Polêmica: menu kids precisa ter mais do que bife com batata frita

Na maioria das vezes, a oferta em restaurantes não incentiva a curiosidade por novos sabores e experiências gastronômicas

atualizado 11/10/2021 14:25

Foto: Reprodução

Todo ano é a mesma coisa: em outubro, minha caixa de e-mail fica abarrotada com sugestões de restaurantes para o almoço do Dia das Crianças. Confesso que, mesmo depois de tantos anos trabalhando com a divulgação de empreendimentos de alimentação fora do lar, e tendo muitas decepções, abro pacientemente cada um deles com a esperança de que ali estejam descritos menus ricos em sabores e texturas, que incentivem a curiosidade dos comensais mirins por novas experiências gastronômicas.

Entretanto, o que vejo é uma profusão de bifinhos, macarrõezinhos, batatinhas, molhinhos e arrozinhos. Todos esses diminutivos tentam criar uma conexão com o público alvo, mas a minha impressão é que diminuem a oportunidade de se construir um paladar variado no cliente do futuro.

“A criança acostumada a bifinho e batata frita no menu kids vai se tornar o adulto do filé com risoto”, afirma o pesquisador Guilherme Lobão.

Para ele, os restaurantes sempre partem do pressuposto de que criança não gosta de vegetais e temperos. Até os eventos que se propõem a aproximar os pequenos da cozinha sempre apelam para os doces, ao invés de abordar o contato com alimentos frescos, naturais.

Faço coro a este pensamento. Ao pensar em escrever este texto, busquei na internet a expressão “menu kids em restaurantes” e encontrei “dicas infalíveis” de uma consultoria de food service para criar um cardápio infantil. Um dos conselhos começava com a constatação de que o paladar infantil é menos elaborado que o dos adultos e que por isso deveria se oferecer alimentos menos complexos.

Se é assim, por que, então, as crianças de hoje gostam tanto de sushi, uma comida que nem faz parte da nossa cultura e do cotidiano delas? Por que elas gostam tanto de acompanhar reality shows de gastronomia? Parece que, de uns anos para cá, o paladar infantil evoluiu, mas a mentalidade de um grupo de adultos ainda precisa entender a importância de não subestimar o interesse das crianças pela comida variada.

Oferta

“Toda fonte de vitaminas e minerais, tão importantes para o bom funcionamento do organismo, vem das hortaliças. Os pratos infantis, infelizmente, seguem o padrão branco e amarelo, a exemplo do frango com arroz e batata frita. Quando muito, se oferece um feijão”, analisa a nutricionista Juliana Braga, que tem uma empresa dedicada à alimentação de crianças, a Bentô Kids. Os pães que ela oferece, por exemplo, têm várias cores extraídas de ingredientes como espinafre, agrião, couve, cenoura, batata doce roxa e beterraba. É lúdico, porém, nutritivo.

Fora a questão nutricional, Juliana destaca outro fator importante a se levar em conta, não somente em restaurantes como em casa. “Acredito que a criança deve fazer parte de todas as atividades da família, inclusive comer o que a família come. Hoje, que se tem um hábito maior de ir a restaurantes, por que os pais saem para ter essa experiência e a criança fica à margem? Eu não acho razoável”, questiona ela.

A nutricionista acrescenta que a experimentação de novos sabores é realizada desde o leite materno. “Vários estudos mostram que ele contém flavores, que são os aromas e os sabores em doses homeopáticas. Então, quanto mais variada é a alimentação da mãe, mas a criança terá tendência a um paladar mais aguçado e diverso. Então, se essa criança já foi criada assim e depois os pais quebram essa rotina alimentar, estão excluindo ela da comensalidade, que é uma coisa extremamente importante para o desenvolvimento social do ser humano”, ensina.

