a estratégias mais sólidas contra as ameaças do mercado. Não desista do seu propósito por medo. Ao lidar com negócios e pessoas, enfrentaremos alguns tombos. O erro é natural, e pode trazer bons ensinamentos para evitá-lo no futuro.

Como começar com poucos recursos financeiros?

Empreender exige investimento de tempo, energia e, claro, capital. Costumo dizer que a temática é uma das formas mais arriscadas de investir e um dos maiores riscos é o financeiro. Por isso, além de estudar o mundo dos negócios, é fundamental se aprofundar sobre gestão e finanças para proteger o seu patrimônio o máximo possível. É importante ressaltar que abrir um negócio pensando apenas no lucro está longe do ideal. Contudo, é a realidade de muitos brasileiros. Depois da crise da Covid-19, a taxa de empreendedorismo por necessidade cresceu e passou a representar metade dos empreendedores do país, segundo o Global Entrepreneurship Monitor (GEM) 2020. Mesmo assim, ter outra motivação além do próprio sustento é essencial para que um negócio sobreviva. Para gerar valor é preciso ter valor – e não falo em recursos financeiros, mas em propósito. Os negócios surgem da necessidade de um determinado público, para o qual é proposta uma solução. Para quem está se jogando nesta empreitada, principalmente aqueles que sentem que não têm outra opção, procure lacunas no mercado e pense no que pode oferecer com os recursos ao seu dispor. Se jogue, mas com responsabilidade.

Num universo praticamente todo digital, o que fazer para se diferenciar no mercado?

A velocidade em que tudo se desenvolve e perde relevância no digital impulsiona uma busca constante por diferenciação no mercado. A força de um novo negócio é consequência de uma nova forma de pensar, buscando soluções que não são óbvias e capazes de atender o novo consumidor. No meio desta corrida pela inovação, o empreendedor deve lembrar do básico: o valor do seu negócio e quem pode aproveitá-lo. O digital é vasto e superlotado. Por isso, a segmentação de público é ainda mais importante.

Quais são os principais riscos de empreender?

Costumo dizer que empreender é uma roleta-russa. Já de início, existe o risco de patrimônio. Uma das perguntas mais comuns dos empreendedores é: de onde vou tirar o dinheiro para empreender? Quando o empreendedor consegue superar essa barreira, ele pode se deparar logo no primeiro ano com a dificuldade de fidelizar clientes e, muitas vezes, com a decepção com o lucro obtido. Outros ainda enfrentam a falta de recursos, quando o investimento inicial é alto e o resultado não cobre as despesas. Além de questões financeiras, existem as de gestão que precisam ser bem endereçadas, como a de estruturar um time complementar. Entre os principais motivos para o fechamento de negócios estão a falta de planejamento, o desconhecimento de aspectos de gestão empresarial e o comportamento empreendedor. Não é preciso se tornar um expert, mas ter uma boa noção sobre essas áreas é importante para trazer resultados positivos.

O sucesso do empreendedorismo digital está atrelado a quê?

Um dos primeiros passos ao criar uma empresa com maiores chances de sucesso é entender qual o seu objetivo e testar hipóteses. Não existe mais a lógica de apostar tudo em uma ideia absoluta, que não pode ser mudada. Experimentar, algo muito forte da cultura das startups e, especialmente, das estratégias de growth hacking, faz parte desse processo cada vez mais. Outro pilar fundamental é ter um modelo de negócio que enderece um grande problema não atendido no mercado. É importante também conhecer os seus clientes, competidores e potenciais parceiros.

Quais são as principais vantagens de empreender no digital?

O alcance proporcionado pelo digital é incomparável, representando um potencial de mercado que simplesmente não é possível no mundo físico. Posicionar sua empresa no mundo virtual é poder alcançar milhões de pessoas, sem barreiras geográficas, que podem conhecer o seu produto ou serviço, utilizá-lo e, quem sabe, compartilhar a experiência que teve com ele.

Como escolher a plataforma certa para empreender?

Ao migrar para o digital, o primeiro instinto é estar presente em todas as redes sociais possíveis. Mas é importante manter o foco. Estude o seu público, como ele se comunica e se comporta, onde ele está, o que ele gosta de consumir em cada plataforma, entre outros fatores. É essa compreensão que vai fundamentar a estratégia para consolidar o seu negócio no digital, onde a segmentação se torna ainda mais importante. Contudo, enquanto é preciso trabalhar a multicanalidade no digital, não se pode esquecer de proporcionar uma boa experiência presencialmente. O digital veio para ficar, mas não vai acabar com o físico.

