
Ilca Maria EstevãoColunas

Fibra de bisão chega à moda para frear impactos da produção de lã
Dispensado por frigoríficos, o pelo do animal é tão macio quanto cashmere. Porém, são necessários alguns avanços para a difusão do material
atualizado
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Enquanto marcas de todo o mundo procuram soluções sustentáveis em materiais reciclados e tecidos que não impactam o meio ambiente, a marca norte-americana United by Blue tem dedicado seu trabalho a algo menos óbvio. A etiqueta, focada em atividades ao ar livre, pesquisa formas de utilizar fibras de bisão descartadas em frigoríficos para criar roupas, acessórios e isolamentos para casacos de inverno.
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Os bisões têm uma pelugem grossa e desgrenhada que, à primeira vista, pode parecer inutilizável para a indústria têxtil. No entanto, a pele do animal é formada por fibras mais quentes do que as de lã de ovelha e tão macias quanto as das cabras Hircus, responsáveis pela produção da cashmere, conhecida por sua suavidade e conforto.
Para fins de comparação, a cashmere tem uma contagem de 14 mícrons, unidade de medida usada para medir a grossura do fio. As camadas inferiores da pele de bisão, por sua vez, tem 15, o que significa que os pelos têm um diâmetro muito pequeno. Isso permite um toque incrivelmente macio.
“É realmente uma fibra de luxo. Tem todos os benefícios que você obteria com uma lã super fina, como a cashmere“, diz Brendan Rauth, designer sênior da United by Blue.

Nas últimas décadas, dezenas de fazendas norte-americanas intensificaram a produção de carne de bisão, levando os frigoríficos a jogarem toneladas de pele no lixo. Atenta a este comportamento, a marca norte-americana fechou parcerias com empresários agropecuários, em um esforço para recuperar essa valiosa fibra e transformá-la em roupas quentes e de alto desempenho.
“Basicamente, pegamos a pele, resgatamos os pelos e depois devolvemos o couro para as fábricas de processamento de carne repassá-lo aos curtumes. Fazemos isso para impedir o desperdício da fibra”, afirma Rauth ao site Fashionista.

As fibras mais macias compõem apenas 15% da pelagem do bisão, mas o estilista enfatiza que os pelos mais grossos são excelentes para isolamentos. “Eles são antimicrobianos, pois não há alergia catalogada, são quentes quando submetidos à água e são fibras ocas, o que traz excelentes propriedades isolantes”, explica o designer.


O uso do pelo de bisão, contudo, tem algumas desvantagens em relação às ovelhas e cabras, que podem ser tosquiadas regularmente durante toda a vida. A fibra do animal só pode ser extraída após o abate, logo antes do processo de curtição do couro.

Do ponto de vista vegetariano, tal processo inviabilizaria o uso da lã de bisão, mas, ao analisar o fato de que a produção de carne irá continuar e o material será jogado no lixo, faz mais sentido utilizá-lo na produção de roupas.
Outro ponto negativo é que a produção de lã de bisão envolve muitas partes e processos. “Temos os criadores, as fábricas de carnes, as instalações de lavagem, a separação das fibras e o gerenciamento de toda essa cadeia, algo caro e que exige muito trabalho. Temos algumas pessoas na equipe contratadas apenas gerenciar o processo”, relata Rauth.

Tantas particularidades e uma infraestrutura pouco desenvolvida são alguns dos motivos pelos quais essa lã ainda não foi difundida na indústria têxtil. A inconsistência do rendimento é a outra causa que desanima os empresários.
Como a fibra de bisão é coletada no fim da vida do animal, e não regularmente, é muito mais difícil estimar a quantidade que será disponibilizada, dificultando qualquer planejamento. Ainda assim, Brendan apoia o desenvolvimento da produção.

“Precisamos de uma base diversificada de fibras para não sobrecarregar nenhuma parte do sistema. A fibra de bisão é um bom exemplo de inovação que tem tudo para desacelerar a produção de lãs de ovelhas e cabras. Nunca haverá um material, algodão orgânico ou poliéster reciclado, que resolverá todos os problemas de sustentabilidade da moda. A verdadeira sustentabilidade é procurar equilibrar um sistema atualmente desequilibrado”, defende Rauth.
Colaborou Danillo Costa