O presidente “bonequeiro” e os animais em extinção

O sr. Bolsonaro chamou os cearenses de cabeçudos e os jornalistas, de raça em extinção. Eu, jornalista e cearense, não curti a pilhéria

Gui Prímola/MetrópolesGui Prímola/Metrópoles

atualizado 08/01/2020 10:19

Você já foi esculhambado pelo presidente da República hoje? Dependendo da sorte ou do anjo da guarda, o(a) brasileiro(a) pode ser achincalhado até mais de uma vez por dia. Somente de sábado para hoje, este cronista que estreia no Metrópoles, por exemplo, foi alvejado duas vezes pelo trezoitão retórico do sr. Bolsonaro.

No primeiro pipoco, à queima roupa, chamou os cearenses de cabeçudos. Poderia ser apenas mais uma tirada sem graça de tiozão de condomínio da Barra da Tijuca. Acontece que ele tentou explicar a piada na live oficial: “Se bem que chamar cearense de cabeçudo, você não consegue identificar ninguém. Lá todo mundo é cabeçudo”.

Na luxuosa condição de cabeça-chata, não curti a pilhéria do presidente. O conjunto da obra “humorística” do ex-capitão – inclui quilombolas, gays, descendentes de orientais, paraíbas etc. – não o credencia a nenhum dublê do gênio Didi Mocó. Ô presidente bonequeiro, rapaz, como se diz em autêntico cearensês moderno.

Sim, botar boneco é o mesmo que chatear, encher o saco, é a arte do cricri por excelência, a criatura que larga seus afazeres para atrapalhar familiares, amigos e, em certos casos, até um país inteiro.

O segundo pipoco retórico do bonequeiro foi a ofensa aos jornalistas. Disse que éramos uma raça em extinção e deveríamos ser incorporados ao Ibama. Peguei logo a lista dos animais em perigo. Identifiquei-me com vários, especialmente com o soldadinho-do-araripe, pássaro de crista vermelha, típico do meu Cariri de nascença.

Deixo também aqui meu esgar de ariranha (Pteronura brasiliensis), ao sr. presidente. Um olho de indignação e o outro de desprezo. Assim mira uma ariranha, repare no Google Imagens – no Pantanal o bicho anda difícil. É, amigo(a), não dá para bancar o fofo e erótico boto-cor-de-rosa (Inia geoffrensis) quando o tiozão de condomínio desce o nível.

O dever do jornalismo é ser invocado qual um muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus), destemido feito lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) e repetitivo como um papagaio ajuruetê (Amazona aestiva), sempre perseguido mas ainda livre da lista da extinção. Um bicho teimoso que repita “cadê o Queiroz, cadê o Queiroz”, até que o rolo se esclareça na Justiça.

SOBRE O AUTOR
Xico Sá

Escritor e jornalista, nasceu no Crato, na região do Cariri cearense, e iniciou sua trajetória profissional no Recife. Ganhador de importantes prêmios do jornalismo, como Esso, Folha, Abril e Comunique-se, é atualmente colunista do jornal El País/Brasil e comentarista do Redação Sportv. Na televisão, participou dos programas Amor & Sexo (Globo) e Papo de Segunda (GNT), Extraordinários (Sportv), Linha de Passe (ESPN Brasil) e Cartão Verde (Cultura), entre outros. O mais recente lançamento literário é Crônicas para Ler em Qualquer Lugar (Todavia), escrito em conjunto com Maria Ribeiro e Gregório Duvivier.

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