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Em maio de 2014, alguns meses antes de falecer (vítima de um linfoma), o quadrinista goiano/brasiliense Mateus Gandara me concedeu uma entrevista onde afirmava o seguinte:

“Particularmente, não pauto minhas escolhas de acordo com as consequências que elas podem acarretar. Já fiz isso durante um longo tempo, talvez durante toda a minha vida. Não faço mais. No ano passado, estive muito próximo de encerrar minha temporada nesse mundo e reavaliei minhas prioridades. Quais concessões deveria fazer? Nunca mais abrirei mão dos meus gostos.”

Estas palavras, por mais tristes que possam soar hoje, refletem a disposição e a vitalidade apaixonada de Gandara em seus últimos dias, produzindo incessantemente e invadindo terrenos antes desconhecidos. Em poucos anos, motivado por uma visão arrebatadora do mundo e das coisas, ele brotou, cresceu, deu flores. Uma crisálida nunca antes vista nas histórias em quadrinhos brasilienses.

Agora é o momento de colher essas flores de um artista que viveu tanto em alguns meses e eras em seus breves 28 anos. A exposição “Traço Suspenso – Desenhos de Mateus Gandara”, no Museu Nacional da República, com abertura nesta sexta-feira (3/11), compila a produção do jovem quadrinista em 110 obras representativas de sua verve prolífica em desenhos, rascunhos, estudos, além, é claro, de originais para HQs. Por exemplo, a apavorante “Flagelos Noturnos” e a imemorial “Mondo Colosso”.


Um destaque especial vai para uma sala exclusiva dedicada ao seu trabalho póstumo e mais intimista: o olhar sobre o desejo humano no “Diário Erótico Estético Pornográfico” (“D.E.E.P.”), lançado este ano. A exposição tem curadoria da historiadora da arte Renata Azambuja, professora de Gandara.


Não fui professor de Gandara nos tempos em que ministrei a disciplina “Oficina de Histórias em Quadrinhos” na Universidade de Brasília (UnB). Porém, além de ser um amigo, ele estava muito próximo de uma certa “classe de 2013”, turma responsável por revelar quadrinistas muito talentosos, como Gabi LoveLove6, Pedro D’Apremont e Daniel Lopes.

Sempre enxerguei em Gandara potencial para ir mais longe do que todos os outros. Ele tinha referências sólidas. Gostava de “Lobo Solitário”, “Spirit”, Mutarelli, García Marquez e Dashiel Hammet. Seus primeiros quadrinhos primavam por uma imersão quase ingênua na fantasia, mas, como artista inconformado, sempre buscava transfigurar estes gêneros em algo que nos ajudasse a pensar o mundo real, com seus medos e inseguranças.

Durante um tempo, ele produziu para a saudosa página “Batata Frita Murcha” e suas tiras eram hits certeiros. Poesia, melancolia, inflexões existencialistas. Como poucos em Brasília (e diria até no Brasil), o artista fazia da linguagem dos quadrinhos plataforma para diversos tipos de introvisões e elaborações. Gandara mapeou as possibilidades expressivas do meio, indo do terror à poesia e ao erotismo.


Sua tira mais famosa, aquela do passarinho na gaiola (“Ter você / Querer você / Amar você”), em sua simplicidade, evoca todo tipo de paradoxo profano do amor, pregando ao mesmo tempo o aspecto sufocante do desejo e o alívio do desapego. Já vi tatuada em algumas pessoas por aí.


Meu xodó, dentre todas suas produções, está na história “Mondo Colosso”, de 2014, com roteiro de Vitor Vitali. Aqui, Gandara retorna a um paleolítico de seres gigantescos para, numa narrativa dinâmica e sólida, cheia de recursos visuais acachapantes e cinematográficos, contar a silenciosa trajetória de uma mulher vigorosa (verdadeira “Vênus pré-histórica”) que precisa, com as mãos nuas, enfrentar todo tipo de agrura para salvar seu companheiro convalescente.

“Mondo Colosso” tem toda a disposição de Gandara: o detalhe anatômico, a precisão do movimento, os temas da injustiça e da superação, o fascínio por mundos alienígenas, certo erotismo e o principal: uma verdade universal, diria gnóstica, eterna, imemorial. Sem dúvida alguma, todos compartilham da ideia de que ele pertence agora a essa verdade.

Exposição Traço Suspenso – Desenhos de Mateus Gandara
De 3 de novembro a 3 de dezembro, na Galeria 2 do Museu Nacional (Eixo Monumental). Visitação de terça-feira a domingo, das 9h às 18h30. Entrada franca. Não recomendado para menores de 16 anos

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