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Em 1951, quando o filme “Rashomon”, de Akira Kurosawa, venceu o Leão de Ouro no Festival de Veneza, um universo se abriu ao Ocidente: era a riqueza de décadas de história do cinema japonês. Por mais que o filme fosse extremamente moderno para a época (muitos o comparam a “Cidadão Kane”), trabalhando com incrível complexidade a problemática do ponto-de-vista e da narratividade, aquele despertar para a arte cinematográfica japonesa apontava para uma rica tradição de gêneros e nomes inesquecíveis (como Kinugasa, Ozu e Naruse) que foram desenterrados e ganharam culto por estas bandas.

“Rashomon” era apenas a ponta do iceberg. Com forte investida em filmes de época, de comentários sociais ou até experimentais, essas gerações de cineastas, depois de desveladas, jamais seriam deixadas de lado novamente. A escola japonesa caiu nas graças dos intelectuais do Ocidente e até hoje é uma das mais influentes sobre o cinema contemporâneo.

De certa maneira, um outro Akira protagonizou o mesmo fenômeno décadas depois, abrindo também o porto dos quadrinhos japoneses para o olhar ocidental. Estou falando, obviamente, da obra de Katsuhiro Otomo, publicada no Japão entre 1982 e 1990. O impacto da chegada desta HQ, publicada nos Estados Unidos pelo selo Epic da Marvel ainda no fim dos anos 1980 (e pela Globo, no Brasil, a partir de 1990) foi, com o perdão do clichê infame, como um tsunami. Ainda me lembro do brilho extasiado, de quem acaba de ver um mundo novo sendo descortinado, nos olhos dos meus amigos diante da leitura dessas preciosas edições (baseadas nas da Epic, colorizadas e em sentido “ocidental” de leitura) da Globo nos anos 1990.

O número 1 do “Akira” da Globo

Basicamente “Akira” trazia uma dose cavalar de impacto cyberpunk e imagens poderosas, demolidoras, carregando o leitor ao limiar da interatividade. Aquilo era um mangá, um tipo alucinado de quadrinho com radical visão sobre espaço, velocidade e densidade narrativa. Nada como aquilo existia nos quadrinhos americanos, por exemplo.

Diante de tanta potência, era questão de tempo, após “Akira”, para que o mangá sobrepujasse o mercado de quadrinhos ocidental. Como ocorreu com o cinema, os clássicos da HQ japonesa, como Tezuka e a geração dos gekigás, também passariam a ser cultuados por aqui.

Agora a editora JBC lança, finalmente, uma nova edição de “Akira” no Brasil, preta-e-branca como no original, restaurando também a ordem de leitura e as onomatopeias, além de traduzir o texto diretamente do japonês. Este lançamento é extremamente importante porque o gibi não envelheceu um dia, desde 1982 até hoje.

A nova edição, da JBC

O lastro de sua influência vai desde toda estética cyberpunk em mangás e animês (como “Ghost in the Shell” e “Kaiba”), como ao neossurrealismo no cinema japonês (Tsukamoto e Miike) até a estética “hard boiled” da era de bronze do quadrinho americano (Frank Miller, Geoff Darrow). Certamente “Akira”, ainda hoje, é poderoso combustível como inspiração nas mãos de um jovem quadrinista habilidoso.
Mas, afinal, de que fala “Akira”? A premissa é bastante delirante: no futuro, após uma guerra mundial nuclear, Tóquio se torna Neo-Tóquio, uma megalópole em ruínas dominada por gangues, rebeldes, soldados e agentes governamentais.

Os jovens amigos Kaneda e Tetsuo são membros de uma dessas gangues de motoqueiros, e acabam envolvidos numa trama conspiratória que inclui experimentos científicos capazes de desenvolver crianças (como o próprio Akira) com habilidades telecinéticas. Poderes grandes e incontroláveis demais para não serem disputados por todas estas facções, o que colocará os amigos em posição de inevitável conflito.
Além das implicações na urbanidade radical da HQ, sua visão pessimista sobre o futuro e sobre as instituições japonesas (e na atualização de uma visão sobre o jovem de então), “Akira” ainda prima pela exuberante arte de Katsuhiro Otomo, inovadora em vários sentidos, seja no efeito panorâmico das linhas de ação, no uso colossal das “splash pages” ou em ousados recursos narrativos. Em qualquer sentido que se olhe, “Akira” é uma obra-prima irretocável.

A série será publicada em seis volumes (mais de duas mil páginas!). Vinte e sete anos depois da primeira edição da Globo, o público brasileiro, hoje ávido por mangás, poderá conferir o arrojo da obra que os apresentou ao nosso país. Hoje, como no cinema pós-Rashomon, são favas contadas o gigantismo da tradição japonesa na nona arte do mundo todo. Chegou a hora, portanto, de investigar a pedra fundamental “Akira” e pensar novas pontes para o passado e o futuro dos quadrinhos.

mangaAkiraKatsuhiro OtomoEditora JBC
 


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