
Claudia MeirelesColunas

Morre Constantino Júnior, o empresário que fez o Brasil voar, aos 57
Constantino Júnior revolucionou a aviação comercial brasileira e liderou uma das trajetórias mais marcantes do setor aéreo no país
atualizado
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Constantino de Oliveira Júnior, fundador da Gol Linhas Aéreas Inteligentes e presidente do Conselho de Administração da companhia, morreu na manhã deste sábado, 24 de janeiro de 2026, aos 57 anos, em São Paulo. O empresário estava internado em um hospital da capital paulista e enfrentava há anos um câncer. A morte foi confirmada pela própria companhia aérea.
Em nota oficial, a Gol manifestou profundo pesar e destacou a importância de seu fundador para a história da empresa e da aviação nacional.
“Sua liderança, sua visão estratégica e, sobretudo, seu jeito simples, humano, inteligente e próximo deixaram marcas profundas em nossa cultura. Os princípios estabelecidos por seu fundador seguem vivos na GOL e continuam transformando a aviação no Brasil”, afirmou a companhia.

Da origem no transporte terrestre à criação da Gol
Nascido em 12 de agosto de 1968, em Patrocínio, no Alto Paranaíba, em Minas Gerais, Constantino Júnior cresceu em um ambiente empresarial ligado ao setor de transportes. Filho de Nenê Constantino, fundador do Grupo Áurea, iniciou a vida profissional ainda adolescente, aos 14 anos, como digitador em uma das empresas da família.
Entre 1994 e 2000, atuou como diretor da Comporte Participações, grupo tradicional do transporte terrestre de passageiros no Brasil, controlador de empresas como Piracicabana, Penha, Expresso União e concessões em sistemas metroferroviários, como o Metrô de Belo Horizonte e linhas da CPTM em São Paulo. A experiência no setor de mobilidade foi decisiva para a visão de negócios que mais tarde marcaria sua atuação na aviação.
Formado em Administração de Empresas, Constantino complementou a formação com programas executivos voltados à gestão corporativa. Paralelamente, cultivava desde cedo duas paixões que o acompanhariam por toda a vida: a aviação — aprendeu a pilotar aviões aos 15 anos — e a velocidade.
A revolução do low cost
Em janeiro de 2001, ao lado dos irmãos Joaquim, Ricardo e Henrique, Constantino fundou a Gol Linhas Aéreas Inteligentes. A empresa nasceu com uma proposta inédita no Brasil: operar com frota padronizada de Boeing 737, reduzir custos operacionais, vender passagens pela internet e eliminar serviços considerados supérfluos, introduzindo no país o conceito de “baixo custo, baixa tarifa”.
O primeiro voo, entre Brasília e Congonhas, marcou o início de uma transformação estrutural no setor aéreo brasileiro. Sob a liderança de Constantino como primeiro CEO, a Gol forçou uma queda generalizada nos preços das passagens e contribuiu para a democratização do transporte aéreo. Segundo dados divulgados pela própria empresa, cerca de 65 milhões de brasileiros viajaram de avião pela primeira vez em pouco mais de uma década.
Crescimento acelerado e abertura de capital
A expansão da companhia foi rápida. Em apenas três anos de operação, em 2004, a Gol realizou uma abertura de capital simultânea na então Bovespa (atual B3) e na Bolsa de Nova York (NYSE), captando cerca de US$ 281 milhões. O movimento consolidou a empresa como um dos principais players do setor aéreo e transformou Constantino em uma das figuras mais influentes do empresariado brasileiro naquele período.
Em 2004, ele passou a integrar o Conselho de Administração da Gol, acumulando a função com o cargo de CEO até 2012. Durante esse período, liderou a consolidação da companhia no mercado doméstico e a ampliação de sua malha aérea.

A compra da Varig e os desafios da integração
Um dos momentos mais marcantes de sua trajetória ocorreu em 2007, quando Constantino liderou a aquisição da Varig. Em meio à recuperação judicial da companhia aérea mais tradicional do país, a Gol comprou a VRG Linhas Aéreas, empresa criada para abrigar os ativos operacionais da Varig, por valores que variaram entre US$ 275 milhões e US$ 320 milhões, segundo diferentes fontes.
A operação, viabilizada pela nova Lei de Falências, permitiu à Gol incorporar aeronaves, rotas estratégicas, slots em aeroportos como Congonhas e Guarulhos e o programa de fidelidade Smiles, sem assumir passivos trabalhistas e previdenciários acumulados ao longo de décadas. Do ponto de vista jurídico, a transação foi considerada inovadora e acabou confirmada pelos tribunais.
Do ponto de vista empresarial, porém, revelou-se mais complexa do que o previsto. A integração entre Gol e Varig expôs diferenças profundas de cultura, frota e sistemas operacionais. Em 2008, agravada pela crise financeira global, a companhia registrou um prejuízo recorde de R$ 1,38 bilhão. Anos depois, o próprio Constantino reconheceria erros estratégicos na operação.
Apesar dos desafios, a Gol manteve posição de destaque no mercado doméstico e chegou a deter 37,3% de participação em 2013, segundo dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
Do comando executivo ao conselho
Em 2012, Constantino deixou a presidência executiva da Gol após 11 anos à frente da gestão operacional e assumiu definitivamente a presidência do Conselho de Administração, cargo que ocupou até sua morte. A condução do dia a dia da companhia passou então para Paulo Kakinoff.
No ano seguinte, liderou a abertura de capital da Smiles, empresa responsável pelo programa de fidelidade da Gol, movimento estratégico para reforçar o caixa e reorganizar o grupo.

Grupo Abra e atuação internacional
A partir de 2022, Constantino teve papel central na criação do Grupo Abra, holding internacional do setor aéreo que passou a reunir a Gol e a Avianca, além de participações em outras companhias, como a espanhola Wamos Air. Como um dos fundadores e principal liderança do grupo, comandou uma operação regional com presença em cinco países, atendendo cerca de 150 destinos em mais de 25 países, segundo dados divulgados em 2025.
Reconhecimentos e vida fora da aviação
Ao longo da carreira, Constantino Júnior recebeu diversos prêmios e reconhecimentos por sua atuação empresarial. Foi eleito “Executivo de Valor” em 2001 e 2002 pelo jornal Valor Econômico; “Executivo Líder” do setor de logística em 2003 pela Gazeta Mercantil; e, em 2008, recebeu o título de “Executivo Ilustre” na categoria Transporte Aéreo pela premiação GALA, patrocinada pela Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA).
Fora do mundo corporativo, manteve uma ligação intensa com o automobilismo. Competiu como piloto na Porsche GT3 Cup Challenge Brasil, na qual foi vice-campeão em 2008 e campeão em 2011, refletindo o perfil apaixonado por mecânica, esportes e velocidade descrito por pessoas próximas.
Despedida e legado
Constantino de Oliveira Júnior deixa a esposa e dois filhos, além dos pais e irmãos. Até a última atualização, as informações sobre velório e sepultamento indicavam cerimônia no cemitério do Morumbi, em São Paulo.
Sua morte encerra uma trajetória marcada pelo empreendedorismo, pela inovação e por um papel central na modernização do transporte aéreo brasileiro. O legado de Constantino Júnior permanece na democratização do acesso ao avião, na consolidação de um modelo de negócios que redefiniu o setor e na construção de uma das companhias aéreas mais relevantes da história do país.

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