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Em vídeo, advogado humilha idosa no aeroporto do DF: “Sei jogar no lixo”

Sem saber que era gravado pelo cantor Higor Moraes, servidor da Caixa se identificou como delegado da PF, informação negada pela corporação

atualizado 30/12/2020 15:51

Reprodução / Youtube

Um homem que se identificou falsamente como delegado da Polícia Federal (PF) foi filmado, na tarde de segunda-feira (28/12), atacando e humilhando uma missionária de 85 anos, que dedica a vida a levar o evangelho aos inúmeros passageiros que passam pelo Aeroporto Internacional de Brasília Juscelino Kubitschek.

O autor dos ataques contra Dona Isaura Lima Lopes é Edson Pereira da Silva, advogado e servidor da Caixa Econômica Federal (CEF).

Os insultos foram gravados pelo cantor e influenciador digital Higor Moraes, maranhense radicado em São Paulo (SP) e que fazia uma rápida conexão na capital federal para chegar até Goiânia (GO).

Nas imagens, o artista aparece elogiando o trabalho de 25 anos da missionária até que é interrompido pelo falso delegado, que passa a reclamar da pregação no local. A função foi desmentida pelas associações que representam as categorias policiais (veja abaixo).

“Sou delegado da [Polícia] Federal e sei jogar no lixo ou no hospício”, provoca o advogado no vídeo.

Na mesma hora, Higor Moraes rebate a atitude do cidadão incomodado. “Não, se você é delegado, o problema é seu. Eu acho que você tem que ter respeito”, inconformou-se.

“Mas para ficar ouvindo essa merda, não. Nós estamos aqui em um ambiente público”, continuou o falso delegado. “Se é público, ela tem o mesmo direito que você tem”, disparou o artista.

Em meio à discussão, dona Isaura Lima Lopes diz no final da gravação dar “graças a Deus que eu sou surda”.

Veja o vídeo:

Quem é Higor Moraes?

Com 27 anos, Higor Moraes é cantor sertanejo, mora atualmente em São Paulo, mas viveu em Goiás antes de deixar a pequena cidade de Tasso Fragoso, município maranhense onde nasceu e que tem pouco mais de 8 mil habitantes. Devido à pandemia da Covid-19, precisou suspender a agenda de shows e passou a se dedicar às redes sociais.

Para chegar até Goiânia, onde precisava resolver questões pessoais, Moraes fez uma pequena conexão em Brasília, onde desembarcou e conheceu a missionária Isaura, que já atua no local há mais de 25 anos.

“Fiquei apaixonado por ela, pela força dela. Que bonito levar esse trabalho sem receber nada em troca, apenas tocando a fé das pessoas”, disse ele durante entrevista à coluna Janela Indiscreta, do Metrópoles.

Classificada muitas vezes como indigente ou até mesmo com distúrbios mentais pelos transeuntes, dona Isaura conquistou a atenção do rapaz, com quem conversou por mais de meia hora até a intervenção do falso delegado.

“Entre eu e ela, quem é louco sou eu, na minha percepção. Realmente, para você ter noção, nada é por acaso. Eu nunca peguei uma conexão na minha vida. Nunca peguei um voo de São Paulo para Goiânia e tive de parar em Brasília. Cheguei no aeroporto, fui almoçar e vi dona Isaura de longe, pregando. Naquela correria de aeroporto, comecei a iniciar uma conversa, mas ela não ouve. Fui orientado a conversar pausadamente para que ela fizesse uma leitura labial”, contou.

De acordo com o artista, a altura da pregação é justamente pelo problema auditivo da idosa. “Eu estava conversando com ela, e por estar falando alto, justamente pelo problema de audição dela, acabou chamando a atenção daquele homem, que foi o único a reclamar. Fiquei muito indignado com a reação dele porque, mesmo sendo delegado ou presidente da República, ninguém pode tratar alguém daquela forma, ainda mais uma senhora de mais de 80 anos”, indignou-se.

Solidariedade

A confusão foi tamanha que o cantor acabou perdendo o voo para Goiânia e sendo realocado em outra aeronave após os funcionários da empresa Latam se solidarizarem com a situação. Só que a campanha de apoio não se resumiu aos atendentes da companhia.

Após a divulgação das imagens na sua conta do Instagram, Higor Moraes disse que grande parte das pessoas uniu-se contra a atitude do falso delegado. “Recebi muitas mensagens, principalmente pela exposição dela aos ataques do servidor público.

