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Hoje eu cedo espaço para Klaus Miranda, de quem fui mentor no projeto Transformação, promovido pelo Livres & Iguais, da ONU (Organização das Nações Unidas) no Brasil. Este é seu trabalho final, uma coluna escrita por ele. Aproveitem esse talento!

Vogue na UnB: espaço de resistência

O vogue surgiu na cena underground dos EUA e foi popularizado na década de 1980. As houses de vogue formam uma cena ainda pouco conhecida no Distrito Federal, que abriga dançarinas de muito talento, sendo um lugar seguro para uma população tão exposta à violência. A experiência de ir a uma ball foi imergir num mundo de resistência e experimentação pulsantes.

Quando as pessoas ainda estavam se montando para o evento que aconteceria na Praça Chico Mendes, seguranças da UnB tentaram cortar a energia do local para impedir sua realização. Eles afirmavam não haver autorização da prefeitura, porém ela constava no calendário oficial da semana do orgulho LGBT da instituição. Para impedir o desligamento, os alunos se colocaram na frente do caminhão. O motorista parecia bem disposto a acelerar sobre a barreira humana até notar pessoas gravando a situação. A polícia, então, foi acionada.

Ao chegar, os policiais desceram da viatura exibindo armas e cassetetes, e cercando os alunos que estavam posicionados a todo o momento de forma pacifica. A Ball só aconteceu porque o Pai e a Mãe da House of Caliandra conseguiram articular e resolver a situação. Se não, a Ball poderia nem ter acontecido.

 

Esse episódio é um retrato do quão perseguidas ainda são as manifestações LGBT, principalmente as de origem afro-latina. Mesmo em um ambiente como o da universidade, todos ali sentimos medo do que poderia acontecer – e ainda acontece em outros momentos, dentro e fora do campus. Afinal, para nós, a polícia não é sinônimo de proteção.

Depois do susto, a Posithiva Ball, organizada pela Kiki House of Caliandra, teve início. O tema do evento: vidas positivas importam. Caliandra é uma flor do Cerrado apelidada de “flor do diabo” porque, dizem, suas raízes profundas podem alcançar o inferno. Para as integrantes da casa, esse nome simboliza a luta que travam todo dia, contra as intempéries do Cerrado LGBTfóbico, e a certeza da profundidade de suas raízes para superá-las.

Webert da Cruz/Divulgação

 

Quem abriu a noite foram As Malditas, em uma performance arrepiante. Em uma das músicas, o grito “fala baixo, cis, fala muito baixo” talvez resuma o sentimento que tive. Certas coisas, mais do que ditas, precisam ser ecoadas. Eu, enquanto homem trans afeminado, precisava ouvir aquele grito, aquela música, mais do que imaginava.

A House of Hands Up e a Caliandra são as principais na cena. A Hands Up surgiu em 2011 e foi a primeira house de Brasília, trabalhando a ocupação dos espaços públicos em busca da excelência na formação artística e de palco de seus integrantes. Hoje, ela também está presente em outros locais, como Campo Grande e Minas Gerais. Já a Caliandra vem das oficinas de vogue realizadas durante a ocupação de 2016. Cada casa tem uma identidade, hierarquia e propostas distintas dentro do universo vogue, mas todas carregam consigo traços únicos da identidade cultural do DF.

Durante o evento, uma nova casa foi anunciada: a House of Padam apresentou seus integrantes para a comunidade ao som de seu grito de guerra.

Webert da Cruz/Divulgação

A Padam teve seu nome inspirado pela música de Edith Piaf, Padam Padam, que é o “efeito surpresa” quando a orquestra realiza uma explosão de som de repente. Mas o termo tem vários significados. É como chamam uma das cobras mais venenosas da Índia e também a flor que fica nos pés do Buda.

É pulsante o talento, esforço e preparo das manas que competem. A energia do vogue, com todos unidos pelo mesmo objetivo, pela mesma arte, pela mesma oportunidade de expressão e de afrontamento, forma a cena mais autêntica que já tive a oportunidade de frequentar. A importância de um espaço seguro não pode ser descrita. Deve ser vivida.

Agenda especial
A Casa de Cultura da América Latina (CAL) e o Instituto Cultura Arte Memória LGBT+ farão a I Jornada de Poesia LGBT+. O evento gratuito ocorrerá nos dias 13 e 14 de julho, na CAL/UnB. Contará com cinco oficinas formativas, performances e sarau de lançamento de poetas LGBT, além de uma roda de conversa sobre a história da poesia trans no Brasil. A escritora e pesquisadora Amara Moira (Campinas, SP) e o poeta Esteban Rodrigues (Salvador, BA) participarão como convidados. Para se inscrever nas oficinas e saber da programação, é só clicar aqui: https://doity.com.br/poesialgbt.



 


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