*
 
 

Talvez você não conheça o legado da EC Comics, a lendária editora americana que, na ressaca da Segunda Guerra Mundial, elevou o jogo das então nascentes revistas em quadrinhos para outro patamar. Quando os gibis de super-herói pareciam perder parte de sua popularidade (dada a crise moral do pós-guerra), o editor William M. Gaines procurou trazer uma visão mais adulta e apelativa (beirando o que hoje chamamos de exploitation) para os comic books. Floresceram os gêneros como crime, horror, ficção científica e guerra. Novos caminhos estavam sendo apontados.

A EC prosperou por breves anos, e foram tempos inesquecíveis. Artistas essenciais, como Frank Frazetta, Al Willamson e Joe Orlando, brilharam primeiro por ali. Seus editores, Al Feldstein e Harvey Kurtzman, eram geniais não apenas nas subversivas histórias que escreviam e ilustravam, mas também na condução dos títulos, como Tales From The Crypt, Weird Science, Crime Suspenstories, além da revista de humor universitário MAD, a única sobrevivente.

Como se sabe, o primado da EC começou a ameaçar editoras como a então já gigante DC Comics. Cabeças decepadas, violência fratricida, tortura e muita imoralidade estavam entre alguns elementos das eletrizantes histórias (especialmente de crime e terror) que contagiavam todo tipo de público por volta de 1950. Isso levou a uma reação de setores conservadores da sociedade. Um famoso livro do psiquiatra alemão Fredric Wertham, de 1954, condenou os gibis como promotores da delinquência juvenil. Fogueiras foram levantadas. Um código de censura regulado pela própria associação nacional de quadrinhos surgiu, e as bancas de jornal pararam de aceitar o material da EC, que fechou as portas em 1956.

 

“É uma das grande tragédias culturais do século 20”, afirma o editor Rogério de Campos na introdução de O Perfeito Estranho, publicação da Editora Veneta (2018) com as melhores histórias ilustradas por Bernard “Bernie” Kriegstein – um dos mais cultuados artistas que trabalharam na EC. Logicamente, sob o olhar censório do Comics Code Authority, os quadrinhos se voltaram novamente para um imaginário infantil, e os super-heróis ganharam novo impulso. O resultado se vê hoje.

O lançamento é de crucial importância não apenas por resgatar, com lente de aumento, um artista maior como Kriegstein, mas também trinta e duas histórias da EC (em preto e branco, diferente do original colorido), escritas por artistas diversos e ilustradas por ele, entre 53 e 56. Quase tudo inédito no Brasil. Aliás, pouco da editora pôde ser lido por aqui. Que eu me lembre, há as sete edições, publicadas entre 1991 e 1992, de Cripta do Terror, publicada pela Record, limitando-se aos títulos de horror da EC, com algumas histórias dele.

Entre o operário e o artista
Bernie Kriegstein, por sua vez, consegue ser um caso à parte dentro da própria EC. De formação erudita, tentou a vida de pintor, ilustrador profissional e artista plástico antes de, por questões de “desemprego”, procurar a vida nos quadrinhos. Era fã de Picasso e Cézanne. Trabalhou para diversas editoras, e com diversos gêneros, até atingir a maturidade na EC, onde desenhou até 1956, quando abandonou os quadrinhos para se tornar educador e cristalizar sua carreira de artista plástico. Morreu em 1990 sem retornar à mídia que foi seu ganha-pão nos anos 1940 e 1950.

Kriegstein não era um mero ilustrador temperamental e vicioso de uma era operária dos quadrinhos, como eram tantos de seus pares. Sua formação erudita lhe concedeu uma visão cada vez mais incisiva sobre a linguagem da mídia, e aos poucos ele foi experimentando maneiras distintas de narrar, fragmentando as páginas em quadros picotados, simulando movimentos discretos, em “câmera lenta”, além de “vazar” os quadros, recursos que claramente vão influenciar artistas modernos como Frank Miller e Jim Steranko. Sua arte tem camadas de textura, retículas e um estilo anguloso, belíssimo no nanquim, que lembra Mike Mignola ou Ivo Milazzo.

Ler O Perfeito Estranho é realizar um mergulho neste febril imaginário da EC. Há roteiros de Feldstein, de William M. Gaines, coisas baseadas em Ray Bradbury. O estilo narrativo de Kriegstein, barroco e vertiginoso, favorece os famosos twist ends (finais completamente inesperados e chocantes) da EC, e privilegia um fator de maldição e circularidade irônica que acomete os seus personagens.

Há uma história em que um astronauta com dor de barriga vai parar no estômago de um monstro espacial, que o vê como uma indesejada indigestão. Em outra, um navio negreiro é sequestrado por alienígenas que transformam os escravizadores em escravos. Não há como esquecer também aquela em que duas empresárias das rinhas de galo e de cachorros terminam se atracando na arena, em meio aos cadáveres de animais mortos.

Muitos dos roteiros da EC podem parecer ingênuos e até pueris, mas esta é uma visão anacrônica, fora de contexto. Temas como loucura, drogas, questões sociais, éticas e morais são comuns e bem trabalhadas nestas histórias, que contêm grande quantidade de letreiros e diálogos (a famosa verborragia da EC), aproveitando a sua origem na literatura pulp. Na verdade, um nome como Kriegstein se situa exatamente entre o operário e o artista, como se uma ambição maior, por mais conquistas estéticas, estivesse transbordando a partir da limitação destes formatos.

Isso pode ser claramente visto em Raça Superior, uma história maior (de oito páginas), que é considerada a obra-prima de Kriegstein, escrita e desenhada por ele. Tendo lutado na Segunda Guerra, ele soube trazer o verdadeiramente horripilante imaginário dos campos de concentração a uma narrativa sintética e equilibrada, com acachapante força visual e textual. Ela é contada em primeira pessoa a partir de um sujeito traumatizado que perambula no metrô de Nova York, e as imagens que emergem simulam tropos de propaganda de guerra, sempre distintas do texto, em uma articulação perfeita que valoriza o preciso esquadrinhamento de Kriegstein, no ápice de sua arte. Claramente influenciou o romance gráfico Maus, considerado o quadrinho definitivo sobre o holocausto.

Hoje, os quadrinhos da EC são um patrimônio cultural da mídia, e poucos se arriscam a questionar sua qualidade e força de vanguarda. Muitos de seus temas controversos continuam tabus nos dias de hoje, e a abordagem gore das histórias de crime e horror são ainda capazes de causar repulsa. Porém, eles não se limitavam a agredir: basta conferir as histórias de guerra de Kurtzman, verdadeiros poemas fatalistas. Ou a própria obra de Kriegstein: alguém que infiltrou a semente do quadrinho moderno no meio de gibis de dez centavos que eram jogados no lixo logo após a leitura. Nada mau para um operário.



 


quadrinhosBernie Kriegstein