Vale torcer pra Argentina?

Vale tudo em favor de quem quiser expressar a sua convicção sincera. Mas, olha lá... Tem que ser sincera mesmo, hein?

atualizado 14/07/2021 9:55

Comemoração da vitória entre Argentina x Brasil, válido pela final da Copa América 2021 no Estádio Maracanã, no Rio de Janeiro 1Aline Massuca/Metrópoles

Vale. 

Já iniciamos a conversa respondendo à pergunta do título para irmos direto ao que interessa – e o que interessa aqui não é julgar ninguém, muito menos pela questão proposta acima, que é controversa e retomaremos mais adiante neste texto. Vale ser brasileiro e torcer pela Argentina porque, como diria Tim Maia, vale tudo. 

(Na época só não valia dançar homem com homem, nem mulher com mulher. Quer dizer, já valia, mas ele quis dizer isso, a música era dele e fim de papo).

A proposição aqui é um pouco diferente: vale tudo, menos hipocrisia. Vamos fazer esse exercício? Vale tudo em favor de quem quiser expressar a sua convicção sincera. Mas, olha lá… Tem que ser sincera mesmo, hein? Parece fácil, mas não é. Já foi mais. 

Ninguém tem dúvidas de que hoje, antes de dizer qualquer coisa sobre qualquer assunto, a imensa maioria das pessoas ativa automaticamente (sem nem sentir) seus próprios filtros. Esses filtros internos contêm os códigos das várias formas de patrulha em vigor por aí, sobre variados temas – de canudo de plástico a fantasia de carnaval. Vê lá o que você vai falar…

Por que mergulhamos nessa cerimônia toda? Em primeiro lugar, por um motivo saudável. Praticamente todo mundo passou a ser ouvido por muita gente. As tais redes tecnológicas são um assombro. Num singelo perfil no Twitter, num grupo de WhatsApp, enfim, em múltiplos ambientes você não precisa ser “ninguém” (célebre, poderoso ou influente) para ser ouvido por mais pessoas do que se você subisse num caixote com um megafone numa esquina movimentada. 

Ou seja: virou zona (rs).

Agora falando sério: os indivíduos tiveram sua voz amplificada. Isso é bom. É democrático. É inclusivo. E junto com essa revolução vieram os efeitos colaterais – que não são democráticos, nem inclusivos, muito pelo contrário. 

Os mesmos canais que amplificam o que é falado amplificam as reações ao que é falado – e aí é claro que também estão dadas as condições perfeitas para a covardia. Como numa sala de aula onde um adolescente expressa uma dúvida e dezenas de outros o premiam com o coro implacável – “burro!”. Não importa que vários no pelotão linchador possam ter a mesma dúvida que o linchado – a graça é linchar. 

O linchamento é uma tentação humana/desumana, uma forma neurótica de exercício de poder (covarde) que se impõe de maneira inversamente proporcional ao nível de civilização do ambiente. O tímido, o medíocre, o mentiroso e o fraco têm nas patrulhas linchadoras um convite tentador de poder – nas salas de aula, nas torcidas organizadas, na internet. E basta meia-dúzia de códigos de “virtude” para se formar a milícia moralista e sair perseguindo os “pecadores”. 

O problema é que esse tipo de patrulha deixou de ser coisa de grupelhos e virou ativo (valioso) de mercado.

Depois dessa filosofada (sincera), voltemos ao Brasil x Argentina. Como você sabe, houve brasileiros torcendo ostensivamente pelos argentinos, que acabaram vencendo a final da Copa América. É pecado ser brasileiro e torcer pela Argentina? Não acho que seja. Mas se você acha (sinceramente) que é, tudo bem. 

E se um brasileiro torceu pela Argentina porque é contra o governo e acha que a derrota da seleção seria boa para a oposição? Posso achar que ele pensa pequeno, posso não curtir os critérios dele, mas não me acho no direito de recriminá-lo. Cada um na sua. 

Mas e se esse brasileiro disse que a Copa América aumentou os riscos da pandemia e mergulhou de cabeça na patrulha contra os que não condenaram a competição no Brasil? Bem, se ele não tiver se oposto à Copa Libertadores, que trouxe ao país mais delegações estrangeiras do mesmo continente – ele é no mínimo distraído. E se torceu pela Argentina numa competição que ele acha que não deveria ter acontecido, ele é um hipócrita.

Fica então sugerido o exercício: vale tudo, menos hipocrisia. 

Claro que esse vale tudo não é um vale tudo. Sem jogo limpo não dá nem pra iniciar a conversa. E também não é para perseguir ou linchar o hipócrita. É só para reconhecê-lo na multidão e não lhe dar eco. Um hipócrita sem eco perde a armadura de gladiador moralista e fica à míngua – reduzido à sua condição solitária e melancólica de hipócrita.

Um hipócrita desmascarado não é contagioso.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

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