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Aos 90 anos, em show comemorativo, Bibi Ferreira confidenciou ao público; “Sou artista. Nasci e cresci no palco. Portanto, quero morrer bem aqui, diante de minha plateia”. Na época, com vitalidade impressionante, a bailarina, atriz, cantora e diretora entrava no palco com uma vitalidade surpreendente. Havia, aqui e ali, um lapso de memória no roteiro do show, prontamente resolvido pela cola do maestro. Mas não existiam sinais claros de que a maior artista viva desse pais deixaria os palcos tão cedo.

Aos que pensam que vou desistir. Aviso: em breve, estarei em Nova York"

E esteve. Fez show incontáveis de Norte a Sul, sempre com humor afiado. Naturalmente, o corpo de Bibi Ferreira, entre os aplausos esfuziantes e os gritos de bravo, sentiu o peso da velhice. Antes da recente internação médica, ela já não andava mais sozinha até o centro do microfone, nem se lembrava de muitos detalhes entre as canções. A voz, no entanto, parecia de menina. Sempre foi assim, aliás. Bibi cantou como se fosse a garotinha de Procópio Ferreira, um dos mais populares e famosos atores brasileiros.

No início da semana (10/9), nas redes sociais da dama dos palcos, foi anunciada a sua aposentadoria. Bibi que vinha em ensaios para um show aguardadíssimo, o repertório de Dorival Caymmi, vai se recolher dos palcos.

“Bibi tem total consciência que sempre que esteve no palco deu o melhor de si, com o maior respeito e consideração ao público. E tem consciência que já deu o que tinha de melhor. Agora, vai descansar, dentro dos limites e condições que a idade lhe permite”, diz um trecho da nota.

A aposentadoria oficial de Bibi Ferreira interrompe uma carreira de 77 anos. Bibi caminhou do antigo teatro, feito pelo mestre Procópio Ferreira, ao contemporâneo e coleciona uma trajetória única no país. Não existe nenhuma intérprete que trilhou algo caminhou, com tanta desenvoltura pela arte, como ela nesse país. E fez tudo sempre com maestria. Da graciosa filha de um artista famoso que aprendia balé à fenomenal cantora que encantava plateias de diversas gerações e nacionalidades.

Para quem acompanhava a sua carreira, há um misto de vazio e de alivio porque o corpo físico estava visivelmente abalado. Uma das coisas mais impressionantes de Bibi Ferreira no palco era a energia com que explodia diante da plateia. A fragilidade física quebrava essa magia e a tornava vulnerável.  Foi ela mesma quem reconheceu que era melhor se recolher e sair de cena.

Bibi tem um sacerdócio em relação ao ofício de atriz e de cantora e zelava pelo corpo-voz poupando extravagâncias. Em 2010, recebeu o ator Jones Schneider para uma entrevista no seu apartamento no Flamengo para realizar o depoimento ao projeto Mitos do Teatro Brasileiro em homenagem ao pai. Venho em passos lentos, de óculos escuros e voz comedida. Sentou-se diante à câmera, dirigiu o enquadramento, tomou uma Coca-Cola e, quando ouviu “gravando”, abriu um sorriso e rejuvenesceu como num passe de mágica.

Fora do palco, estou sempre poupando minha energia. Falo baixinho, ando devagar, masco uma jujuba e toma minha Coca-Cola

O recolhimento será integral. Bibi não dará mais entrevistas. O tempo agora é de descanso. Para nós que vimos tantos shows, a memória de Bibi no palco estará latente e viva enquanto nossos corpos seguirem pulsantes e vivo .



 


bibi ferreira