INSS: ex-diretor esteve em lançamento de banco ligado a operador
Investigado no caso de descontos indevidos no INSS aparece em fotos no dia do lançamento do Terra Bank, ligado à entidade Conafer
atualizado
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O ex-diretor de Benefícios do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS), André Fidelis, foi um dos que compareceram ao evento de inauguração do banco Terra Bank, cujo sócio é Cícero Marcelino, assessor da Confederação Nacional de Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer) e apontado pela Polícia Federal como um dos operadores do esquema de fraude nos benefícios de aposentados e pensionistas.
O escândalo do INSS foi revelado pelo Metrópoles em uma série de reportagens publicadas a partir de dezembro de 2023. Três meses depois, o portal mostrou que a arrecadação de 29 entidades com descontos de mensalidade de aposentados havia disparado, chegando a R$ 2 bilhões em um ano, enquanto elas respondiam a milhares de processos por fraude nas filiações de segurados.
As reportagens do Metrópoles levaram à abertura de inquérito pela PF e abasteceram as apurações da Controladoria-Geral da União (CGU).
Ao todo, 38 matérias do portal foram listadas pela PF na representação que deu origem à Operação Sem Desconto, deflagrada no dia 23/4 e que culminou nas demissões do presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, e do ministro da Previdência, Carlos Lupi.
Como mostrou a coluna, o Terra Bank tem parcerias firmadas com a Conafer, uma das entidades investigadas pela PF pela farra do INSS.
Na época do lançamento, em 2022,, Fidelis ainda não atuava na diretoria do órgão e ocupava um cargo na Superintendência Regional do Nordestedo INSS. Ele aparece em fotos no dia do lançamento publicadas no Instagram do Terra Bank ao lado do presidente do Conselho do banco, Philippe Szymanowski.
As fotos foram apagadas das redes sociais do banco após a coluna fazer contato com Fidelis e com o banco.

O lançamento do bando se deu durante a 87ª edição da feira agropecuária ExpoZebu.
Nos registros do Terra Bank, Cícero aparece como administrador na sociedade que inclui a T.B Holding.
A T.B Holding, por sua vez, tem Cícero Marcelino e a Farmlands Holding LLC como sócios. A Farmlands tem como endereço o estado de Delaware, nos Estados Unidos, conhecido pelas regras mais flexíveis para abertura, manutenção e tributação de empresas.
Já Fidelis foi um dos alvos das apurações sobre descontos irregulares de aposentados e pensionistas beneficiários do órgão. Estima-se que o volume movimentado foi de R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024. Ele foi demitido da direção de Benefícios após as primeiras reportagens do Metrópoles.
Fidelis é citado diversas vezes em representação da PF sobre o caso, na qual consta que ele teria recebido cerca de R$ 5,1 milhões de lobista e entidades sob suspeita.
“Ao todo, portanto, pessoas físicas e jurídicas relacionadas a André Fidelis receberam R$5.186.205,0041 das empresas intermediárias relacionadas às entidades associativas”, disse a PF em documento adicionado aos autos.
Parte dos repasses, diz a PF, teve origem em empresas de Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como o Careca do INSS, e apontado como um dos operadores do esquema.
“O ex-Diretor de Benefícios e Relacionamento com o Cidadão do INSS, André Fidelis, por intermédio do escritório de advocacia de seu filho, Eric Fidelis, recebeu R$1,4 milhão de Antonio Carlos”, diz a PF.
Assim como o Careca do INSS, Cícero Marcelino, assessor da Conafer e sócio do Terra Bank, é apontado como operador na farra no INSS por supostamente fazer a intermediação entre as entidades e servidores do INSS.
Em representação da PF no caso, ele aparece em transações suspeitas que poderiam indicar lavagem de dinheiro, segundo a investigação. Uma delas é com José Laudenor, sócio do ex-ministro da Previdência de Jair Bolsonaro (PL), José Carlos Oliveira.
“A ligação entre Cícero Marcelino e a rede de associações sugere que este indivíduo e suas empresas possam ser mais uma peça no esquema de desvios de recursos do INSS. Além do mais, a movimentação de recursos de volta ao remetente sugere um possível ciclo de lavagem de dinheiro, no qual os valores recebidos podem estar sendo redirecionados para camuflar a verdadeira origem dos recursos”, diz trecho da representação da PF.

Defesa
A coluna entrou em contato com os citados na reportagem, mas não obteve resposta.

