A improvável combinação de vinho com pequi pode ser deliciosa

O fruto do Cerrado vai muito bem com a bebida: veja como combinar da melhor forma

atualizado 17/07/2019 11:25

Tinha eu 17 anos de idade quando meu pai me falou: “Arrume as malas, estamos nos mudando para Brasília“. Nossa saída, para pegar a Rio-Brasília, foi tão cedinho que ainda era noite. Éramos quatro, eu e dois dos meus irmãos mais novos e nosso pai ao volante do Ford Galaxie-500. Minha mãe e o caçulinha iriam depois de avião.

E o Galaxie flutuava sobre os quilômetros da estrada. Já peço desculpas pela falta de precisão nos detalhes, mas já faz 48 anos desde que tive 17 anos. Mas recordo nitidamente que foi em um posto de gasolina depois de Catalão, talvez aquele na entrada de Cristalina, que, em um 27 de fevereiro, nos encontramos com o pequi.

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Pequi

Achamos lindos aqueles grãos dourados! Com cara de apetitosos e muito perfumados. Compramos um saquinho e tocamos rumo à Brasília. Carro fechado e o aroma do pequi; ar-refrigerado ligado, e o cheiro do pequi; mais 10 quilômetros e a fragrância do pequi venceu, abri a janela e confesso, hoje envergonhado, que devolvi ao cerrado do Planalto Central aquelas lindas castanhas. Poderia ter sido pior, afinal nada sabíamos dos seus espinhos.

Hoje, quase cinco décadas depois, eu gosto de pequi, não ao ponto de comer, mas gosto. Tanto simpatizo que fui estudar as melhores harmonizações do vinho com ele.

Pequi e vinho

A sua polpa, de um amarelo intenso, cobre superficialmente a semente dura, formada por grande quantidade de pequenos espinhos. A maneira correta de comer é com as mãos, roendo o fruto, evitando cravar nele os dentes – o que pode causar sérios ferimentos nas gengivas e língua. As principais receitas nesse Goiás e aqui no nosso quadradinho são o arroz com pequi e o frango com pequi.

Para o arroz com pequi, algumas receitas mais sofisticadas, levam vinho branco seco. O ideal é sempre acompanhar o prato com o mesmo tipo de bebida que entrou em sua elaboração. Vivo em paixão com algumas uvas brancas, como a Sauvignon Blanc ou a Alvarinho dos Vinhos Verdes portugueses. Brancos com aromas de flores e frutos, acidez agradável e muito refrescantes.

Agora, o frango com pequi, já é uma outra história. A ave caipira, com sua carne mais parecida com a de caça, pede um vinho tinto, mas os taninos e o pequi brigariam muito entre si, portanto um tinto mais leve, um Pinot Noir ou um Merlot, atenderiam melhor.

Para ambas receitas o coringa de sempre, o espumante, um brut ou um rosé.

Divulgação
Marcelo de Souza
3 taças de vinho com Marcelo de Souza

O médico otorrinolaringologista é proprietário da Vinícola Pireneus Vinhos e Vinhedos em Cocalzinho-GO.  Atendendo um convite da D.O.C. Vinhos-DF, voltei à Vinícola Pireneus para visitar seus vinhedos e degustar um almoço harmonizado. Aproveitei para conversar com o Marcelo.

Sérgio Pires

Sou fã do seu entusiasmo e dedicação nesta aposta inusitada em desbravar o Cerrado para o mundo da uva e do vinho. O que te levou a acreditar neste potencial do nosso terroir?
Foi analisando as necessidades que a videira tem para amadurecer a uva e comparando às características climáticas de grandes regiões produtoras. O Cerrado de altitude possui dias secos e quentes e noites frias, períodos distintos de chuva e de seca, e, nosso grande diferencial, menos horas de sol. Essas condições permitem que a uva amadureça mais lentamente, ficando com excelente qualidade, base para a elaboração de um grande rótulo. Outro ponto positivo é que em Goiás não há frio suficiente para induzir a hibernação da videira, possibilitando duas colheitas ao ano.

Hoje a vinícola produz quantos rótulos? O que pode falar de cada um deles?
Atualmente, a vinícola produz cinco rótulos. Dois vinhos da faixa de Alta Gama, o Intrépido e o Bandeiras, e três da linha Terroir.

O Intrépido é um vinho 100% Syrah, com uma intensidade de aromas e uma potência muito grande. Possui um nível de taninos maior e o seu amadurecimento é bastante intenso, os taninos passam a ser aveludados com uma boa sensação de textura na boca. Com uma paleta de aromas de frutas vermelhas e negras muito maduras, associados a aromas de evolução de chocolate e minerais.

Sergio Pires
Participantes da visita à vinícola

O vinho Bandeiras é 100% Barbera. de textura mais sedosa, bem concentrado e denso, com aromas de frutas maduras, tabaco, especiarias e notas de chocolate.  Ambos são bebidas em que as uvas são colhida com o mais alto nível de maturidade que conseguimos alcançar, proporcionando uma estrutura tânica bem intensa. Com uma persistência gustativa muito alta. São vinhos com um tempo mínimo de 12 meses em barricas, sendo 30% em Carvalho novo, não passando disso. Com uma estimativa de sete a 10 anos de guarda, apesar de já poderem ser bebidos imediatamente.

A linha Terroir foi criada para destinar as uvas que não atingiram o nível de intensidade desejado para os vinhos principais. São varietais de Syrah, Barbera e Tempranillo, com estágio de seis meses em barris de Carvalho usados. Possuem aromas muito maduros e também intensos, expressando as características de cada uva aqui da nossa região.

Você adquiriu as terras em 2004, obteve a primeira safra em 2010, já produzindo vinhos premiados. Agora, qual a expectativa para 2019 e as novidades para os próximos anos?
A nossa expectativa é que, com a nossa área de produção (cinco hectares), possamos obter um maior rendimento, que ainda não está tão adequado, para fornecer vinhos de forma mais estável ao mercado.

Estamos esperando receber um investidor neste ano para ampliarmos a nossa capacidade de produção e também construir uma sede própria no vinhedo, com a ideia de fomentar o enoturismo no local.

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SOBRE O AUTOR
Sérgio Pires

Iniciou sua trajetória como enófilo na década de 1970. No final dos anos 1980, passou a estudar sistematicamente o tema e a realizar viagens a vinícolas. Após encerrar a carreira bancária, formou-se sommelier profissional pela Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-DF/UPIS). Profissionalmente atua como consultor, palestrante, articulista e jurado em eventos de vinho. É diretor da ABS-DF e professor em todos os seus cursos.

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