Como Adriana Calcanhoto ensina a falar de amor com crianças

A música Alexandre é uma verdeira aula de que o afeto não deve ser esquecido

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atualizado 25/02/2019 16:33

Meus amigos têm tido filhos e, com isso, posso ouvir junto deles ótimas músicas infantis sem maiores julgamentos. Dessa forma, cheguei ao álbum Partimpim 2, da Adriana Calcanhoto. Mais especificamente, descobri a genial música Alexandre.

Primeiro que, quando comecei a ouvir, não conseguia entender o porquê de compor sobre a vida de Alexandre, o Grande. Na minha imaginação mesquinha, uma criança que tem celular não vai se interessar na história de um dos maiores conquistadores do mundo antigo. Isso era assunto para minha infância, que “ainda corria na rua e era educada pela clássica versão do Sítio do Pica Pau Amarelo”.

Pois bem, no modo aleatório, a música tocou e, de repente, veio o menino de 5 anos me olhar na cara e dizer: “Que engraçado, ele mudou o mundo antigo. Eu quero ver o mundo antigo!” E lá ficou eu com toda a minha empáfia sem saber como mostrar para ele esse tal de “mundo antigo”. Como pesquisaria no Google? Qual vídeo do YouTube deveria ver? Fiquei aperreado.

Pedi calma (para mim e para ele) e disse que a gente ia ouvir de novo a música, até eu saber como explicar a vida de Alexandre. Eu sabia até várias coisas, mas nada parecia contável a uma criança. Alguém disse que “Deus fez a palavra, e o diabo veio e botou a música” e Calcanhoto tem ambos os talentos. Ela conta sobre esse homem num complexo imbricado de palavras que só ela seria capaz.

Mas aí, na quarta estrofe, vêm os versos: “Com Hefestião, seu amado, seu bem na paz e na guerra/ Correu em honra de Pátroclo – os dois corpos nus – junto ao túmulo de Aquiles, o herói enamorado, o amor”.

Ela não se furtou a mencionar a bela história de amor de Alexandre e Hefestião! Nem Hollywood teve coragem de encarar de frente esse momento afetivo do herói. Nas suas cinebiografias sempre há a censura prévia do roteiro a respeito dessa relação e Adriana, lindamente, ainda coloca os dois amantes a renderem homenagem ao outro amor, próximo em seus moldes, de Aquiles e Pátroclo.

Estamos falando de um mundo Antigo, no qual a concepção das relações afetiva e sexual entre dois homens tinha um entendimento diferente do nosso. Era um outro modelo de algo que chegou até o século 21.

No fim, eu e meu amiguinho terminamos lendo sobre a vida de Alexandre numa enciclopédia (já que a gente estava no mundo Antigo, vamos buscar informações como eles). Vimos que o grande rei casou-se com Roxana e também amou Hefestião – um pouco diferente dos finais dos contos da Disney. A música de Adriana Calcanhoto ensina que o amor não pode ser escondido em nenhuma biografia.

Dicas!
– Neste Carnaval, Brasília terá uma novidade: o bloco Vai Virado Viado estreia um after com apresentações artísticas e produção 100% LGBT, desfilando em trio elétrico, a partir das 6h da manhã, no domingo (3/3). Saindo do Conic e chegando à Praça Central do Setor Comercial Sul, é realizado pelo Setor Carnavalesco Sul, e a festa MADNESS, que conta com o selo Folia com Respeito. No trio, estarão os DJs Le Caracortada, Wilker Leal, Bruno Antun e a banda Rainhas do Babado.

– E na folia, vamos proteger os nossos. Têm vários blocos LGBTs. Se liguem onde eles estarão e o horário!

SOBRE O AUTOR
Ítalo Damasceno

Formado em direito pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Escreveu sobre cultura em portais do Distrito Federal. É roteirista e já fez curso com o novelista Aguinaldo Silva. Recebeu o prêmio Beijo Livre de Direitos Humanos LGBT 2017 na categoria Mídia, pela coluna Vozes LGBT.

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