Dinheiro e Negócios

Pressão sobre fornecedores e preços: os pontos que travaram fusão Petz e Cobasi

Cade chegou a aprovar a fusão alegando que a união das duas maiores empresas do setor não representava riscos à concorrência

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

Getty Images
cachorro recebendo carinho na cabeça
1 de 1 cachorro recebendo carinho na cabeça - Foto: Getty Images

Aprovada sem questionamentos pela Superintendência-Geral do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), a fusão das gigantes Petz e Cobasi travou após a concorrente Petlove apresentar recurso pedindo que o negócio passasse pela análise do Tribunal do Cade.

Apesar do Cade ter entendido que a fusão das duas maiores empresas do setor não representava riscos à concorrência, o recurso aponta possíveis impactos não considerados pela área técnica da autarquia, como a pressão sobre fornecedores, e, consequentemente, sobre os preços.

A preocupação foi manifestada por 31 das 35 empresas consultadas pelo Cade ao longo do processo, mas não foi registrada na avaliação final. Dentre os impactos negativos mencionados e registrados na versão pública do documento estão: o poder de barganha que a empresa combinada terá com fornecedores; queda nas vendas; monopólio de Petz e Cobasi; capacidade da empresa combinada ditar os preços do mercado; impactos nos preços de mercado; dificuldade de competir; concorrência desleal; capilaridade das lojas de Petz e Cobasi; horário estendido das lojas; elevada concentração de mercado da empresa combinada; prática de preços abusivos por Petz e Cobasi; e agressiva atuação online.

Além disso, antes mesmo da notícia da fusão, Petz e Cobasi já eram conhecidas pela prática de dumping. Com lojas gigantes, oferecem produtos abaixo do valor de mercado durante breves períodos para atrair clientes e minar a freguesia dos concorrentes, levando-os a fechar as portas.

Outro ponto que ficou fora da análise técnica questionado pela Petlove é a atuação omnichannel, os conhecidos programas de fidelidade, que oferecem vantagens para consumidores recorrentes para fidelizar a clientela. O recurso argumenta que a prática dificulta a entrada de novas empresas do setor.

O recurso sustenta que a empresa resultante da fusão terá participação acima de 70% em diversas regiões e argumenta que o negócio entre as gigantes “visa eliminar a concorrência existente entre os dois principais players do mercado e criar um player incontestável em termos de escala, portfólio, atuação omnichannel e poder de barganha com fornecedores, sem qualquer incentivo para repasse de eventuais eficiências ou redução de custo ao consumidor”.

Por fim, o recurso afirma que a aprovação sem restrições poderá causar “danos irreparáveis à concorrência e ao consumidor, prejudicando tutores e seus pets”, e entende que a operação deve ser reprovada. Caso aprovada, a empresa concorrente defende a imposição de “remédios estruturais e comportamentais robustos”, que preservem a concorrência e mitiguem efeitos anticompetitivos identificados.

Animais abandonados

Como mostrou a coluna, o Instituto Caramelo, organização não governamental sem fins lucrativos, dedicada ao resgate e cuidado de animais domésticos em situação de maus tratos e abandono, lançou uma campanha contra a fusão das gigantes Petz e Cobasi.

De acordo com a entidade, o número de animais abandonados nas ruas do Brasil tem crescido a cada ano e, em boa parte dos casos, por um motivo que se agrava silenciosamente: a dificuldade financeira dos tutores.

Dados do instituto evidenciam essa crescente onda de abandono. Em 2022, a ONG acolheu 292 cães e gatos. Em 2023, esse número subiu para 328. Já em 2024, foram 358. Em 2025, o cenário é ainda mais preocupante: apenas no primeiro semestre, 209 animais foram resgatados, ritmo que, mantido, pode fazer deste ano o pior da série histórica.

O temor é que, em um primeiro momento, as redes fundidas adotem promoções agressivas para enfraquecer a concorrência e, em seguida, aproveitem a concentração de mercado para elevar os preços. A redução da competitividade tende a impactar diretamente os consumidores, que hoje se beneficiam de uma ampla oferta de produtos e serviços a preços mais acessíveis. Com menos disputas entre empresas, itens essenciais à saúde e ao bem-estar dos animais – como ração, vacinas, consultas, exames e medicamentos – podem se tornar significativamente mais caros.

Com isso, aumenta também a pressão sobre pequenos comerciantes e clínicas veterinárias – que podem fechar as portas – e, principalmente, sobre os tutores de baixa renda, que já têm dificuldades em manter seus animais. O resultado, segundo o Instituto Caramelo, é previsível: mais abandono.

Reação

As empresas, então, publicaram comunicado conjunto, no qual afirmam que “entendem que as informações passadas são incorretas e distorcem a análise realizada de forma isenta e técnica pelo no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE), que consultou o mercado amplamente e utilizou as melhores práticas para obter uma visão completa do mercado, concluindo que a operação não resultará em preocupações concorrenciais nem prejudicará a concorrência no setor”.

“As empresas também notam que o Instituto Caramelo é patrocinado pela Petlove, concorrente direta das companhias e parte interessada na reprovação da operação. O fundador da Petlove, Márcio Waldman é também conselheiro do Instituto Caramelo. Esta tentativa de interferência em um processo técnico desvirtua a intenção original do Instituto, de cuidado com os pets abandonados”, diz o texto.

O texto continua: “A Cobasi mantém desde 1998 o programa Cobasi Cuida. São mais de 200 mil animais amparados desde o início do projeto, mais de 8 milhões de refeições doadas e 190 ONGs apoiadas em todo o Brasil. Já a Petz desenvolve o Adote Petz, o maior programa privado de adoção de cães e gatos do país, responsável por 85 mil adoções desde sua criação em 2007. Só no ano passado, a Petz doou R$ 6,9 milhões em produtos e refeições, serviços veterinários e apoio em ações sociais para as 137 ONGS apoiadas pelo programa”.

A Petlove, então, comunicou, nesta sexta-feira (25/7), adesão à campanha do Instituto Caramelo. No texto, a empresa destaca que “a manifestação da Petlove contra a fusão de Petz e Cobasi é de conhecimento público e do Cade”. “A PetLove foi habilitada como terceira parte no processo em curso no CADE e, desde então, vem colaborando com a instrução e trazendo suas preocupações concorrenciais. Conforme já exposto, a Petz e Cobasi são hoje os dois maiores concorrentes do mercado pet e os únicos que concorrem de forma efetiva entre si.”

A nota ainda destaca que “a junção das duas empresas terá impactos significativos para todos os brasileiros e brasileiras que têm um pet em casa, o que corresponde a 72% das famílias brasileiras que têm animais de estimação”. “Conforme dados apresentados ao CADE, a fusão tem potencial de fechamento de pequenos e médios petshops, que não terão chance de competir. Perdem os consumidores, perde o mercado, incluindo fornecedores, tutores, pequenos e médios empreendedores e perdem muito também os pets – que hoje já são 160 milhões no país, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet)”.

No fim, a empresa disse que confia “no rigor técnico da análise do Cade e na adoção das medidas necessárias para a garantia de um ambiente competitivo saudável que proteja, sobretudo, os animais de estimação”.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comNotícias Gerais

Você quer ficar por dentro das notícias mais importantes e receber notificações em tempo real?