A volta dos puros

O ser humano aprendeu a lição do totalitarismo?

atualizado 13/10/2021 8:19

Everett Historical e Shutterstock

Era uma vez um líder abnegado. Ele queria purificar a humanidade. 

Esse líder achava que você deveria ser livre, desde que estivesse engajado no projeto maior de moralização da coletividade. Do contrário, você era uma ameaça ao bem-estar coletivo e não deveria ter os mesmos direitos que os outros. 

Era um discurso ético. Um chamamento à responsabilidade individual em benefício do bem comum. Assim, esse líder encantou populações inteiras — fascinadas com a adesão a um projeto civilizatório avançado. Era muito claro que o sucesso desse belo projeto social dependia da adesão de cada indivíduo. E quem não aderisse, obviamente, estaria prejudicando a coletividade. Seria uma espécie de traidor. Um indesejável polo de negação à construção da pureza e da felicidade. 

O líder propagava um conjunto de valores virtuosos dos quais ninguém haveria de discordar. E cada vez menos alguém ousava discordar. Não porque o líder ameaçasse. Os semelhantes se encarregavam de cercar o discordante. O projeto coletivo era tão obviamente bom que aqueles que não colaborassem só podiam ser obtusos. E uma revolução virtuosa não pode transigir com obtusos. Melhor calá-los — antes que a influência nefasta se espalhe. 

Eis aí uma ideia simples e eficaz. Impedir que ruídos se espalhem. Zelar para que mensagens impróprias não se disseminem, contaminando o senso comum virtuoso. Impedir que fiquem falando por aí o que é errado, prejudicando o que é certo. Este é um ponto muito valorizado pelo ser humano esclarecido, culto, responsável: afirmar o que é certo e repudiar o que é errado. 

Quanto mais o indivíduo se considera esclarecido, mais ele confia nas suas próprias certezas. Ele tem certeza de que uma união em torno dos valores certos é a chave da prosperidade — e faz a sua parte com fervor, agindo para reprovar e banir os valores errados. Ele se orgulha de ser consciente. Foi com uma formidável soma de indivíduos assim – resolutos sobre a sua responsabilidade social e intransigentes com o que não é certo — que o líder abnegado dominou tudo.

Ou quase. Quando o caminho parecia pavimentado para a consagração da nova ordem virtuosa, o caldo entornou. Indivíduos e povos que talvez não tivessem tantas certezas assim reagiram ao grande projeto purificador. Não que eles não gostassem de pureza. Apenas perceberam que tinha passado a valer tudo pela suposta purificação. As certezas eram tão cristalinas que era preciso asfixiar os que não aderissem a elas. Os mais abnegados preferiam trucidar. Trucidar no bom sentido, claro.

Sobreveio um grande trauma. Após a derrota do líder purificador, a humanidade se deu conta de que o projeto social “virtuoso” tinha ido longe demais. E que a construção de um sistema de controle coletivo para guarnecer uma suposta ética tinha nome: totalitarismo. Enfim, uma tragédia de desumanidade que jamais poderia se repetir no futuro. 

Filmes, livros, leis, códigos e salvaguardas proliferaram para que aquela utopia brutal nunca mais seduzisse o ser humano. Agora olhe à sua volta e responda: o ser humano aprendeu a lição?

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