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A série em quadrinhos dos Novos Titãs, publicada nos anos 1980 pelo afiado time com Marv Wolfman (roteiros) e George Pérez (arte), trouxe, à época, frescor ao gênero dos super-heróis por dois motivos. Primeiro, mais conhecido, foi a aproximação humana dos heróis da DC pós-Crise nas Infinitas Terras seguindo o estrago que a Marvel havia feito no mercado de gibis nas décadas anteriores. Se a editora não arrumasse a casa e trouxesse seus heróis ao chão representado pela vida humana ordinária, seria incapaz de se reinventar segundo o carisma proposto pela editora rival a partir das ideias de Stan Lee, Jack Kirby e cia.

Assim, os Novos Titãs nasceram como uma família (tipo o Quarteto Fantástico ou os X-Men) que precisa conhecer suas dores de crescimento para aprender a agir como uma equipe de super-heróis com os devidos valores éticos e eficiência. Para quem leu os quadrinhos, é nítido o valor absurdo — e a fértil fonte de entretenimento — contido naquelas aventuras.

Vejamos: tínhamos uma nova roupagem para o antigo parceiro mirim do Batman; uma feiticeira sombria que era filha de uma espécie de demônio; uma alienígena capaz de canalizar poderes do Sol; um jovem “engraçaralho” com o bizarro super-poder de se transformar em todos os animais; um homem-máquina, além de outros eventuais (tão díspares quanto) membros.

Não preciso ir longe para vislumbrar a maluquice que eram aquelas tramas, de histórias de espionagem, a desafios intergalácticos, ao enfrentamentos de seres de dimensões infernais. Os Novos Titãs era um quadrinho multicolorido, com forte personalidade e um quê de ingenuidade, que levava adiante o potencial dos super-heróis ao extraordinário mais delirante. Os desenhos animados do time feitos nas últimas décadas tiram proveito desse potencial.

A série Titãs, desenvolvida pela divisão de televisão da DC/Warner e veiculada também pela Netflix em 2018, causou (ridícula) polêmica ainda quando saíram as primeiras imagens e trailers, graças a um suposto casting equivocado para os amados personagens. Ora, quem a assistiu sabe que a escolha dos (ótimos) atores foi uma das mais acertadas decisões desse live-action.

O problema não estava ali. Mesmo contando com ninguém menos que Geoff Johns (clássico roteirista de quadrinhos e mandachuva na DC por anos) na produção e escritura dos episódios, o que faltou foi efetivamente esta vibração non-sense que fazia os super-heróis acenderem alguma chama no coração dos leitores. Essa crise, que toma conta de quase todo produto atual de super-heróis (em quadrinhos, cinema e TV) não é só de Titãs, mas do gênero como um todo.

A série da DC/Warner tem lá sua competência. É bem produzida, muito convincente, com arcos sólidos nos roteiros e boa construção dos personagens. Referências legais do universo dos Titãs são bem aproveitadas e ficamos com a impressão de que essa nova fase da DC na televisão aprendeu algo com as (já surradas, também) séries da Marvel.

A questão é: veio tarde demais. Sem o apelo juvenil/amalucado das HQs dos anos 1980, e turbinada por uma tensão dramática sisuda – e que não se despede completamente do “jeito Zack Snyder de ser”, vide a muito desnecessária violência explícita e caracterização psicopática do Robin -, Titãs é apenas mais uma banal série moderna de super-heróis. E, dentro de uma ambientação realista e com “profundidade psicológica”, quem é que gostaria de ser um super-herói, afinal? Não basta não ser do Arrowverse para ser bom.

Academia do guarda-chuva
Uma impressão completamente distinta me ocorreu ao assistir a Umbrella Academy, série lançada como “original Netflix” com produção executiva dos autores da HQ da Dark Horse de mesmo nome, Gerard Way (também conhecido como vocalista e líder da finada banda emo My Chemical Romance) e do desenhista brasileiro Gabriel Bá. Os quadrinhos, publicados originalmente na década de 2000, têm uma trajetória vitoriosa (ganharam prêmios Eisner), e a produção para a TV, lançada em 2019, traz uma série de vantagens em relação a Titãs.

Vamos lá: Umbrella Academy conta com personagens inteiramente originais. Ponto positivo. Não é fácil inventar novos super-heróis nos anos 2000 e eles fazerem sentido, e muito menos sucesso. Essas criações são evidentemente paródicas. A série conta a história de uma equipe de heróis montada por um mentor que os recolheu no mundo quando nasceram sem que suas mães estivessem previamente grávidas. Este time de super poderosos, que se torna adulto como uma família, precisa se reunir quando o excêntrico patriarca morre, resolver suas questões e enfrentar um novo mal que se aproxima.

Olhando assim, essa série também parece uma história ordinária, mas isso é apenas a superfície. A referência mais direta (além, evidentemente, dos X-Men), é Watchmen, o romance gráfico de Alan Moore e Dave Gibbons dos anos 1980 que teria vindo para destruir todo o imaginário dos super-heróis, mas que acabou criando um outro totalmente diferente, garantindo a sobrevida do gênero e criando o atual aspecto dark dos produtos da DC. Umbrella Academy funciona como se Watchmen tivesse a vibração dos quadrinhos originais dos Novos Titãs.

Não se levando a sério, as criações de Way e Bá se permitem não se incomodar com o absurdo e o ridículo de suas próprias existências enquanto super-heróis. Peguemos, por exemplo, o personagem Diego Hargreeves (“Número Dois”), claramente uma paródia de Rorschach (violento personagem de Watchmen), que, por sua vez, era uma paródia do Batman. É óbvio que há uma diluição do gênero. Eu diria que a metalinguagem é a única saída possível para os super-heróis, porém todos sabem que ela é também uma espécie de beco-sem-saída.

Mesmo assim, Umbrella Academy, em sua “humildade” (coisa que Titãs não tem), se permite mergulhar, numa chave aventuresca e cômica, em viagens no tempo, comunicação com os mortos, homens de preto, disputas familiares, o fim do mundo, etc. Tudo isso produzido numa estética visual multicolorida e fantasiosa. É uma questão de tom, ajustes de roteiro e uma libertação à fantasia sem recalques.

Porém, sinto informar que, quando uma forma narrativa precisar recorrer somente à autoparódia para sobreviver – vide a literatura do “ego masculino em crise”; do rock que eternamente emula um som de garagem originário; ou de um cinema que não se cansa de imitar Martin Scorsese -, está condenada a um esboroamento. Esse tipo de fenômeno pós-moderno, como podemos ver, não se aplica somente às histórias de super-heróis, mas esse é um dos gêneros no qual a autoimplosão é mais discernível e violenta. Quando é que vamos abrir os olhos?



 


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