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O maior desafio dos concurseiros é conseguir aprender o suficiente para ter uma boa nota nas provas diante dos longos e profundos conteúdos exigidos nos editais. Ser competitivo significa, na maioria dos processos seletivos, ter pelo menos 75% de aproveitamento para não depender dos demais concorrentes. A teoria é bastante simples, porém, a prática tira o sono dos aspirantes a servidores públicos.

Há uma explicação para tamanha agonia: o processo de aprendizagem a que estão acostumados ao longo de toda a vida estudantil ignora a habilidade essencial quando se é concurseiro: a autonomia. Desde os primeiros anos de escola, são outras pessoas que definem o que estudar e como estudar. Também são terceiros que promovem a avaliação do conhecimento. Então, quando chega o momento de tomar essas decisões, os concurseiros sentem-se perdidos e têm dificuldade, inclusive, de montar uma grade horária de estudo.

Ao contrário do que muitos fazem, estabelecer os horários para estudar não é ter em mãos uma tabela como as que se conhece na escola ou mesmo na faculdade, quando só o papel de estudante é considerado. Adultos têm diversas responsabilidades e precisam dividir a atenção e a disponibilidade para todos eles. Ser concurseiro é mais um desses papéis.

A percepção temporal também é distorcida, tendo em vista que aquela tabela inflexível tende também a ignorar deslocamentos, refeições e, por que não dizer, tempo de lazer e descanso. Todas as vezes que vejo alguém tendo dificuldade em se comprometer com a preparação para concursos observo que o problema rotulado como falta de foco, de disciplina e outras denominações associadas à incompetência tem a ver com a fragilidade e o engessamento do planejamento criado.

É cientificamente comprovado que tomar decisões consome bastante energia e que, portanto, planejar com antecedência torna-se um caminho para minimizar os efeitos da procrastinação e da falta de direcionamento. Ainda assim, é inútil, para não dizer uma tragédia anunciada de ansiedade e frustração, querer fazer planos de ação de longo prazo sem validá-los semana a semana. Por isso, a minha sugestão é construir uma grade horária básica, mas conferi-la e negociá-la a cada semana e, se necessário, todos os dias.

Aprender a aprender
Depois de estar em paz com o tempo disponível, o passo seguinte é entender como se aprende. Absorver o conteúdo e transformá-lo em memória de longo prazo pressupõe, antes de mais nada, uma conexão emocional positiva e otimista sobre o que se está fazendo. Sem contar que é uma experiência totalmente pessoal, a começar pelo canal de aprendizagem preferencial: algumas pessoas são mais visuais, outras mais auditivas e em menor quantidade, mas ainda significativas, tem as sinestésicas.

Aqui, a primeira barreira a ser transposta: escolher formatos de materiais de estudo que aproveitem o perfil em que se aprende mais. Tradicionalmente, há mais opções para os visuais e auditivos, em função das aulas expositivas oferecidas presencial ou virtualmente. As variações podem ocorrer de disciplina para disciplina, o que sugere aos concurseiros que observem e adaptem o como aprender em cada caso. Português e Informática, por exemplo, são mais eficientes partindo da prática para a teoria. Matérias do Direito, que são muito teóricas e contraditórias, observando aplicações das leis e regras ao cotidiano.

Memorização eficiente
A memória não tolera forçar a barra para assimilar melhor. Tentar decorar muitas vezes é ineficiente. O que muitos ainda não entenderam é que adultos aprendem a partir da percepção de sentido real do que estão aprendendo para que se lembrem quando mais precisam: na hora da prova. Há uma necessidade urgente de amadurecer a forma de estudar para ter os resultados necessários para ultrapassar esse rito de passagem que é o concurso público. Uma boa estratégia é deixar de ter uma atitude proativa, anotando, junto com o que é apresentado pelos livros e aulas, situações que façam compreender melhor o que é apresentado.

Outro equívoco comum diz respeito ao que é revisar o conteúdo. Muitos prendem-se aos longos e cansativos textos, ao excesso de teoria e se esquecem do primordial: como cada conteúdo é entendido pela banca examinadora. Uma técnica recorrente é tentar burlar a curva de esquecimento, revendo só as anotações, livros ou aulas em prazos pré-definidos. Infelizmente, há dois erros no método: a prova não é teórica e o volume cobrado é extenso demais. A tarefa fica pelo meio do caminho e o sentimento de frustração faz com que a revisão se torne inviável.

O correto, mais eficiente e mais produtivo, é perder o medo da autoavaliação, resolvendo questões de provas anteriores em formato de simulados e analisando minunciosamente os resultados, a fim de identificar as lacunas do aprendizado para, então, voltar às origens do conhecimento e reforçar o aprendizado.

O melhor caminho é, sem dúvida, aprender a aprender e respeitar o fluxo: teoria, fixação – com anotações e algumas questões –, avaliação com simulados e autoanálises e, então, a revisão. Se esse processo for feito com cada tópico do conteúdo, os resultados tornam-se consistentes a ponto de garantir segurança e conhecimento necessários para uma postura competitiva nessa que, nem de longe, é a primeira prova da vida de um concurseiro.



 


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