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Culturalmente, a redução de opções para crianças também é questionável. Juliana recorda dos tempos em que atendia famílias no interior da Bahia e a forma como os alimentos frescos e sazonais eram deixados de lado pelas mães em detrimento aos industrializados. “A indústria alimentícia mexe muito com a questão do status. Quando eu atendia as crianças, as mães perguntavam se podiam dar preparos vendidos em supermercados misturados ao leite. Eu sempre sugeria um mingau de tapioca ou de milho verde, que é mais nutritivo e tem a ver com a cultura local. Na cabeça daquelas mães, elas estavam fazendo o melhor para os seus filhos, influenciadas por campanhas de marketing. Muitas trocavam o leite natural pelo em pó”, relembra.

Há 20 anos trabalhando como educador, o coordenador do curso de gastronomia do Iesb Sebastian Parasole acredita que os menus kids excluem as crianças.

“Os cardápios deveriam ser inclusivos. Por que crianças comem as mesmas sobremesas que os adultos e não podem comer os mesmos pratos? Não tem que ter diferenciação. Essa exclusão faz parecer que elas não são parte da família”, diz o professor, que criou a Iniciativa Bandoneón há cinco anos para levar conhecimento sobre gastronomia a comunidades desfavorecidas.

O projeto percorreu diversas escolas públicas, ensinando merendeiras a diversificarem os preparos com os insumos já presentes em suas cozinhas. O contato com os alunos mostrou a ele como as crianças se interessam pela comida, se inseridas no processo. “As crianças são extremamente honestas e não têm problema para dizerem que não gostaram. Tive todos os tipos de depoimentos e percebi que os que moram mais afastados de centros urbanos, têm uma familiaridade muito maior com os vegetais, prestam mais atenção ao que estão comendo”, afirma o educador.

Educando o paladar

Nesta semana, em que se comemora o Dia Mundial da Alimentação, Sebastian lança uma cartilha com cinco receitas elaboradas nos cinco anos da iniciativa, em parceria com o projeto Chef e Nutri na Escola e com a Diretoria de Alimentação Escolar da Secretaria de Educação. Totalmente ilustrado por Bárbara Nozari, o material pretende ser acessível até mesmo a quem não sabe ler e estará acessível pela internet e será distribuído nas escolas.

Não é que o restaurante tenha a obrigação de educar o paladar das crianças. Esta função é dos pais. Mas por que não oferecer alguns pratos do menu em porções menores, por exemplo, e incentivar a curiosidade das crianças por novos sabores. “Seria legal se as casas oferecessem uma espécie de degustação com minipratos de seus menus para que elas aprendessem sobre os sabores”, sugere Juliana Braga.

Formada em biologia, Evelyne Ofugi deixou a docência de lado para estudar a área de alimentação na Universidade de Stanford. Há 10 anos, ela ministra cursos e workshops sobre o assunto para crianças e adultos e tem dois livros publicados com receitas saudáveis e divertidas. Em Brasília, criou a Kawaii Pan com a proposta de oferecer lanches lúdicos para todas as idades.

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“Eu também sou mãe e quando vou a restaurantes com meu filho o que encontro é hambúrguer ou macarrão com uma carne grelhada. Daí a gente sempre pede um adicional de salada para complementar. Eu entendo que há uma necessidade de facilitar a logística, mas o chef de cozinha precisa ter uma atenção especial para a criança se quer atrair a família para o seu estabelecimento”, diz a especialista.

Para ela, uma solução é inserir legumes e vegetais nos hambúrgueres ou no arroz para tornar a comida mais colorida, por exemplo. “Isso já ajuda bastante. Variar os formatos também é interessante”, sugere Evelyne.

De acordo com ela, é possível estimular o interesse também em casa. “No curso em Stanford, aprendi que é essencial acolher a criança e preparar os alimentos com ela, apresentar desde cedo o brócolis, o tomate, e tornar este momento divertido. Também é importante acrescentar novos ingredientes a receitas que ela já está acostumada”, conta.

A luz no fim do túnel é que o paladar muda naturalmente com a idade, até mesmo para quem já é adulto, de acordo com Evelyne. A cada época, estamos mais propensos a determinados sabores. O importante, no entanto, é abrir a cartela de alimentos e deixar a criança desfrutar e não limitar a lista.

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