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Histórias de amor perdidamente passionais. Crimes hediondos. Acidentes lamentáveis. Vidas que vêm e vão, trilhando a trajetória de uma cidadezinha latino-americana genérica em momentos e fases diferentes. A ambição de retratar o mais banal cotidiano. A capacidade de exprimir o sentimento do mundo.

Assim, embebida em poesia e também naturalismo, é a série conhecida como Palomar, do quadrinista hispano-americano Gilbert Hernandez. Ela foi publicada inicialmente ainda no começo dos anos 1980, primeiro como fanzine e logo depois pela editora Phantagraphics, na seminal revista Love and Rockets. Desde então, pode-se dizer (sem apelar ao clichê) que o mundo dos quadrinhos nunca mais foi o mesmo.

Gilbert e seus irmãos Jaime e Mario trouxeram toda a vivência como filhos de imigrantes mexicanos na Califórnia para temperar seus quadrinhos com uma visão de mundo e experiências até então inéditas nesta forma de arte. Influências no clássico (Eisner) e no underground (Crumb) eram importantes, mas o contexto específico dos autores, que misturava punk rock com realismo mágico, fez toda a diferença.

Jaime é o homem responsável pela série Locas, sobre um grupo de garotas de forte personalidade vivendo aventuras e romances na era do berço do punk rock californiano. Gilbert, por sua vez, situou seu imaginário numa vibe mais “Gabriel García Márquez” (citado nominalmente no gibi), ainda que “garotas de forte personalidade” seja um ponto em comum entre os dois.

Ambos continuam a publicar esses personagens até hoje. Um inacreditável monumento em quadrinhos em décadas de produção. E a editora Veneta vem fazendo o favorzaço de republicar as histórias de Palomar em grandes coletâneas em ordem cronológica de lançamento. Já saíram “Sopa de Lágrimas” (em 2016) e “Diastrofismo Humano” (2017). Material dessa série não era publicado no Brasil desde 2004.

Obra insuperável
Vários críticos tentaram definir ou exaurir Palomar, porém o que mais se lê por aí é sobre a “impossibilidade” de se esgotar ou correlacionar e interpretar totalmente a série. Sua pungente humanidade se alia a riquíssimas estratégias narrativas e personagens magistralmente imperfeitos para extrair uma experiência de leitura profundamente emocionante.

Como Guimarães Rosa, Hernandez elabora uma visão incisiva do mundo a partir de pessoas e situações simples. Como García Márquez, ele amontoa dezenas de personagens em gerações e épocas distintas para criar um mosaico de narrativas lindamente intercaladas. Como Juan Rulfo, ele parte para um impressionismo indeterminado quando seus personagens devaneiam ou viajam para o passado com os pensamentos.

Palomar é o nome da diminuta cidade centro-americana em que ao menos três gerações de personagens conhecem os sentimentos humanos (o amor, a inveja, o desejo) em cruzamentos diversos no tempo. Hernandez constantemente narra em flashbacks pulando anos ou décadas, e seu inventário humano funciona como um quebra-cabeças preenchido em deliciosos capítulos.

Conhecemos, por exemplo, a desconfiada parteira Chelo, que traz à vida a maioria dos protagonistas. Sua “linha dura” a faz se tornar xerife da cidade. Há também a misteriosa (e voluptuosa) Luba, que funda o cinema de Palomar e tem quatro filhos com quatro homens diferentes. Nos emocionamos com a trágica história de Jesús, que vai acabar na prisão, e com seu grupo de amigos de infância, cada um em seu trajeto. Conhecemos os filhos destes personagens, e os filhos dos filhos. Poucos quadrinhos nos colocam diante de tanta intimidade social.

No segundo volume, a presença de um serial killer na pequena cidade revela evolução no pensamento do autor, que reflete sobre a degradação provocada pela modernidade, avançando brutalmente sobre o cotidiano antes “caipira” de Palomar. É a mais longa e complexa história destas publicações.

A inesgotável profundidade desta série certamente a coloca no panteão dos quadrinhos mundiais. Sua capacidade de ilustrar e representar o preconceito social, as ambiguidades identitárias e o protagonismo feminino a tornam uma HQ pronta para ser relida nos tempos atuais. Pouca coisa produzida hoje chega aos pés do que é exibido na revista Love and Rockets.

No início dos anos 80, um quadrinho continuado, estilo telenovela, que retratasse a vida cotidiana de pessoas comuns em mínimos detalhes e transformações era uma impossibilidade. Metade das HQs indie mundiais dos anos 2010 devem suas vidas aos irmãos Hernandez. É tempo de prestar-lhes devido agradecimento lendo sua obra insuperável.



 


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