Durante a pandemia, muitos negócios migraram para o digital, esses negócios devem permanecer no digital mesmo após a pandemia?

A digitalização foi acelerada durante a pandemia, bem como o aprendizado que tivemos. Isso não pode se perder. As restrições de combate à Covid-19 impulsionaram um novo olhar sobre a transformação digital e todo o ecossistema empreendedor foi desafiado. Agora, a missão é entender o comportamento do cliente pós-pandemia. A crise ainda não acabou e as mudanças seguem constantes. Compreender o que o mercado quer e como consome para se adequar a ele e à economia de baixo contato que continua a crescer é peça-chave para ter um negócio mais sólido e estável.

Quais são os principais desafios para quem tinha um empreendimento físico e agora quer empreender no digital?

Para o empreendedor que quer expandir o seu negócio, ficar de fora do digital não é opção. Tornar um negócio estritamente físico em uma operação híbrida envolve uma série de desafios. Essa transição pode ser especialmente complicada quando não há estudo ou infraestrutura para isso. O digital é um novo mundo, que exige novas estratégias que, muitas vezes, podem ser ainda mais complexas. A transformação digital é muito rápida. Enquanto a tecnologia se torna ultrapassada em pouco tempo. Por isso, acredito que um dos grandes desafios aqui é se adaptar à velocidade de um mercado que se alimenta da inovação constante. E estar constantemente em busca de conhecimento.

Qual a receita para ser um bom empreendedor nas redes?

Não existe receita nem fórmula mágica para ter sucesso nas redes sociais. Contudo, é claro que existem estratégias que podem ser implementadas para tirar o maior proveito possível dessas ferramentas digitais. Gerar valor é a questão principal quando falamos de empreendedorismo digital. Para ser um bom empreendedor nas redes, você precisa proporcionar um conteúdo relevante para o seu público, e de forma contínua. Os usuários precisam se identificar com o que você posta, assim como o seu produto ou serviço, para clicar no botão de “seguir” ou engajar com as suas publicações. Assim, o valor do seu produto ou serviço deve ser comunicado onde o seu público está e na linguagem que ele utiliza.

Quais são as dicas para quem quer começar a empreender?

Antes de tudo, pense se você realmente quer empreender. Ter essa certeza é essencial, porque ela é a energia que motiva e alimenta o empreendedor a superar os desafios. Que não são poucos, inclusive. Além de estudar e se atualizar constantemente, um empreendedor qualificado também precisa ser determinado, pois há um longo caminho pela frente. Para o seu negócio avançar, é preciso foco no cliente, desenvolvimento pessoal e profissional e conexões. Apesar dos desafios, o empreendedorismo é um mar de oportunidades a serem exploradas. Quando um produto ou serviço consegue endereçar uma dor real de um determinado público, ele gera valor para quem o utiliza ou consome. No fim do dia, esse deve ser o objetivo de qualquer negócio, e o empreendedor nunca pode esquecer disso.

Estamos num bom momento para começar um negócio?

Vivemos um cenário de volatilidade do mercado, mas, ao mesmo tempo, o ecossistema empreendedor nunca esteve tão aquecido. As startups brasileiras já receberam US$ 8,85 bilhões de investimentos em 2021, dados compilados até novembro pelo Inside Venture Capital. O volume supera em 120% o total de 2020. A mentalidade empreendedora também vem evoluindo nos últimos anos, e isso nos traz ótimas perspectivas. Quem deseja um negócio próprio não pode temer tempos difíceis. É importante ter a plena consciência de que, dentro dos ciclos que fazem parte do mercado, sempre haverá altos e baixos.

Qual o momento certo de ser uma investidora-anjo?

O objetivo de uma investidora-anjo é aplicar em negócios com alto potencial de retorno. Ela naturalmente incentiva o empreendedorismo, investindo em boas ideias que não têm o capital suficiente para sair do papel. Mas é claro que, para investir, o principal é ter os recursos para isso. Normalmente, investidoras-anjo ocupam ou já ocuparam altos cargos, como empreendedoras, executivas, entre outros. Acredito que o momento certo para começar é aquele em que a investidora se sente segura o suficiente para se aventurar nas incertezas do ecossistema de inovação. Que tenha consciência dos riscos, mas também que os resultados podem ser muito gratificantes.

Mais lidas
Últimas notícias