“A atitude que eu tive, talvez inúmeras pessoas também teriam tido. Ou, talvez, não. A pessoa pode ser quem for, independentemente, mas respeito tem que ter com todo mundo. Ele poderia ser qualquer um, mas eu não aceitaria aquela atitude e teria agido da mesma forma. O meu caráter e a minha criação foram assim e jamais deixaria isso de lado”, reforçou.

Moraes também estranhou o fato de o servidor ter se apresentado falsamente como delegado federal, o que poderia gerar um certo constrangimento. “Fiquei admirado de usar um órgão como a Polícia Federal, tão séria. Acredito que a intenção dela poderia até ser essa, mas não me coagiu e nem me intimidou. Se tivesse me intimidado, eu não teria seguido com o vídeo”.

No fim da conversa, Higor defendeu que a justiça seja feita. “Não quero que isso caia no esquecimento. É triste, mas acho que essa história não vai dar em nada. Mas se esse for esse o desfecho, não foi porque eu não tentei”, disse.

Dona Isaura

Transeunte no Aeroporto Juscelino Kubitschek, a aposentada Isaura Lima Lopes, 85 anos, dedica a vida a levar “a palavra de Deus” para os cerca de 50 mil passageiros que já chegaram a circular diariamente pelo terminal.

Sem ouvir desde os 38 anos, Dona Isaura carrega a Bíblia, cartazes e costuma falar alto pelo local, o que acaba chamando a atenção das pessoas. Mas, se quiser que ela compreenda a sua mensagem, é preciso escrever perguntas ou comentários em um pedaço de papel.

A idosa diz que nasceu em Goiana, município de Pernambuco, e não tem contato com a família. A mãe, segundo conta, morreu quando ainda tinha 11 anos. Diz ainda que foi noiva duas vezes, mas não chegou a se casar. “A partir daí, comecei a servir a Deus e costumo dizer que sou guiada por Ele”, afirmou em entrevista dada ao Metrópoles.

Depois de 40 anos viajando de cidade em cidade, ela veio para o Distrito Federal. Chegou em 1992 e começou a frequentar o aeroporto no ano seguinte. A frequência no terminal, que era de algumas horas, se transformou em dias, meses e até anos.

A Inframérica, responsável por administrar o aeroporto, tenta localizar a família da idosa, sem sucesso. Os órgãos de direitos humanos dos governos também foram procurados, mas não levaram o caso adiante.

No mundo silencioso de Dona Isaura, ela continua se segurando no que acredita, que é o Evangelho. Embora seja alvo de caras feias e olhares tortos, garante não perceber o tempo passar quando está apenas na companhia da Bíblia.

Assim, possivelmente, os insultos feitos pelo falso policial não devem perdurar por muito tempo na memória da idosa. Em proporção maior, a missionária de 85 anos também deverá encontrar outros passageiros os quais reconheçam a sua fé.

Associações se manifestam

Em nota, a Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) e a Federação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (Fenadepol) manifestou indignação com o recente episódio ocorrido no Aeroporto de Brasília.

“Diante da confirmação oficial, por parte da Polícia Federal, de que o cidadão que afrontou a senhora idosa não faz parte dos quadros da carreira, haverá a partir de agora a busca pela sua devida identificação para que responda na justiça pelos danos causados à imagem de todos os membros da categoria”.

O que dizem os envolvidos?

A reportagem tenta contato, sem sucesso, com o servidor público por todos os canais disponibilizados, pelo número registrado no cadastro nacional de advogados. O espaço está aberto para manifestações futuras.

Também procurada, a Caixa Econômica Federal informou ter tomado conhecimento da matéria veiculada e esclareceu “que está apurando o ocorrido a fim de avaliar a aplicação de eventuais medidas administrativas” contra o funcionário.

“A Caixa reforça seu compromisso com o respeito, a cordialidade e a inclusão, bem como repudia qualquer tipo de discriminação ou ato de violência, seja ela física ou verbal”, frisou.

Da mesma forma procurada, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-DF) afirmou não compactuar com episódios como o ocorrido na última segunda-feira. “A OAB-DF não compactua com qualquer ato de discriminação e pune, por meio de seu Tribunal de Ética, quaisquer desvios éticos de seus inscritos. Com relação ao caso em tela, se instada, seguirá o protocolo”, afirmou Délio Lins e Silva Jr, presidente da Seccional do Distrito Federal da entidade.

 

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