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A última cidade do mundo é um lugar nefasto e habitado por seres decaídos em semiliberdade. O sol é escuro, tingido por uma mácula usada para torturar rebeldes e degenerar raças subservientes a uma deusa implacável e sórdida. Seres que um dia conviveram em harmonia são obrigados a rastejarem e se humilharem por pequenas porções de comida e lazer. Do lado de fora desta cidade, apenas um deserto cáustico e infértil, apenas degradação.

Assim é Untherak, cenário de Ordem Vermelha – Filhos da Degradação, lançado no final de 2017 pela CCXP em parceira com a editora Intrínseca. Este robusto romance de mais 400 páginas certamente tem condições de marcar a trajetória da literatura de fantasia brasileira não apenas pela pompa e expectativa com que foi lançado, mas, principalmente, por sua excepcional qualidade.

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O autor da façanha é Felipe Castilho, escritor também da série O Legado Folclórico, composta por três livros que ressignificam os mitos brasileiros dentro de um ambiente urbano e moderno. Filhos da Degradação está programado para ser o primeiro volume de uma duologia. Fãs de fantasia têm se atentado para o fato de a obra de Castilho em nada dever às publicações internacionais do gênero. Eu estou de acordo.

A concepção de Untherak, de seus personagens e de seu universo teve também participação dos artistas Victor Hugo Sousa e Rodrigo Bastos Didier, responsáveis pelo visual e composição geral de personagens, cenários e criaturas, além do design do livro e do material de divulgação. Houve também a importante supervisão de Érico Borgo, diretor de conteúdo do Omelete Group e um dos organizadores da CCXP.

Mundo longínquo, problemas próximos
Nos agradecimentos do livro, Castilho afirma (um tanto enigmaticamente), que para se gostar de fantasia e ficção científica, é preciso ter conhecido a MPB antes de Star Wars. Não sei o autor se refere a trabalhos tropicalistas como o romance Não Verás País Nenhum, ficção distópica de Ignácio de Loyola Brandão, ou a filmes como Brasil Ano 2000, de Walter Lima Júnior, mas o fato é que uma certa dose de brasilidade acrescenta muito aos diferenciais de Ordem Vermelha, tornando-o único em relação aos medalhões da fantasia que constituem os clássicos do gênero.

Na leitura do livro, temos mesmo a impressão de que Untherak é uma grande favela despencando pelas tabelas, sendo mantida há mil anos apenas porque está sob o jugo totalitário de um feudalismo macabro e obscuro, incapaz não apenas de promover a mobilidade social, mas também de prover o mínimo de autossatisfação aos seus habitantes. Temas como a intolerância, o abuso de poder, o racismo e a hipocrisia social são constantemente abordados.

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O clima é árido e pesado. Drogados se amontoam pelas vielas, e a violência e a crueldade parecem ser as únicas línguas que elaboram o discurso desta civilização em estado terminal. As seis raças que originalmente compunham o ecossistema deste universo são pálidas e vencidas versões de suas gloriosas naturezas passadas. A única diversão destes pobres e mortificados seres são os cruelíssimos Festivais da Morte, arenas sanguinárias que fariam empalidecer os mais violentos gladiadores romanos.

Castilho imprime um ritmo firme, de inspiração cinematográfica, à sua história de justiça e redenção. Os capítulos possuem algumas variações, com cortes abruptos para passar o ponto de vista a outros personagens, criando uma atmosfera de correria constante na medida em que seus protagonistas vão se cruzando em direção a um propósito comum. É uma escrita clara, sem rebuscamentos (como o pop pede), mas marcada por boas inflexões e capacidade de pensar o que está sendo narrado.

Porém, mais do que uma trama extremamente bem estruturada com personagens cativantes o suficiente, é a riqueza do universo concebido pelo autor que encanta, como deve ser, aliás, em qualquer universo de fantasia. A cada página lida, adentramos num mundo vívido e microdetalhado, revelando enorme e honesto esforço de criação.

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Ordem Vermelha possui uma fauna de insetos gigantes, com sinfos que os enfeitiçam com música, além de culturas distintas e naturezas biológicas sofisticadas para suas raças, algumas inteiramente inéditas. Também possui uma ordem política e social funcional, totalmente verossímil, e clarividente humanidade em cada página escrita. Tudo aqui remete a planejamento e transpiração literária.

Para além do escapismo típico do gênero, Castilho se preocupa em modernizar o fantástico para debater questões contemporâneas, algumas totalmente vizinhas à nossa realidade brasileira, sem parecer demagógico, proselitista ou forçado. Ao mesmo tempo, fãs de fantasia não deixarão de encontrar no livro os elementos que fazem desta tradição uma das mais encantadoras do mundo da literatura. Um duplo triunfo, portanto.

Enviei duas perguntinhas ao autor Felipe Castilho:

O gênero da fantasia até pouco tempo atrás era reduto de fãs e aficionados. De duas décadas para cá, porém, ele atingiu público amplo e generalizado, e os livros de fantasia se tornaram best-sellers. O que você acha que aconteceu? Como a fantasia pode contribuir para inovar a literatura em si?

Acho que por muito tempo houve uma negação geral de que a leitura que simplesmente entretém também pudesse ser considerada arte. Isso mudou porque acho que muitos dos autores passaram a se preocupar tanto com a forma, estética e mensagem quanto com a dose de diversão de suas obras – e também porque muitas pessoas passaram a perceber que arte não é só o que elas gostam.

Enfim, acho que cada vez mais os autores de fantasia usam ingredientes “clássicos” em suas fórmulas (vide Guillermo del Toro, que faz sucesso de crítica e público com seus filmes) e com isso trazem um apanhado de influências muito bem-vindo, conquistando públicos mais amplos.

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Ordem Vermelha é uma narrativa sobre poder, injustiça e redenção. Como você acha que ela dialoga com clássicos do gênero, como O Senhor dos Anéis e Uma Canção de Gelo e Fogo? E o que traz de novo?

Acho que é uma narrativa mais ágil comparada aos dois citados, que sempre deram um escopo gigante do que é o mundo onde as suas histórias se passam. Untherak é um lugar pequeno comparado à Terra Média e Westeros, então a narrativa é mais claustrofóbica, focada em indivíduos, para aos poucos ir se abrindo e mostrando o mundo em que eles vivem.

A novidade acho que fica por conta da subversão das regras que a fantasia épica normalmente traz – a estética não é eurocêntrica e os problemas e perigos são familiares à realidade e diversidade do brasileiro. Quando a gente começou a criar esse universo lá na CCXP e na Intrínseca, eu brincava que o livro seria um Cidade de Deus em Westeros, um Trainspotting na Terra Média.



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