Comitiva da cloroquina em Manaus tinha médicos de universidades e do HFA

Grupo defende tratamento ineficaz contra a Covid

Um médico do Hospital das Forças Armadas, um psicólogo contra a quarentena, um médico da reserva da Marinha amigo dos irmãos Weintraub. A comitiva de 11 médicos e um psicólogo que foi a Manaus na crise de oxigênio em janeiro, a convite do Ministério da Saúde, reuniu exclusivamente defensores do tratamento precoce, comprovadamente ineficaz contra a Covid. Foi durante essa excursão que o ministério lançou o TrateCov, aplicativo que receitava até a crianças cloroquina e outros medicamentos que não servem para combater a Covid. A lista dos médicos consta de documentos da pasta, obtidos pela coluna, e que detalham o planejamento de voos desses profissionais à capital do Amazonas em 10 de janeiro.

Metade do grupo subscreveu um manifesto da entidade Médicos pela Vida em fevereiro, que prega esse tipo de tratamento sem comprovação científica. Os profissionais partiram de nove cidades rumo a Manaus — Brasília, Porto Alegre, Goiânia, Belo Horizonte, Belém, Campinas, Guarulhos, Curitiba e Recife.

A coluna tentou contato com todos os médicos, mas só obteve resposta de um deles. Veja quem são os profissionais.

Luciano Dias Azevedo
Formado em medicina pela Universidade de Campinas (Unicamp), Luciano Dias Azevedo é militar da reserva da Marinha. Segundo a médica Nise Yamaguchi declarou à CPI da Covid na semana passada, Azevedo foi o autor da minuta do decreto para modificar a bula da cloroquina, em reunião no Planalto em abril de 2020.

Defensor do uso da cloroquina para o tratamento da Covid-19 e ligado aos irmãos Weintraub, Azevedo foi nomeado para o Conselho Superior da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) em junho de 2020.

Bruno Campello de Souza
Bruno Campello de Souza é doutor, mestre e licenciado em Psicologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). É professor de psicologia cognitiva da UFPE. Participou do estudo que deu base ao TrateCov, e era o único da comitiva que não estudou medicina.

Um estudo realizado por Souza e seu pai, Fernando Menezes Campello de Souza, sugerindo que medidas restritivas como lockdown e quarentena aumentariam a mortalidade por Covid-19, foi compartilhado por sites bolsonaristas e criticado por acadêmicos. Especialistas afirmaram que o estudo ainda não havia sido concluído ou revisado por outros pesquisadores, o que é fundamental para que alguma pesquisa seja levada a sério. Sem citar nomes, a UFPE divulgou uma nota, tentando desvincular-se da pesquisa.

Paulo Sérgio Pinheiro Guimarães
Formado em medicina pela União Educacional do Planalto Central e em odontologia pela Universidade Gama Filho. Foi Oficial Médico do Exército no Hospital Militar de Área de Brasília (HMAB) e Hospital das Forças Armadas (HFA). Participou da Missão de Paz das Nações Unidas no Haiti. Assinou o manifesto a favor do tratamento precoce.

Guimarães negou que o objetivo da viagem tenha sido difundir o uso de medicamentos como a cloroquina, mas defendeu a aplicação desses remédios.

“O objetivo não foi esse (tratamento precoce). Fomos a Manaus para saber o que estava acontecendo. Já que politizaram o uso dessas medicações, o que podemos fazer de diferente agora nessa nova onda, com UTIs cheias? Eu que só receitava dipirona e mandava ir para casa vou tentar uma hidroxicloroquina, uma ivermectina. Precisamos tentar fazer algo”, afirmou.

A afirmação do médico, entretanto, vai contra o que os documentos do Ministério da Saúde detalham sobre a viagem. Segundo diversos documentos, era explícito que esse era o objetivo da viagem.

O Ministério da Defesa informou, por intermédio do Hospital das Forças Armadas, que Pinheiro Guimarães é médico civil e não foi designado pelo Comando do HFA para participar de nenhuma comitiva do Ministério da Saúde à cidade de Manaus em janeiro de 2021.

Eduardo Pazuello lança TrateCov em Manaus

Vanessa Gouveia Porto
Formada em medicina pela Universidade de Cuiabá. Defende o tratamento precoce nas redes sociais. Sua foto de perfil no Instagram traz os dizeres “Covid-19 — Eu apoio o tratamento precoce”. Em uma publicação, ela ironizou a espera por “comprovação científica”. A cerimônia de lançamento do TrateCov em Manaus também foi compartilhada. “Força-tarefa da conscientização do tratamento precoce para gestores municipais e médicos locais”, escreveu. Assinou o manifesto em prol do tratamento precoce.

Ricardo Ariel Zimerman
É médico formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Assinou nota técnica do MPF de Goiás que recomendou cloroquina em fevereiro de 2021, além do estudo que serviu de base para o TrateCov. Em abril, defendeu o tratamento precoce em uma live com o senador bolsonarista Eduardo Girão, que depois propôs que o médico falasse à CPI da Covid.

Ellen Gonçalves Guimarães
Formada pela Universidade Federal de Goiás. Trabalha na Unidade de Emergência do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (USP). Assinou o manifesto a favor do tratamento precoce.

No site “Tratamento Preventivo”, da Frente Conservadora de Goiânia, a médica respondeu perguntas sobre a ivermectina e defendeu o “tratamento precoce”. “Os colegas que prezam pela boa prática médica e lidam com a doença na linha de frente já deveriam todos estar utilizando”, disse em fevereiro.

General Eduardo Pazuello depõe à CPI da Covid

Rute Alves Pereira e Costa
Formada em biomedicina pelo Centro Universitário Herminio Ometto de Araras, (Uniararas), com mestrado e doutorado pela Unicamp. Participou do estudo que serviu de base para o TrateCov. Em fevereiro, assinou uma nota técnica do MPF de Goiás recomendando cloroquina e vermífugo contra a Covid.

Helen Araújo de Meneses Brandão Ramos
Formada em medicina pela Universidade Federal de Goiás, com pós-graduação em dermatologia e medicina estética. Em julho de 2020, assinou documento ao MPF de Goiás a favor do tratamento precoce. Em janeiro de 2021, endossou um manifesto em prol do uso de cloroquina e outros medicamentos sem eficácia comprovada contra a doença.

George Alexandre Silva Muniz
É anestesiologista. Em dezembro, assinou um manifesto enviado por Nise Yamaguchi à PGR que criticava a obrigatoriedade da vacina contra a Covid. Seis meses antes, endossou um documento à Secretaria de Saúde do Paraná em defesa do tratamento precoce.

Gustavo Vinicius Pasquarelli Queiroz
Cursou medicina pela Universidade Metropolitana de Santos. Assinou o manifesto a favor do tratamento precoce.

Antônio Bonfim Marçal Avertano Rocha
Formado em medicina pela Universidade do Estado do Pará e especialista em cirurgia oncológica.

Luciana de Nazaré Lima da Cruz
É anestesiologista. Assinou o manifesto em prol do tratamento precoce.